Weekend Pia Mancini: Precisamos de repensar as nossas instituições políticas

Pia Mancini: Precisamos de repensar as nossas instituições políticas

Adaptar a democracia às novas lógicas digitais é um dos grandes desafios actuais, diz a cientista política Pia Mancini, oradora no debate “Que Democracia?”, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a 7 de Outubro.
Pia Mancini: Precisamos de repensar as nossas instituições políticas
Fernando Sobral 02 de setembro de 2016 às 13:00

Pia Mancini, cientista política de origem argentina, procura uma alquimia adaptada às nossas sociedades que possa reinventar a democracia tal como a conhecemos. Não sendo uma tarefa fácil, é um desafio aliciante. Tendo trabalhado para organismos públicos e "think tanks", dedicou-se a lançar organizações e projectos que possam levar os cidadãos a actuarem de forma activa nas decisões políticas em todo o mundo. Isso pressupõe um encontro de emoções e tecnologias, de ideias, financiamento e aplicações tecnológicas.

Muito disso serviu para Pia Mancini avançar, com outros, na criação de um partido na Argentina e de uma plataforma digital, a DemocracyOS, que funcione como alternativa às estruturas esclerosadas dos partidos políticos convencionais. Adaptar a democracia às novas lógicas digitais é o grande desafio que transporta no seu discurso persuasivo. Vai ser uma das oradoras do encontro anual da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a 7 de Outubro, que este ano está subordinado ao tema: "Que Democracia?". Antes da sua presença em Lisboa, antecipa algumas ideias para o século XXI.

 

Em 2014, numa conferência da TED Global, disse: "Sinto que todos concordamos que estamos a mover-nos rumo a um novo modelo de Estado e de sociedade. (…) Somos cidadãos do século XXI, fazendo o melhor possível para interagir com as instituições desenhadas no século XIX, que eram baseadas da tecnologia de informação do século XV". Como podemos modificar esta grande contradição democrática?

Precisamos de repensar as nossas instituições políticas. Não penso que seja uma contradição inerente à democracia mas ao tipo de democracia representativa que utilizamos. As instituições não são construídas no vazio, respondem a uma determinada tecnologia, a um contexto social, político e económico. Este contexto mudou radicalmente, e o sistema político não mudou em conformidade. O sistema de governo e a organização política baseada no Estado-nação como poder supremo de união é o produto de um momento na História, ou seja, é a altura de nos darmos a oportunidade de desenhar novas estruturas que correspondam ao contexto actual.

 

Como é possível utilizar a tecnologia para quebrar as barreiras entre políticos e cidadãos? É possível reinventar a democracia na era digital?

Claro que é possível! A democracia é uma obra em construção, necessita de se metamorfosear com o tempo, porque, de outra forma, deixa de ser uma democracia. As novas tecnologias de comunicação baixam as barreiras para aceder à participação, são globais por definição e o seu local é não territorial. A Internet tornou-se uma jurisdição que suplanta os Estados-nação e isso permite novas organizações e novas fórmulas de governação.

 

Num momento em que o contrato social feito após a II Guerra Mundial está estilhaçado (como vemos na Europa com o fim próximo do Estado Social), como é possível reinventar a democracia quando ela está sob pressão do poder económico e do populismo?

O contrato social que produziu Bretton-Woods, a União Europeia e o Estado Social, foi um contrato moderno acordado entre os investidores desse tempo: o Estado-nação e as organizações supranacionais. A sua credibilidade foi minada pela inabilidade para resolver crescentes e complexos problemas, bem como para abrir espaço para as novas demografias que reclamam um lugar na mesa. O Brexit, Trump, Le Pen, são todos filhos deste falhanço. Acredito que o desafio que a nossa geração enfrenta é de como articular uma alternativa viável a este contrato social e assegurar que a arena política não é ocupada pela intolerância, pelo ódio e pelo racismo. Isto significa experimentar diferentes modelos de governação. Tecnologias desafiadoras como a Bitcoin e a Ethereum Blockchains, experiências organizativas como a DAO e a OpenCollective, são passos nessa direcção.

cotacao A democracia é uma obra em construção, necessita de se metamorfosear com o tempo porque, de outra forma, deixa de ser uma democracia.

