Weekend Reza Hajipour: Precisamos de falar mais sobre inclusão

Reza Hajipour: Precisamos de falar mais sobre inclusão

O realizador iraniano Reza Hajipour é o director do Arroios Film Festival, a festa de curtas-metragens de Arroios, que decorre de 9 a 16 de Setembro, numa freguesia onde convivem pacificamente mais de 90 nacionalidades.
Reza  Hajipour: Precisamos de falar  mais sobre inclusão
Bruno Simão
Lúcia Crespo 26 de maio de 2017 às 14:00
As madrugadas de sábado para domingo estavam destinadas às maratonas clandestinas de cinema. Reza Hajipour e a família alugavam um projector às escondidas, espalhavam-se pela sala escura de casa da avó, perto de Teerão, e começavam a ver filmes mal caía a noite. O encontro cinematográfico tornou-se um ritual de família depois da revolução iraniana, em 1979. Reza foi crescendo assim, no meio de tios, primos, pais, avós e filmes. Estudou Línguas e Literatura na Universidade de Azad, aprendeu rádio e estudou cinema na Iranian Youth Cinema Society (IYCS). Lançou depois a sua primeira curta-metragem, "O Primeiro Dia de Trabalho", que foi seleccionada para o Fike - Festival Internacional de Curtas-Metragens, em Évora. Reza veio a Portugal e um ano depois instalou-se em terras portuguesas. Realizou filmes como "The Baby - O Bebé", que recebeu uma menção honrosa no Festival Festin 2013 Lisboa, e é o director do Arroios Film Festival, a festa de curtas-metragens de Arroios, freguesia onde convivem mais de 90 nacionalidades. O festival decorre de 9 a 16 de Setembro e as inscrições estão abertas até dia 31 de Maio.


Depois da revolução iraniana, a projecção de filmes foi proibida no meu país, mas algumas casas alugavam projectores às escondidas. Todos os fins-de-semana, eu, os meus tios, primos, pais e avós víamos vários filmes. Na madrugada de sábado para domingo, juntávamo-nos numa sala escura e ficávamos horas e horas em frente ao projector. Alugávamos sempre um filme indiano, um filme iraniano antigo e dois ou três filmes americanos, sobretudo as sequelas do Bruce Lee, que na altura estavam na moda. Queríamos que toda a gente visse um filme do seu agrado e começávamos a madrugada de cinema assim que caía a noite, depois de jantar. Tínhamos sempre frutas e outros acompanhamentos. Víamos um filme, descansávamos cinco ou dez minutos, e começávamos a ver outro logo de seguida. Nunca nos cansávamos.

Estas sessões de cinema duraram muito tempo. Começámos com o projector, passámos para o vídeo, com aquelas grandes cassetes, e depois usámos os leitores de CD e DVD. Foi assim ano após ano, todos os fins-de-semana. O Bruce Lee morreu, veio o Chuck Norris, o Jackie Chan, o Arnold Schwarzenegger…, e nós sempre ali. Hoje continuo a ver muitos filmes com a minha mulher, no mínimo três vezes por semana, sobretudo filmes de acção, de terror e de drama social. E gosto muito de realizadores como Martin Scorsese e Stanley Kubrick.


Ter na direcção do Arroios Film Festival um estrangeiro integrado na sociedade, torna a sua mensagem mais forte. Um estrangeiro percebe melhor as dificuldades de inclusão. 


A indústria de cinema iraniana está muito forte, ganhámos óscares com filmes como "Uma Separação" e "O Vendedor", do cineasta Asghar Farhadi. Existem óptimos realizadores no Irão. Ainda há censura e alguns filmes ficam vários anos na gaveta até obterem uma permissão do governo ou do responsável pela cultura. A minha primeira curta-metragem, "O Primeiro dia de trabalho", nunca foi escolhida e não chegou a passar na minha terra. Mas, em 2007, o filme foi seleccionado para ir a dois festivais internacionais, ao Cinewest Austrália, em Melbourne, e ao Fike - Festival Internacional de Curtas-Metragens em Évora. Preferi vir à Europa, até para visitar a minha irmã, que está na Alemanha. Vim, regressei ao Irão, fiquei por lá um ano e depois decidi morar em Portugal para tentar fazer aquilo de que mais gosto, que é cinema.

