Weekend Patrícia Vasconcelos: Não consigo ser criativa numa coisa em que não acredito

Patrícia Vasconcelos: Não consigo ser criativa numa coisa em que não acredito

O sempre-em-pé que guarda desde menina é uma metáfora da sua vida. A “rainha dos castings” em Portugal, não é mulher de ficar agarrada à dor. Se cai, levanta-se e segue caminho. E tem andado por tantos.
Patrícia Vasconcelos: Não consigo ser criativa numa coisa em que não acredito
Bruno Simão
Filipa Lino Bruno Simão - Fotografia 29 de setembro de 2017 às 10:06
Está habituada a mudanças. Entre os 10 e os 24 anos viveu na ex-Jugoslávia e no Zaire, acompanhando a mãe e o padrasto, que era diplomata. Nesse período só viu o pai, o realizador António-Pedro Vasconcelos, nas férias. Teve desde cedo "olho" para descobrir oportunidades. Tudo começou com brincos, na adolescência. Agora está na organização do "A Quatro Mãos", um encontro de escrita para cinema e televisão em português. Mas o projecto da sua vida é a Mansarda, uma residência para artistas na terceira idade que queiram ficar agarrados à vida até ao fim, como ela.


Começou muito cedo a ir para os locais onde o seu pai [o realizador António-Pedro Vasconcelos] estava a filmar. Qual é a primeira recordação que tem de um "set" de cinema?

Lembro-me de que quando era muito miúda participei numa publicidade, eu acho que era para a Knorr. Entrávamos eu e o meu irmão. Tínhamos de provar a sopa e fingir que era muito boa. Mas aquilo sabia tão mal! (Risos) A memória seguinte que tenho, aí já mais de "plateau" de cinema, foi no filme "Oxalá". Eu devia ter oito anos, fazia de filha do protagonista. Só que depois, como era típico daquela época, o filme parou e quando recomeçaram a filmar eu já tinha crescido um palmo e tive de ser substituída.

 

O seu pai recorria aos filhos quando precisava de crianças nos filmes?

Estamos a falar numa época, nos anos 1970, em que não havia propriamente actores crianças. Era muito o "tu conheces alguém?". E eu sempre fui uma miúda muito desinibida.

 

Portanto, sentia-se já um peixe dentro de água nesse ambiente.

Completamente. Mas eu sou peixe em qualquer água. Sou do signo aquário e o meu pai é peixes. Mas curiosamente eu aos 10 anos fui-me embora [foi viver para Belgrado com a mãe e o padrasto, que era diplomata] e só voltei com 24 anos. Enquanto quando era miúda o cinema para mim era uma coisa normal, uns fins-de-semana diferentes, de repente, durante 14 anos, o meu mundo foi completamente outro e eu nunca mais me lembrei de como aquilo era. Não convivia com aquela realidade no quotidiano. De tal maneira que nunca quis trabalhar em cinema. Eu e o meu pai víamo­-nos duas vezes por ano, quando eu vinha no Verão e no Natal. No resto do tempo, comunicávamos por carta.

 

O que é que lhe contava nessas cartas?

O meu quotidiano e ele contava-me o dele. Questões com os financiamentos dos filmes, o que estava a a fazer, como é que estava o meu irmão.

 

Como foi ser arrancada às suas raízes aos 10 anos de idade?

Foi muito duro. Coisa que eu só realizo agora.

 

Na altura não lhe custou ir viver para Belgrado?

Há-de ter custado, com certeza. Eu tinha toda a estrutura da minha vida cá. Mas como sou muito… Bora! Era para ir, era para ir. Ia-me queixar para quê? Não podia fazer nada. Não sou pessoa de ficar na dor. Gosto de ser feliz e acho que sempre fui assim, desde que nasci. Com certeza que tive saudades. Não era como hoje, que se pode falar por Skype. Eu não tinha isso.

 

O bem mais precioso que temos é o nosso nome. Sobretudo para quem tem uma profissão mais exposta. Isso para mim é um orgulho. Tenho princípios dos quais não abdico. 

 

E a Jugoslávia [nação desintegrada em 1991 que deu origem a sete países] era um país diferente.

Completamente. Eu costumo dizer que saí de uma ditadura para outra ditadura, para outra ditadura. Andei sempre a viver em ditadura. Mas não tenho um complicómetro. Gosto de viver. Isto é um privilégio tão grande. Sou alegre, sou grata.

 

Descreve-se em criança como "muito palhaça". Era o centro das atenções?

