Weekend Raquel André: Coleccionadora de Intimidades

Raquel André: Coleccionadora de Intimidades

A sua colecção é peculiar. Raquel André colecciona pessoas. Junta as suas memórias, os seus gestos, as suas palavras. Mostra-as depois em palco. Tudo isso é efémero. À imagem do seu trabalho.
Raquel André: Coleccionadora de Intimidades
Bruno Simão
Wilson Ledo 28 de outubro de 2017 às 11:00

Raquel André tem tatuado, num dos braços, a palavra "Efémera". Foi uma coleccionadora de tatuagens que lha deu, em Berlim. É sempre assim: de cada coleccionador traz um objecto. "Alguns são muito frágeis, como um copo de cristal ou uma fotografia".

Quando está na casa das pessoas, em frente às colecções, um mundo revela-se. Histórias, lugares, tradições, geografias. "No segundo ou terceiro encontro, encontrei uma coleccionadora de camélias. E colecciona uma coisa tão efémera quanto o meu trabalho. Guarda o momento em que deram flor". Em um ano, já descobriu oito coleccionadores de plantas.

São histórias como esta que Raquel André, artista sempre entre Portugal e o Rio de Janeiro, tem para contar em Colecção de Coleccionadores. "Percebi que, na verdade, o que coleccionamos é a memória de alguma coisa, uma falta. Todos nós somos coleccionadores, todos temos um conjunto de objectos que contam a nossa história".

Este é um dos capítulos de um projecto mais amplo, que se divide em quatro: coleccionadores, amantes, espectadores e artistas. Tudo começou em 2009, estava ela a estudar teatro. Encontrou, no lixo à porta de um prédio, uma caixa com 650 cartas, das décadas de 1970 a 1990, entre Portugal e a Bolívia.

"De repente, dediquei um Verão a organizar cartas. E decidi fazer um espectáculo sobre essas cartas. Nesse momento, comecei a pesquisar sobre a ideia de colecção e de arquivo, como organizar aquela informação e aquilo que podia ser uma metodologia de criação para o teatro".

Já do outro lado do Atlântico, também quis ser coleccionadora, criar algo de raiz ela própria. "Então decidi coleccionar o auge do efémero, o mais impossível de guardar. Foi aí que cheguei à intimidade". Às pessoas. Noutro trabalho, Colecção de Amantes, já reuniu 136. Só quer parar quanto tiver 10 anos de recolha, vai no terceiro.

Os encontros são marcados com desconhecidos. Para lá chegar, Raquel André pede a amigos que a ponham em contacto com essas pessoas que ainda não têm em comum. Outra estratégia é pedir às produções dos teatros e festivais onde vai participar para fazerem a ponte com gentes daquele território.

"Os amantes são pessoas que eu encontro, não sei com quem é que me vou encontrar. A proposta é que tiremos pelo menos uma fotografia que comprove intimidade. Estou a questionar o que é intimidade". Quem com ela se encontra, sabe que está a participar num projecto artístico. E entra no jogo.

O que chega depois a palco – e agora também a livro – é uma "vertigem" de fotografias, caras, corpos, paisagens, situações. Raquel André dá a ver a sua colecção, mas não associa caras a histórias. Sempre maleável a novos amantes na colecção, a artista de 31 anos prefere construir a narrativa ao ponto de deixar quem assiste em dúvida. O que é intimidade, o que é estar com o outro, o que partilhamos? "Percebi que a intimidade é impossível de definir". Mesmo sendo dona de uma amostra tão grande.

A Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, será a casa de Raquel André em Novembro. De 2 a 12 com "Colecção de Coleccionadores" e de 15 a 22 com "Colecção de Amantes". Deste último trabalho, há também um livro e uma versão televisiva, que passa este sábado à noite na rtp2.




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