Tentar ser realizador é uma luta diária, é muito difícil obter financiamento, mas decidi avançar com um dos meus filmes. Chama-se "Arezo", é a minha primeira longa-metragem de ficção e fala sobre um afegão refugiado em Lisboa. Um amigo produtor vai ajudar-me e eu vou avançar só com os meus meios. Tenho um restaurante de kebab em Sete Rios, a minha esposa também trabalha e, às vezes, quando precisamos, recebemos algum dinheiro da família iraniana.

O cinema foi sempre uma paixão, mas comecei por estudar Línguas e Literatura, nomeadamente língua africana hauçá... É uma história engraçada. Na altura em que me candidatei à faculdade, estava a trabalhar no sul do Irão, na ilha de Qeshm - curiosamente, existe um castelo português nessa zona, e eu trabalhava mesmo ali ao lado, mal sabia que um dia iria viver em Portugal. Como estava longe de Teerão, pedi a familiares para preencherem a minha ficha de inscrição na universidade e eles, em vez de colocarem como primeira opção a língua inglesa, que era aquilo que eu queria, colocaram língua africana!

Depois estudei cinema, rádio, fiz várias coisas e, em 2008, vim para Portugal. Quando as pessoas percebem que sou iraniano, perguntam logo: há muita guerra no Irão? Eu respondo: amigo, Irão é um país, Iraque é outro país. Há muitos preconceitos em relação à minha terra, o que é normal, atendendo às notícias que passam na comunicação social, que são sempre sobre o conflito do nosso governo com os Estados Unidos, com Israel, com a Arábia Saudita... É muito improvável ver na televisão um documentário sobre a comunidade iraniana. Quem realmente quiser conhecer um país, tem de visitá-lo, tem de viajar muito, e não falo de viagens turísticas. O Irão é muito grande, eu próprio, que vivi lá durante 30 anos, não tenho a certeza de conhecer o meu país.

Gosto muito da minha terra, tenho boas recordações, mas não queria voltar a viver lá. Quando olho para trás, rio-me de coisas que se passaram. Lembro-me de não poder passear na rua com a minha namorada, a polícia vinha logo atrás de nós. Uma vez, eu e outros jovens estávamos de manga curta e a polícia pintou-nos os braços com spray... Hoje, a situação não estará igual, a sociedade mudou um pouco, mas já estou em Portugal há dez anos e o meu pensamento está diferente.

Arroios foi o primeiro lugar onde morei em Lisboa e fui logo bem recebido. Os portugueses, em geral, são muito acolhedores em relação aos estrangeiros, mas existem sempre pessoas que não são tão simpáticas. Na semana passada, fiz um churrasco em Monsanto com amigos iranianos e ao lado estavam algumas pessoas refugiadas da Síria. Bem perto, estava um grupo de portugueses e, por duas ou três vezes, ouvimos comentários como: hoje está-se muito bem, é pena estarmos mal acompanhados… Mas estas pessoas são excepções. Desde que cheguei a Portugal, fui sempre ajudado por amigos portugueses. Um dos principais problemas que enfrentamos quando chegamos a um país novo é arranjar um fiador para uma casa, pois não conhecemos ninguém. Eu não tive grandes preocupações, um amigo português tornou-se logo meu fiador.


Nesta freguesia [Arroios], coabitam pacificamente mais de 90 nacionalidades. Aqui temos pessoas do Bangladesh, Índia e Paquistão a viverem em paz umas com as outras.


Devo ser o único iraniano em Lisboa a fazer cinema e a Margarida Martins, presidente da Junta de Freguesia de Arroios, convidou-me para ficar como director do Arroios Film Festival. Ter na direcção do festival um estrangeiro integrado na sociedade torna a sua mensagem mais forte. Um estrangeiro percebe melhor as dificuldades de inclusão. Nesta freguesia, coabitam pacificamente mais de 90 nacionalidades e, se muitos dos seus países de origem estão em conflito entre si, aqui temos pessoas do Bangladesh, Índia e Paquistão a viverem em paz umas com as outras. Temos mesquitas, igrejas e templos. Queremos passar a ideia de que é possível viver sem conflitos, basta respeitarmos a ideologia, a cultura e a religião de cada um. É importante passar esta mensagem de inclusão, precisamos de falar mais sobre este assunto, pois as pessoas têm memória curta e vão cometendo os mesmos erros ao longo da História.



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