Qual é a essência da DemocracyOS e da plataforma digital? Como funciona na Argentina? Os portugueses podem usá-la?

A DemocracyEarth (derivada da DemocracyOS) é uma plataforma que utiliza a localização para se fazer propostas e se poder votar nelas. Pode ser utilizada de diferentes formas. Uma pequena organização, como a direcção de uma empresa, pode usá-la para voto seguro; a plataforma também pode, de forma segura, armazenar fundos através da Bitcoin e encontrar um orçamento. Um governo pode usá-la para eleições ou referendos. As experiências feitas com a DemocracyOS incluem a sua utilização pelos congressos de São Paulo, no Brasil, e Buenos Aires. Portugal pode usar a plataforma para abrir canais para que os cidadãos participem.

 

Em 2012, criou um novo partido, o Partido de la Red, que deseja que os seus representantes no Congresso possam votar de acordo com os desejos dos cidadãos. Como é que isto pode funcionar?

Criámos o Partido de la Red para concorrer a eleições com a ideia de que os representantes apenas votariam no Congresso segundo as decisões dos cidadãos no DemocracyOS. Foi, essencialmente, uma forma de mostrar que podíamos construir formas para que todos pudessem participar no debate e votar no final. É importante enfatizar o debate na nossa proposta porque a noção de democracia perdeu esta lógica. Costumamos pensar a democracia como simples agregadora de preferências. É uma definição pobre da democracia. Uma mais interessante inclui um processo deliberativo robusto.

 

Isto pode ser um método para trazer mais transparência e responsabilidade?

Sim, mas não apenas isso. Também compromisso. A ideia de que só precisamos de tornar os nossos governos transparentes é fraca. Precisamos de aprender, como cidadãos, a comprometer-nos e sermos responsáveis pela nossa governação. De outra forma, continuamos a subcontratar o nosso poder de decisão a outros.

 

Há quem diga que os jovens não estão interessados na política. Não estão? E a Pia Mancini, tem ambições políticas?

Eu tenho a ambição de ajudar a remodelar a forma como nos governamos.

 

Vemos uma crescente cartelização na política porque a maioria dos grandes partidos pensa da mesma maneira e apresenta o mesmo produto às pessoas. Esquerda e Direita são coisas do passado?

Penso que as suas visões do mundo são mesmo coisas do passado. São o resultado de um mundo mais compartimentado onde se pertencia a um partido para toda a vida – da mesma forma como trabalhavas para a mesma empresa durante quase toda a vida. O mundo tornou-se mais complexo, mais pequeno, as identidades estão constantemente a ser revistas, identificamo-nos com diferentes comunidades durante um período mais pequeno.

 

Os novos donos da economia global são da economia digital, como Bill Gates ou Mark Zuckerberg. Mas a sua ideologia não tem nada que ver com as estruturas do poder do universo industrial ou financeiro. Têm um poder político independente e não desejam criar um novo pacto social. Que nova relação política trazem? Devemos recear isso?

Não estou completamente de acordo com isso, pois penso que eles são próximos das estruturas actuais de poder. Eric Schmidt, o "chairmain" da Alphabet e antigo CEO da Google, está a liderar o novo esforço do Pentágono para perceber a tecnologia. Jared Cohen, da Google, esteve a trabalhar com Condoleezza Rice e também com o Departamento de Estado de Clinton. Mark Zuckerberg participou na criação da Cimeira da América quase como se fosse outro Chefe de Estado. Muitas destas empresas construíram portas de saída para a NSA e têm ajudado na recolha maciça de informação. Isto está longe de ser neutral e é bastante político. São jogadores ideológicos. A batalha entre a Apple e o FBI na criptografia é extremamente ideológica, mas as suas linhas de divisão não podem ser definidas como se fossem de esquerda ou de direita, mas entre privacidade "versus" vigilância, sistemas abertas ou fechados, por exemplo.

cotacao Precisamos de aprender a ser também responsáveis pela nossa governação. De outra forma, continuamos a subcon-tratar o nosso poder de decisão a outros.

