Weekend Refugiados: Pode o frio ser uma nova “wake-up call”?

Refugiados: Pode o frio ser uma nova “wake-up call”?

Nos campos de Salónica, no Norte da Grécia, o frio complicou ainda mais a vida aos refugiados, testemunha Mariana Vareta, voluntária portuguesa que deixou "casa, amigos e família" e se mudou de armas e bagagens.
Refugiados: Pode o frio ser uma nova “wake-up call”?
Yannis Behrakis/Reuters
Filomena Lança 03 de fevereiro de 2017 às 10:52
Em Salónica, há várias semanas que as temperaturas mínimas andam negativas e as máximas não sobem além dos quatro ou cinco graus. Neva com frequência e quando faz vento, o que também acontece muitas vezes, o frio fica insuportável. Na segunda maior cidade da Grécia, no Norte do país, ainda há centenas de refugiados a viver em contentores ou em velhos armazéns, dentro de tendas montadas em cima de placas de cimento. Com janelas e portas velhas e partidas por onde o frio cortante entra com toda a facilidade, sem aquecimento, sem água, porque os canos congelaram, sem electricidade porque os quadros não aguentam e vão abaixo. Com frio. Nas últimas semanas, verificaram-se vários incêndios, provocados por fogueiras ou fogões de campanha com os quais as famílias tentam aquecer-se. Algumas pessoas morreram, como uma avó e um neto que usaram um fogão portátil dentro da tenda. Outras ficaram feridas e há trocas de acusações entre Governo grego, ONG e Comissão Europeia, porque havia fundos, mas a preparação para o Inverno não chegou a todos. Mariana Vareta, tal como todo o corpo de voluntários que por lá anda e, no terreno, vai fazendo o que pode, já antecipava que seria assim. Que, "apesar de todos os apelos, os campos não iam ser preparados a tempo e ia ser outra vez um drama". E foi. Está a ser.

Mariana chegou a Salónica neste mês de Janeiro para trabalhar como voluntária e lançou um grito de alerta nas redes sociais. É preciso ajudar. E que o frio seja, pelo menos, "uma nova wake-up call" e ajude a acordar [outra vez] para a realidade dos refugiados que, de tanto nos entrar pelas portas adentro, se calhar já se tornou parte da rotina.

Numa conversa longa, através do Whatsapp, Mariana vai desfiando histórias de viajantes anónimos que têm a vida presa por um fio, parada num campo de refugiados gelado, à espera de um futuro que não imaginam sequer quando chegará. Fala das "centenas de pessoas - bebés e crianças incluídas - a viver dentro de fábricas geladas". De como queimam tudo o que têm à mão para criar algum calor. E de como tantas vezes "falta coragem para tomar banho ou lavar a roupa em água gelada, e as doenças de pele alastram no meio da sujidade envergonhada".

Quando há doenças, o que é frequente por ali, as respostas são curtas e demoradas porque o sistema de saúde grego, que já estava em colapso graças à crise, registou "um aumento de 400% na procura de cuidados". Tamanha é a falta de meios que, conta Mariana, "tudo o que não seja urgente ou gravíssimo fica numa lista de espera interminável" e "coisas tão simples como um gesso podem demorar quase uma semana". Mais, "as mães são devolvidas às tendas três dias depois de uma cesariana e as pessoas que têm AVC recebem alta assim que se aguentem numa cadeira de rodas". Uma gripe, como é óbvio, é "completamente desvalorizada".

"Das coisas que mais me impressionaram foi um miúdo de 5 anos, encolhido num canto com dores de garganta, a chorar baixinho como quem já aprendeu que não adianta", escreveu Mariana na sua página do Facebook, onde deixou também um apelo a quem está deste lado do filme: quem puder, ajude. A maior parte da ajuda providenciada nesta crise vem de milhares de donativos individuais, explica. Donativos "tão pequenos como 5 euros, que sustentam o trabalho das centenas de voluntários que são um verdadeiro fenómeno de coordenação e eficácia no terreno".

"Aqui, a falta de informação é uma coisa aterradora"

Mariana é licenciada em Psicologia, fez Jornalismo, teve vários empregos, sempre a achar que lhe faltava qualquer coisa. O trabalho com os refugiados foi quase uma inevitabilidade. Tinha de ir e, em Abril do ano passado, decidiu "deixar casa, amigos e família" e partir para a Grécia. Ficou durante quatro meses e voltou, mas sempre com a ideia de regressar no Inverno. "Tinha ouvido relatos muito dramáticos que se esperava que se repetissem, porque já se sabia que as coisas não tinham sido preparadas."