Não. Não é nada disso. Sou muito alegre. A minha mãe costuma dizer que, quando nos acordava aos dois, o meu irmão pedia: "Ó mãe, só mais cinco minutos." E eu sentava-me na cama e dizia: "Bom dia, mãe!" Acho que ainda tenho isso. Por mais trambolhões que de vez em quando dê, levanto-me. Eu costumo chamar-me um sempre-em-pé. E, curiosamente, o brinquedo de criança que ainda hoje guardo é um sempre-em-pé. Lembro-me da primeira vez que fui "namorar", devia ter nove anos. Fui ao cinema Império com um rapaz ver o "Hello Dolly!" [um musical de 1969], que era o meu filme preferido. Já não me lembro quem era o rapaz, andava comigo no Colégio Moderno. Eu vivia na Alameda Afonso Henriques, desci a rua e levei o meu sempre-em-pé na mão. Tenho essa imagem de infância. Provavelmente eu sentia que era um amuleto.

 

Ter ido para o Colégio Moderno teve alguma coisa a ver com o facto de o seu pai ser amigo da família Soares, proprietária da escola?

O meu pai, a minha mãe e o Álvaro Guerra [o padrasto].

 

Que memórias tem de Mário Soares?

Tenho muitas memórias em Nafarros [onde a família Soares tinha uma casa]. Dava-me muito bem com a Isabel [filha de Mário Soares], que era uma adolescente na altura. Hoje em dia os pais fazem os programas em função dos filhos. Nós éramos levados pelos pais. E era maravilhoso. Lembro-me sobretudo do convívio. Havia uma piscina e eu brincava com a Isabel. Os adultos ficavam na conversa. Provavelmente a falar de política, não faço a mínima ideia, nem me interessava. Mas era como se fôssemos a casa de uns amigos. E eram.

 

Nessa altura da sua infância em que já participava em algumas coisas e ia assistir às filmagens do seu pai, alguma vez sentiu que um dia haveria de trabalhar naquele meio?

Não. De todo. A única coisa que eu me lembro que queria mesmo ser era bailarina. Andei no ballet.  Aos 10 anos quando me fui embora cheguei à Jugoslávia e não havia propriamente escolas de ballet, mas eu continuava a fazer exercícios. Depois fui para o atletismo e fui craque. Treinava seis horas por dia. Aquilo era uma loucura. Mas o ballet fazia-me falta e então dava aulas às crianças. A Barbra Streisand era o meu grande ídolo. Naquele filme ["Hello Dolly!"] ela era extraordinária, cantava, dançava e eu sempre cantei muito. O meu pai diz que eu era um pivetinho e saltava para cima da mesa a cantar a "Desfolhada" quando a Simone ganhou o Festival da Canção. Mas lá está, é o meu lado de palhaço. Eu metia conversa com as pessoas e perguntava: como te chamas? Quantos anos tens? És rica?

 

Queria saber se as pessoas eram ricas?

Pois. Não me pergunte porquê. (Risos) Porque será que eu fazia aquelas três perguntas? Isto para falar da minha desinibição. Mas nunca tive uma vocação específica que se percebesse em criança.

 

Na Jugoslávia sentiu-se numa redoma?

 Não. Hei-de ter tido momentos  em que senti que não falava a língua, que não conhecia ninguém, mas eu rapidamente dou a volta. Depois já sonhava em servo-croata, contava em servo-croata. Falava fluentemente. Ainda me lembro de algumas coisas, mas já não consigo falar fluentemente. Andava de autocarro, os meus amigos eram maioritariamente servo-croatas. Adaptei­-me completamente. Eu amei estar lá. Era um povo muito parecido com o nosso.

 

Em que sentido?

Na hospitalidade, na expansividade, na relação com a comida. Eu adorava a comida. As pessoas com quem convivia eram alegres, bem-dispostas. Eu, obviamente, não seria a mesma pessoa se não tivesse ido embora. Esta coisa de eu me sentir uma cidadã do mundo tem muito a ver com isso. Depois, aos 18 anos, de repente, mais uma vez tiram-me dali [foi viver para o Zaire]. Essa mudança custou-me mais. Já era uma adultazinha. Mas eu olho muito para o lado positivo das coisas. Mesmo nas dificuldades, olho sempre para o lado e penso: quem sou eu comparada com aquela pessoa?

 

Quando chegou à Jugoslávia houve um choque cultural?