Na democracia clássica da Grécia, baseada na cidade, os cidadãos votavam nas políticas públicas e depois escolhiam as pessoas que as iriam aplicar. Platão dizia que a comunidade deveria ser pequena para actuar como uma unidade. Durante a recente crise, isso funcionou bem num país pequeno como a Islândia, mas foi diferente em Portugal, Grécia ou Irlanda. Pode a "democracia digital" funcionar em países grandes?

Precisamos de avançar além do pensamento sobre o futuro da democracia em termos de Estado-nação. O sistema de organização política actual é o resultado da necessidade de termos uma burocracia para gerir vastos territórios, ao mesmo tempo que se modela uma sociedade uniformizada que era ajustada para um modelo económico industrial. Uma mais sensível estrutura contemporânea será uma estrutura de comunidades. Comunidades que podem ser locais ou globais. A questão que vale a pena colocar, na minha óptica, é se a democracia digital pode ser o sistema de governação flexível que as nossas sociedades do século XXI necessitam. Penso que esse é um bom ponto de partida.

 

Pensa que as inovações, na política, estão a vir das margens dos velhos partidos e estruturas?

Estão a vir inteiramente de fora dos velhos partidos e estruturas. É um cliché, mas é quase impossível, para o peixe, perceber o conceito de água. Os partidos estão imersos neste sistema político, são uma consequência dele e alimentam-no simultaneamente.

 

Um dos mais conhecidos escritores portugueses, José Saramago, escreveu: "Penso que somos cegos. Cegos que podem ver, mas não vêem". É este o grande problema hoje, na sociedade da velocidade?

Penso que estamos imersos num sistema que produz o que somos levados a consumir e que, ao mesmo tempo, trabalhamos para manter. Interiorizámos a noção de que o que temos é o que existe, e isso é falso. Nós não estamos amarrados a este sistema de governo, nós, colectivamente, somos o seu proprietário. O desafio está em como podemos coordenar um suficiente desejo descentralizado para desenhar um novo contexto.

 

Um dos escritores argentinos que prezo, Alan Pauls, em "Uma história do Dinheiro", escreve: "O dinheiro exige um grande preço de todos nós. Pagamos afectuosamente – com o nosso carácter, o nosso trabalho, as nossas relações – para o adquirir. É capaz de ser a coisa mais cara das nossas vidas". O dinheiro raptou as nossas sociedades?

O dinheiro é o grande vencedor da corrida da globalização. A religião foi um bom vice-campeão, mas, no fim, o dinheiro é o que mais de sete biliões de seres percebem e partilham.

 

Num mundo da globalização, como vê o regresso do populismo e do nacionalismo como o de Donald Trump?

Com horror e com um sentimento profundo de que falhei em algo. Não conheço uma única pessoa que vá votar em Trump, e isso diz-nos como estamos fora de contacto, nós, os liberais, abertos, globalizados, pessoas P2P, com uma parte substancial das nossas sociedades. Talvez passemos demasiado tempo a olhar para o mundo e muito pouco tempo a olhar para o nosso pátio da retaguarda.





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Criador de Touros 02.09.2016

Parece que a menina é partidária da democracia directa, o que, em termos de net, poderá ser tendencialmente anarquizante. E agora da Argentina aparecia uma papisa da política com pinta de RP de discoteca. Vejam se ganham juízo !...

Criador de Touros 02.09.2016

Repensar com que ideias ? Mais balda ainda ? Pela cara vê-se que é especialista...

utopia 02.09.2016

(Continuação) Comunismo e a Esquerda já mostraram que não havendo nada para roubar (aos da direita) não se governam. resta uma raiva incontida ao capitalismo, á globalização e ao poder financeiro e multinacional. Assim resta umas carinhas larocas para falar sem conteudo

utopia 02.09.2016

(Continuação) Comunismo e a Esquerda já mostraram que não havendo nada para roubar (aos da direita) não se governam. resta uma raiva incontida ao capitalismo, á globalização e ao poder financeiro e multinacional. Assim resta umas carinhas larocas para falar sem conteudo

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