Weekend Património rural: Um encanto na vida dura

Património rural: Um encanto na vida dura

Um livro de fascínio, de um designer de topo, combate o esquecimento e devolve o devido valor ao património rural português.
Património rural: Um encanto na vida dura
José Vegar 26 de Novembro de 2016 às 10:15
Faltam apenas alguns dias para "The Hard Life", de Jasper Morrison, estar disponível no circuito global virtual de venda de livros, nomeadamente na Amazon. Os leitores deste espaço que não tiveram ainda oportunidade de aceder à comunicação do conteúdo da obra referida devem desde já tomar em conta que é uma das maiores homenagens alguma vez feita, e também um dos maiores milagres, à cultura e à sociedade portuguesas.

No essencial, o livro de Jasper Morrison, um dos mais respeitados designers no activo, é uma partilha, primeiro, e o resultado do fascínio do autor, depois, pelos objectos utilitários criados durante décadas no contexto do mundo rural português. O acesso aos objectos não foi feito através de uma campanha de Morrison no terreno, mas após repetidas, e de acesso ilimitado, visitas às Galerias do Mundo Rural do Museu de Etnologia, em Belém, Lisboa.

A publicação de "The Hard Life", numa edição cuidada da Lars Müller, obriga ao apontamento de uma série de notas, todas elas tocadas em simultâneo pela alegria e pela melancolia, o que também é algo bastante português. A primeira destas notas é a de que o designer elabora com fascínio assumido sobre uma série de objectos rurais portugueses, procurando responder a uma pergunta extremamente simples, mas que envolve enorme riqueza: como é que portugueses de norte a sul, dominados pela rudeza e pela pobreza da vida rural, conseguiram criar objectos funcionais, de ferramentas agrícolas a mobiliário caseiro, tão bonitos e harmoniosos?

O lado melancólico desta nota é que os objectos existentes nas Galerias do Mundo Rural, reunidos graças a uma fantástica aventura de anos no terreno por parte de um grupo de etnógrafos, estão lá há décadas, quase ignorados e esquecidos, apesar dos esforços regulares de chamada de atenção por parte de um grupo de fanáticos, nos quais se inclui o autor destas linhas.

Daqui não há outro caminho a tomar que não seja o da nota sobre o nosso património e o seu valor para os portugueses contemporâneos e para o mundo. O livro de Morrison mostra, de novo, a riqueza patrimonial portuguesa numa área muito pouco estudada, a vida rural, e num período dilatado de tempo, que em alguns casos é de séculos, ou seja, desde que os homens aprenderam a moldar a madeira com o recurso a ferramentas de ferro.

Este património é realmente rico, tanto ao nível científico, como estético e, em alguns casos, é mesmo singular ao nível global, o que nos permite ter um orgulho verdadeiramente especial.

No entanto, mais uma vez, a vertente melancólica é que este património, e o conhecimento que envolve, raramente saiu dos trabalhos académicos de etnógrafos e do museu lisboeta. Deste modo, a terceira nota não poderá ser outra senão a que se segue. O encerramento do património rural português, e o encerramento do saber e da sua importância, no Museu de Etnografia pode ser classificado como algo próximo de crime.

A existência e a publicação do livro de Jasper Morrison é uma oportunidade de ouro para os decisores públicos e os investidores em bens culturais accionarem estratégias para alterar esta paisagem, tão desolada como um campo sem cultivo por falta de chuva.

A importância dos pequenos operadores

Os maiores heróis desta batalha contra o desaparecimento do património rural português são os antiquários regionais de norte a sul e os particulares e os seus pequenos museus. Os primeiros, ainda desvalorizados pela classificação de "loja de velharias", continuam a reunir e a comercializar peças de grande valor. Os segundos, movidos talvez pela nostalgia, gastam tempo e dinheiro a criar nas suas propriedades pequenos museus, que são, no entanto, incrivelmente ricos de objectos de relevo. Uma palavra ainda para algumas autarquias, que levantam pólos culturais do mundo rural.


*Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa. 




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