Choque cultural não houve, de todo. Nós éramos uns privilegiados. Tínhamos uma loja diplomática em que se podia comprar os bens que não havia no supermercado normal. Ainda por cima, no primeiro ano, como a embaixada não estava aberta ficámos a viver num hotel. Havia embaixadores a viver por pisos. No sétimo andar era o Senegal, nós estávamos no décimo primeiro. Era muito giro.

 

Mas nesse período, dos 10 aos 23 anos, teve contacto frequente com o seu pai?

Tinha as cartas e as férias. E era intenso. Quando vinha passar férias ficava cá dois meses e meio ou três. Seria impossível não acontecer aquilo que acontece hoje em dia entre nós os dois, a cumplicidade. Porque, de facto, temos muito que ver um com o outro. Temos muitas semelhanças. É incrível a quantidade de coisas dele que me ficaram. O que eu acho é que já existia esta osmose. Não era a distância que nos ia fazer desligar. Temos parecido o cuidado com o outro, com o próximo. Hoje em dia, como convivo muito com ele, vejo que faço igual. O estudar as coisas até à exaustão. Eu vou pesquisar até à sétima casa para ter a certeza de que vou fazer um trabalho bem feito. Isso é uma coisa que eu vejo muito no meu pai. A preparação das coisas.

 

Revelou ter espírito empreendedor logo muito cedo. E começou tudo com brincos.

Quando vinha passar férias a Portugal,  eu queria ter o meu próprio dinheiro para comprar as minhas coisas. Não estava para pedir ao meu pai. Então, houve uma altura em que descobri um fornecedor da Casa Batalha. Era um velhote que tinha um escritório inacreditável com caixas e caixinhas. Aquilo era uma perdição. Então comprei montes de coisinhas, molas para os brincos e comecei a inventar. Fiz uma colecção que era só com dados. Depois passei por uma loja que vendia coisas de pesca e fiz outra colecção de peixes. Andava sempre a inventar. O meu pai fumava charuto na altura e tinha umas caixas espectaculares. Eu punha algodão lá dentro e expunha os meus brincos. Depois íamos para um célebre restaurante no bairro alto, que se chamava O Sorriso, que era da Teresa Ricou,  onde o meu pai jantava, e eu chegava com a minha caixinha, abria-a e punha-me a vender os brincos a toda a gente. Eu acho que as pessoas compravam só para eu me calar. (Risos)

 

Tinha que idade nessa altura?

Devia ter para aí 12 anos. Mas continuou pela adolescência. Todos os anos fazia isso. E fartava-me de vender. Até na Jugoslávia eu me lembro de vender. Depois passei para umas malas. Vi numa loja de discos, na Avenida João XXI, uma caixa de plástico transparente para arrumar cassetes e pensei: isto é muito giro para fazer uma mala. Então comprei uma, pedi ao meu irmão para fazer dois buracos, fui à Pollux, comprei um tubo de mangueira transparente, pus lá dentro uma coisa cheia de cores e fiz a pega. Depois pensei: isto é um protótipo muito giro, mas agora tenho de saber onde é que é a fábrica das caixas. Fui lá e eles disseram que tinha de ser uma empresa a fazer a encomenda. Falei com o meu tio, que era produtor de cinema, e pedi-lhe para encomendar que eu depois pagava-lhe. Quando chegaram as caixas fui para casa do meu irmão fazer os furos e depois fui vender à Migacho, que era a única loja que tinha coisas modernas, à Casa Africana e aos Porfírios. Os Porfírios disseram-me que nem pensar. A Casa Africana encomendou­-me logo 45. Muito rapidamente fiz o dinheiro e paguei ao meu tio.

 

Teve desde cedo sensibilidade para perceber onde estão as oportunidades. Foi assim também no cinema.

Sim, é uma característica minha. O "casting" começou assim.

 

Como foi a sua entrada no cinema?