Na primeira vez, Mariana juntou-se à LightHouse Relief, uma ONG sueca no terreno desde 2015 com voluntários de vários países, mas acabaria por ficar como independente, "com um programa próprio". Decidiu "fazer informação", que o mesmo é dizer ajudar e guiar quem tem de percorrer o infindável labirinto das burocracias para pedir asilo ou para se juntar aos seus familiares que já estão numa qualquer parte do mundo.

E a falta de informação "é uma coisa aterradora", diz. Nos campos, os rumores espalham-se com uma rapidez extraordinária e as pessoas acreditam, porque precisam de se agarrar a alguma coisa. "Houve uma altura em que muitas mulheres decidiram engravidar porque se dizia que as crianças nascidas na Grécia ficariam com nacionalidade grega." Não era assim, mas elas não sabiam. Ali, onde tudo acontece muito devagarinho e são precisos meses para dar um passo, a informação é essencial.

Mariana teve o seu primeiro contacto com a realidade dos refugiados em Idomeni, onde mais de 15 mil pessoas aguardavam pela possibilidade de atingir o Norte da Europa. Aí, um pequeno grupo de voluntários lançou mãos à obra e montou uma tenda, imprimiu folhetos traduzidos em árabe e em farsi e dispôs-se a estudar a lei do asilo e tudo mais o que era preciso para tirar dúvidas e encaminhar quem não sabia sequer por onde começar. Também disponibilizaram um computador para aceder ao Skype, porque o sistema de asilo grego exige que qualquer marcação seja feita dessa forma, para futuro reconhecimento facial. É isso que Mariana continua a fazer, não já em Idomeni, que entretanto foi evacuado, mas nos campos à volta de Salónica. "Temos uma equipa móvel com uma carrinha, mesas e cadeiras de montar e vamos fazendo atendimento. Ouvimos as pessoas, tomamos nota dos casos, analisamo-los à luz da lei." Seja para pedir asilo na Grécia, solicitar a reunificação familiar ou a recolocação noutro país, nada é simples. As leis são diferentes consoante o país de origem e há gente que nem sequer documentos tem, porque os perdeu algures na viagem ou porque lhos roubaram. Um passaporte é algo de "muito precioso" por ali, e sem ele tudo fica (ainda) mais complicado. E há as crianças. "40% dos refugiados na Grécia são crianças, e muitas estão sozinhas", diz a voluntária, lembrando o caso de um rapazinho de 14 anos que rondou a equipa durante um bom tempo até se convencer a confiar neles e a pedir ajuda. "Alguns ficam assim, desacompanhados, durante dez meses ou mais. Outros chegam com 17 anos, mas quando chega a sua vez já fizeram os 18 e perderam a possibilidade de serem considerados prioritários. É aberrante."

Na equipa de Mariana, há mais uma portuguesa. Já lá estiveram italianos, franceses, americanos. Vão rodando, consoante as suas disponibilidades de tempo. A equipa arrendou um apartamento em Salónica que serve de quartel-general e nesta altura têm dois tradutores que são, também eles, refugiados. "Um iraquiano e um sírio, que estão no processo de asilo" e que integram esta "pequena comunidade multicultural", com idades entre os 25 e os 35 anos. Às vezes, saem ao fim do dia, vão "beber um copo", uma "normalidade" que tentam cultivar, até para manter a própria sanidade mental e, de vez em quando, desligar. Se bem que, diz Mariana, "aqui ninguém tem lata para grandes dilemas morais. Isso é secundário."

E a vida que cá ficou? Quando viajou pela primeira vez, no ano passado, Mariana recorreu às poupanças pessoais. Agora, "as poupanças já foram ao ar". Restam os donativos que são, de resto, o que alimenta a maioria dos voluntários que ficam mais tempo. Mas os donativos são para o voluntariado. "Se eu quiser comprar um presente a um amigo, não tenho dinheiro", brinca Mariana. Isso não a preocupa muito, embora saiba que, mais dia, menos dia, terá de voltar à sua vida normal, cá em Portugal. Nem que seja só por algum tempo, até voltar de novo para aquilo que gosta de fazer.

Mariana Vareta

Nasceu no Porto há 39 anos, licenciou-se em Psicologia, tirou o curso de Jornalismo do Cenjor, mas o que ela gosta mesmo é da intervenção social. Neste momento é voluntária na Grécia, onde, como independente, trabalha com refugiados. Ajuda-os na sua busca de informação e guia-os nos labirintos das burocracias. Gosta de dizer que, nestas coisas do voluntariado, "ficar e ajudar a financiar quem vai é tão ou mais importante do que ir". Na sua página do Facebook explica o que se pode fazer a quem quiser ajudar. 




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