Vinhos Os Vintage 2015 desceram a Sintra

Os Vintage 2015 desceram a Sintra

Foram 21 Porto Vintage 2015 em prova. No final, o Quinta do Vesúvio levou a taça. Tudo decidido em prova cega, que é como mandam as regras.
Edgardo Pacheco 29 de julho de 2017 às 13:00
O Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP) organizou uma … Ai, perdão. A Associação das Empresas de Vinho do Porto promoveu uma prova de …Oh, caramba, peço imensa desculpa. Agora é que é. O Bar do Binho, uma pequena loja particular de Sintra, pegou em 21 vinhos do Porto Vintage 2015 e deu-os a provar a clientes, comerciantes, escanções e críticos.

Estamos perante um evento especial em matéria de vinho do Porto? Sim. E por três razões. Primeiro, 2015 é uma colheita que tem dado muita conversa; Segundo, é a primeira vez que se juntam tantos Vintage 2015 numa única sala e, terceiro, não deixa de ser espantoso que seja uma entidade privada (uma loja/wine bar) a tomar a iniciativa de promover uma prova desta natureza. O Bar do Binho, por via do serviço que faz com os clientes, da organização do Porto Extravaganza e das provas temáticas que promove ao longo do ano, é a grande escola de vinho do Porto do país - coisa que deveria obrigar à reflexão dos responsáveis do IVDP sobre o papel do Solar do Vinho do Porto, em Lisboa.

Directo ao assunto, o Porto Vintage 2015 faz correr tinta porque há quem entenda que estamos perante uma colheita excepcional, pelo que deveria ser declarada como vintage clássico. No universo do vinho do Porto, estaremos perante um ano clássico quando todas as empresas (e em especial os dois grandes grupos ingleses Symington e Fladgate Partnership) decidem engarrafar Vintage com as suas marcas premium. Quando tal não acontece, as empresas engarrafam vinhos com marcas ditas secundárias, regra geral associadas ao nome das quintas de cada empresa, pelo que, na gíria, estaremos perante os "Single Vintage" ou "Vintage de Quinta". E foi o que aconteceu. Os ingleses não consideraram 2015 um ano "outstanding", logo, a maioria das empresas foi atrás.

É claro que há sempre quem diga que "é evidente que estamos perante um ano clássico" ou que "se não foi 2015 é porque os enólogos estão muito esperançados na colheita de 2016" ou que "as empresas não conseguem rentabilizar mais do que três grandes vintage por década" ou, ainda, que "a seguir à mítica colheita de 2011 será uma zaragata arranjar outra que lhe chegue aos calcanhares".

Como será compreensível, entre 21 marcas, encontraram-se vinhos com diferentes perfis. Vintage mais fechados, químicos, sérios e austeros (os meus preferidos) e Vintage com notas de flores e frutos pretos variados e compotas. Numa ou noutra marca foram detectados, aromas desequilibrados, desagradáveis e com sabores aborrachados.

Para introduzir seriedade na prova, Paulo Cruz, a alma do Bar do Binho, decidiu que os 21 vinhos seriam avaliados às cegas. No final, cada convidado anunciou quais tinham sido os três vinhos preferidos. Contas feitas, o vinho mais premiado foi o Quinta do Vesúvio (Symington), seguido do Pintas (Jorge Serôdio Borges e Sandra Tavares da Silva) e, de novo no mesmo grupo inglês, o Graham's Stone Terrace. Em quarto lugar, e com os mesmos pontos, ficaram o Quinta do Noval, o Cockburns e o Rozès Quinta do Grifo. Em quinto, os vinhos Quinta de Nossa Senhora do Carmo, Bulas Cruz e outro Rozès. Já agora, a minha escolha não coincidiu com a da maioria. O vinho que mais pontuei foi o Dow's Senhora da Ribeira (universo Symington) e, depois, duas marcas quase desconhecidas: o Noble & Murat e o Bulas Cruz.

Foram escolhas que me alegraram. Se por um lado votei às cegas numa marca que sempre me encantou (Dow's), em particular por causa de um certo carácter clássico na boca, com taninos mais secos, por outro achei interessante encantar-me por dois vinhos que não fazem parte do radar dos maluquinhos por vintage. De resto, Paulo Cruz garante que o Noble & Murat é o primeiro vintage da casa. Bela estreia.

E se alguém quer saber se neste lote dos 21 de 2015 há alguma coisa parecida com a colheita de 2011, eu, modestamente, digo que não. Não serei capaz de dizer se, daqui por 15, 20, 30 ou 40 anos, os Vintage 2011 continuarão a ser algo fora de série (é provável), mas, verdade se diga, enquanto Vintage novo, era algo nunca visto. Na cor, nos aromas profundos e desafiantes e na força de boca. Porque são diferentes? Ora, porque a natureza esteve para aí virada. Como sempre, a mão do homem pouco contou em matéria de Vintage.

De maneira que, durante umas três horas do passado sábado, viveu-se um ambiente festivo. Um coisa bonita de se ver.

A minha única tristeza - e estranheza - foi não ver marcas do grupo Fladgate Partnership na prova. E não me parece que tenha sido por falta de convite do Bar do Binho. Enfim, nada que não se possa remediar em próximos anos Vintage.





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