Eu era hospedeira de terra da Lufthansa no Zaire e pedi transferência para Lisboa. Vim para cá a achar que iria continuar a minha carreira. Quando eles disseram que não me aceitavam, eu achei que o meu mundo ia acabar.   Custou-me horrores. Nessa altura questionei o que é que iria fazer. Nunca tinha parado para pensar nisso. Pus-me a responder a anúncios no jornal até que fui parar como secretária a uma feira de moda. Depois eles quiseram que eu ficasse, mas agradeci muito e recusei. Ficar num escritório não era para mim. O meu pai nessa altura estava a preparar um filme ["Aqui D’El Rei!" ] e como eu falava muito bem francês perguntei se me podia propor para ser motorista. Ele disse que sim. O filme era uma co­-produção luso-hispano-francesa. O produtor francês aceitou-me e eu tirava também fotografias aos locais de filmagens. Eu ia ouvindo as conversas e percebi que ia haver um grande guarda-roupa. Ofereci-me para trabalhar nessa área. Eram 500 figurantes por dia. Uma loucura. Eu era responsável por vestir os actores no plateau. E  via que de vez em quando havia umas minipersonagens, que diziam uma frase, tipo: "O chá está na mesa", que faziam perder tempo de filmagens. Não sabiam dizer a deixa ou não ouviam o realizador. Cansavam os actores porque tinha de se repetir e estava-se a gastar película. Houve uma altura em que eu pensei: mas quem é que escolheu aquela pessoa? Quem é que é o responsável por isto não estar a correr bem? E diziam os franceses "casting". E eu, "casting"? O que isso? E uma francesa disse que era a escolha dos actores.

 

Tenho a noção de que quando telefono a um actor por causa de um projecto, à partida ele acha que é alguma coisa interessante. Não faço uma coisa qualquer. 

 

Mas em Portugal não havia ninguém a fazer isso?

Não havia uma profissão. Havia uma agência que se chamava Perfil 35, que representava um leque de actores e que os punha em alguns papéis mas depois, para estes mais pequeninos, não havia um trabalho cuidado, de testar primeiro para ver se funciona. Por circunstâncias familiares fui para Paris durante uns meses e procurei na biblioteca informação  sobre a palavra "casting". Fotocopiei todos os artigos que havia sobre o assunto e fui para casa ler. Até que há um nome que se repete e percebia-se que era a pessoa mais conceituada no meio – Margot Capellier. Tinha começado no cinema mudo. Eu pensei: tenho de conhecer esta senhora. Eu liguei-lhe e disse, sou uma portuguesa, queria começar a fazer "casting" em Portugal e gostava muito de a conhecer e ela diz-me: "Demain, cinq heures." Lá fui eu bater à porta, nervosíssima. Ainda hoje me lembro de que nunca transpirei tanto na minha vida. Ela abre­-me a porta. Era uma senhora baixinha, estava descalça e tinha umas meias cheias de buracos. Ela sentou-se na secretária cheia de fotografias e perguntou-me: "Tu connais Luís Miguel Cintra?" E eu: claro. "Tu connais Maria de Medeiros?" E eu: claro. "Tu connais...", diz-me um terceiro nome que ainda hoje não sei qual é e eu fiquei a olhar para ela e disse: não. Ela diz-me: primeira regra do "casting", tens de os conhecer a todos. Tchau, boa sorte! Foi a lição da minha vida! Nunca mais esqueci.

 

Não deve ter sido fácil desbravar um terreno virgem em Portugal. Ainda por cima o meio era muito pequeno e estava muito colada à figura do seu pai.

Foi muito difícil. Ainda por cima os meus potenciais clientes conheciam-me de criança.

 

Desvalorizaram-na?

Não me deram muitos créditos.

 

Como é que começou?

Num filme francês. Era uma produção que se ia fazer em Portugal e eu tinha de arranjar actores que falassem francês. Mexi mundos e fundos e descobri todos. O primeiro filme português que eu fiz foi um do António de Macedo, que se chamava "Chá forte com limão", onde ele precisava de descobrir jovens e eu fui para as escolas. Deparei-me com uma miúda incrível que é a Anabela Teixeira e foi o primeiro trabalho dela.

 

Aceita qualquer filme ou é selectiva?

Eu não consigo ser criativa numa coisa em que não acredito. Tenho de acreditar que se vai conseguir fazer qualquer coisa daquilo. Hoje em dia tenho a noção de que quando telefono a um actor por causa de um projecto, à partida ele acha que é alguma coisa interessante.

 

A Patrícia é um selo de qualidade?

Dizer que sou um selo de qualidade é um bocadinho pretensioso. Mas não faço uma coisa qualquer.

 

É conhecida como a "rainha dos castings". Gosta desse título?

Essa frase é muito gira. Foi o Filipe La Féria que a inventou. Acho graça. Sou uma rainha sem trono. (Risos) Reconheço que tenho feito um percurso que é respeitado. O bem mais precioso que temos no mundo é o nosso nome. Sobretudo para quem tem uma profissão mais exposta. Isso para mim é um orgulho. Tenho princípios dos quais não abdico. Acho que é isso que faz com que se calhar eu tenha o reconhecimento das pessoas.

 

Não seria a mesma pessoa se não tivesse ido embora. Esta coisa de eu me sentir uma cidadã do mundo tem muito que ver com isso.

 

Como é que lida com aqueles que não têm os mesmo princípios?

 Sou muito directa. E acho que sou bastante intuitiva.

 

Essa tal intuição é importante também quando chega a parte dos castings na escolha das pessoas?

Essa intuição foi trabalhada.

 

Não é algo inato?

Não sei. Se calhar é. Trabalho todos os dias para continuar a ser um bom ser humano. O meu dia-a-dia é continuar a fazer coisas para uma sociedade melhor.

 

Isso parece um pouco utópico.

Para mim não é. Eu mudo o meu bairro. Agora sou mandatária da campanha de uma senhora para a Junta de Freguesia de Santo António. Sou de esquerda, mas não tenho nenhum partido. E sou muito bairrista. Para mim, a minha rua é a extensão da minha casa. Tenho muito esse lado social. Eu ainda acredito que posso mudar o mundo. 

 

Mas pensa entrar um dia na política activa?

Não. Acho que o meu contributo na sociedade não passa por aí.

 

Essa foi uma das razões por que se envolveu no Movimento Zero Desperdício?

Houve uma altura da minha vida em que passei por um momento muito difícil. Esse difícil não se compara com as pessoas que vivem na rua. Mas, para aquele que era o meu padrão de vida, foi um momento difícil. E, mais uma vez, o que é que eu fiz? Olhei para o lado. Pensei, olha ali tanta desgraça. Há tanto desperdício de comida que vai para o lixo e dava para comerem não sei quantas pessoas. Então, comecei a desenvolver um projecto que se chamava o Bairro do Amor. Se eu criasse aqui uma rede se calhar as pessoas não passavam tão mal. Até que um dia ouvi na TSF um piloto da TAP, o António Costa Pereira, que tinha feito uma petição contra o desperdício alimentar. Eu pensei: isto é espectacular! Entrámos em contacto. Ele contou-me o projecto e eu disse que tinha uma coisa semelhante e que queria muito juntar-me. Em quinze dias fizemos um hino tipo "We are the world", com 51 artistas. Montámos o projecto, fizemos uma associação, pusemos o desperdício alimentar no mapa. Ele fez uma coisa extraordinária, desbloqueou a lei da ASAE, que estava mal interpretada. Juntos, criámos ali uma energia com outras  pessoas. Quando se juntam vontades, acredito que se pode mudar o mundo.

 

Já tinha tido alguma experiência de voluntariado, antes disso?

Sim. Quando cheguei a Portugal. Havia umas voluntárias de bata amarela na Maternidade Alfredo da Costa. Fui tirar o curso e fazer voluntariado. Adorei. Eu sempre tive muito isso. Gosto genuinamente de contribuir, de ajudar. Nós vivemos em sociedade e temos de nos ajudar uns aos outros.


 

Mas há outro projecto social que a está a preencher agora. Chama-se Mansarda.

Esse é o projecto da minha vida. Há quase quatro anos deparei-me com um mundo que desconhecia, que é o da velhice, dos lares. Nunca tinha parado para pensar nisso e, de repente, vi a dificuldade que foi com uma pessoa próxima. Então eu pensei: não quero ser um encargo para os meus filhos. Vou organizar a minha terceira idade agora. O que eu quero mesmo é tomar conta dos meus, da minha área profissional. Então criei um projecto de uma casa onde eu possa receber, à minha maneira, sempre com muita vida e que seja um espaço criativo onde as pessoas estejam vivas até morrer. Que tenham uma ligação muito forte com os jovens, um intercâmbio de conhecimento entre novos e velhos. E, ao mesmo tempo, que a casa tenha um espaço onde se possam exprimir, uma sala de espectáculos, e um restaurante onde possam receber quem querem, aberto para fora. É uma residência. Comecei a estruturar isso, a convidar pessoas e agora já somos uma IPSS. Só nos falta a casa.

 

Voltando aos "castings". Tem de ter uma memória fantástica para perceber que aquele papel pode ser para aquele actor.

O "casting" é um processo criativo. É como compor um quadro. Eu não proponho uma cara porque sim.

 

Tem de conhecer o actor?

Não obrigatoriamente. Muitas vezes há pessoas que eu vejo no teatro. Tomo nota, registo, e quando estou a ler o guião, lembro-me. Sou capaz de ir telefonar a esse actor, cinco anos depois, porque me lembrei daquela imagem.

 

Já se arrependeu de ter escolhido alguém?

Sinceramente, não. Já me aconteceu ficar desiludida por o actor não ter sido muito profissional. Não ter feito o trabalho de casa. Surgiu uma oportunidade e foi mal agarrada. Isso custa-me.

 

Como é que se diz a uma pessoa que vai a um "casting": esquece, não serves para isto?

Não se diz. A vida encarrega-se de dizer. As portas não abrem. É uma profissão muito dura. 

 

Quando é preciso escolher miúdos é mais difícil?

Eu não acho. "What you see is what you get." Está lá tudo. Adoro trabalhar com crianças. É muito mais fácil.

 

Já foi a algum "casting"?

Já. Fui a um para vozes de um filme da Disney. Adorei estar do lado de lá.

 

Foi escolhida?

Não.

 

Os anos da troika parecem ter sido inspiradores para uma série de filmes portugueses que tocam temáticas ligadas à crise e que estão a ganhar prémios lá fora. O mais recente é "A Fábrica de Nada", do Pedro Pinho. Como é que está a indústria do cinema neste momento em Portugal?

Tomara  nós termos uma indústria! Temos à partida um problema de escala. Mas, de qualquer forma, há uma forte tentativa de se fazerem mais filmes, muitas vezes até sem subsídios. E que têm feito boa bilheteira. O cinema português é muito premiado lá fora. Há um trabalho que eu acho que ainda pode ser feito com o público. Às vezes fico um bocado chateada porque [os realizadores] não pensaram no espectador. Não sei se estou a ser injusta na minha análise, mas ponho-me na pele de quem pagou bilhete. Custa-me ouvir: "Eu não vou ver filmes portugueses." Não é ir ver um filme português, é ir ver um filme. E, com o meu projecto "Passaporte", luto e acho que tenho conseguido, que não haja esta coisa do actor português, mas sim um actor que vive em Portugal. São actores que têm nacionalidade portuguesa, mas que podem perfeitamente fazer papéis de outra qualquer nacionalidade. Temos a vantagem de não ter os filmes dobrados e por isso a maior parte de nós não tem sotaque. Isso é uma vantagem enorme. Muitos actores, inclusive, já foram para fora fazer projectos incríveis.

 

Sou muito bairrista. Para mim, a minha rua é a extensão da minha casa. Tenho muito esse lado social.  

 

Mas o seu trabalho aí qual é?

Há dois anos consegui financiamento e trouxe directores de "casting" de vários países a Portugal para verem a qualidade dos actores. Ficou tudo maluco! Nem estavam a acreditar naquilo que existia aqui. O programa "Passaporte" basicamente é isso. Eu sou um elo.

 

E já houve algum desses actores a conseguir um papel lá fora?

O Albano Jerónimo foi logo fazer a série "Vikings". A seguir, a Maria João Bastos foi fazer uma novela na Globo, já tinha lá um pezinho, mas estava cá o director de "casting" e levou-a. Este ano, o Simão Cayatte foi fazer um filme a França. O José Fidalgo vai agora para o Brasil fazer uma novela.

 

Está a organizar o primeiro encontro dedicado à escrita para cinema e televisão em português, o "A Quatro Mãos". Há uma falta de guionistas em Portugal?

Aquilo que oiço sempre dizer é que há pouca gente a escrever. As televisões têm o seu núcleo de guionistas, o cinema tem vários guionistas, mas não há uma escola de guionismo [em Portugal]. Temos de nos juntar e abrir portas. Nem toda a gente tem a possibilidade de ir tirar um curso a Inglaterra, França, Itália ou aos Estados Unidos. Neste encontro trazemos cá grandes nomes, todos reconhecidos no meio. Tentámos abranger as várias áreas, desde a escrita para televisão, cinema, teatro, novelas, séries, terror, curtas­-metragens. Há toda uma série de coisas que tentámos fazer nesta primeira edição. Esteve cá o produtor e realizador do primeiro filme que foi uma encomenda da Netflix, que vem explicar como é que um guionista chega à Netflix. Tudo isto é muito importante para perceber que, de facto, é possível chegar lá.

 

Ainda parece ser um mundo muito distante.

Mas não é. É como a história do "Passaporte". De repente como é que duas actrizes portuguesas estão a fazer "casting" para a Nespresso, com o George Clooney? Não foram escolhidas. Ok, mas estavam lá. Não sei quantos actores portugueses fizeram "casting" para o James Bond. Não foram escolhidos. Não interessa. O Sam Mendes viu. Muitas vezes é uma questão de sorte, de oportunidade. Estar no sítio certo, à hora certa. 





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