Weekend Rodrigo Leão: Não teria feitio para cantar, gosto de estar um bocadinho escondido

Rodrigo Leão: Não teria feitio para cantar, gosto de estar um bocadinho escondido

Rodrigo Leão percorreu o país numa Ford Transit, tocou em liceus e em curvas de estrada com os Sétima Legião. Depois vieram os Madredeus e as “tournées” pelo mundo. Mas ele gosta mais de estar recolhido e a compor. O seu último disco, “Life Is Long”, resulta de uma parceria com o australiano Scott Matthew. Tem melancolia e esperança.
Rodrigo Leão: Não teria feitio para cantar, gosto de estar um bocadinho escondido
Rodrigo Leão é um apaixonado pelo mar, em especial pelo mar bravo da Praia do Norte, na Ericeira, onde passava as férias de Verão. Ele e os seus três irmãos. Foi lá que começou a tocar guitarra acústica, foi lá que fez os primeiros temas para os Sétima Legião, grupo criado por miúdos que cresceram no Bairro das Estacas, em Alvalade, Lisboa. Ouviam Genesis e Pink Floyd. Ouviam New Order e Joy Division. De Alvalade partiram para o Bairro Alto, percorriam as tascas, iam ao Frágil, ao Arroz Doce, ao Gingão. Organizavam concertos na Escola Superior de Belas-Artes, carregavam amplificadores até ao Rock Rendez Vous. Com os Sétima Legião, Rodrigo Leão percorreu o país numa Ford Transit, tocou em liceus e em curvas de estrada. Depois vieram os Madredeus e as "tournées" pelo mundo. Mas ele gosta mais de estar recolhido e a compor. E fá-lo entre Lisboa, Ericeira e Avis. Este é o seu triângulo, diz. O seu último disco, "Life Is Long", uma parceria com o australiano Scott Matthew, fala sobre relações entre pessoas. Tem melancolia e esperança.


A melancolia está sempre presente nas suas músicas e o último álbum, "Life Is Long", não é excepção. Como define este disco?

"Life is long" é o título de uma das canções, eu gostei muito dele, daí o nome do álbum. É bonito pensarmos que a vida é longa. As letras das músicas são do Scott Matthew, são muito pessoais, muitas até são histórias de amor. Gosto de pensar que este disco, apesar da melancolia, traz também uma esperança. Acho que podemos encontrar sempre qualquer coisa de positivo na melancolia. E isso está muito presente no meu trabalho, estava na Sétima Legião, estava nos Madredeus e está na cultura portuguesa. Há um espírito português ligado à música, à pintura, à comida. É o espírito da saudade. E temos também um lado muito romântico. Portugal é um país pequenino e tem o mar aos seus pés…

 

É um apaixonado pelo mar.

Tenho uma grande paixão pelo mar desde pequenino. Vou para a Ericeira desde os meus cinco anos, o meu avô tinha uma casa mesmo em cima do mar, e eu compus lá muitas músicas, ao som daquele mar bravo no Inverno. Foi lá que comecei a tocar guitarra acústica, foi lá que fiz os dois ou três primeiros temas para a Sétima Legião. Tenho sempre muitas saudades do mar.

 

Era na Ericeira que passava as férias grandes e o álbum "A Montanha Mágica" (2011) tem muitas referências a esses momentos.

Sim, a Praia do Norte era a praia onde eu ia com os meus irmãos, era a tal que ficava debaixo de casa do meu avô. Na altura, demorávamos duas a três horas a chegar à Ericeira. A dois terços da viagem, começávamos a sentir o cheiro a mar e era sempre uma emoção grande. Brincávamos e fazíamos muitos amigos. Sou o irmão mais velho de quatro rapazes, nenhum deles seguiu música. Aliás, na minha família, ninguém se dedicou à música, mas a minha mãe aprendeu piano quando era nova e os meus pais ouviam música em casa, sobretudo clássica mas também música francesa, brasileira... Lembro-me de ouvir Chico Buarque, Jacques Brel, Piazzolla. E, no Bairro das Estacas, ao pé da Avenida de Roma, onde eu morava, comecei a ouvir rock quando tinha 11, 12 anos. Ouvia Genesis e Pink Floyd com os meus amigos do bairro, que ainda hoje são grandes amigos, como o Pedro Oliveira, o Nuno Cruz e o Paulo Marinho.

 

Diz que há um lado infantil nas suas músicas.

Acho que sim. Primeiro, eu não sou nenhum virtuoso, sou autodidacta, aprendi a tocar sozinho e com os meus amigos. Se tivesse aprendido música, certamente que não faria a música que faço. A minha música tem uma linguagem muito simples, com poucos acordes, é minimalista. Há aqui um lado infantil e existe alguma fragilidade, que não é premeditada. Tenho muitas dúvidas, muitas vezes não sei bem o que quero fazer, sei o que não quero, mas o meu trabalho é muito intuitivo. Vivo algo alheado daquilo que me rodeia e, às vezes, até tenho alguma pena de não estar mais atento ao que se passa à minha volta, sinto-me desactualizado perante tanta música que vai saindo, mas estou sempre tão absorvido nas coisas que quero fazer…, tenho necessidade de ir sempre tocando, nem que seja por meia hora.

 

Tem também um álbum chamado "A Mãe" (2009). Foi ela, a sua mãe, que o encaminhou para o mundo da música e das artes?

Um pouco. Lembro-me de ouvirmos, no gira-discos, o João Villaret a recitar Fernando Pessoa. Ou de irmos ao cinema ver os "Tempos Modernos", do Charlie Chaplin. E tínhamos muitos livros em casa. A dada altura, a minha mãe disse-nos: dou 50 escudos a quem ler um livro. Foi um bocadinho assim que começámos a ler. Mais tarde, li o Dostoiévski, Kafka, esses autores todos. A minha mãe tinha uma faceta ligada à cultura, ao cinema, ela tinha muita vida, era muito expressiva. Eu e os meus amigos passávamos muito tempo em casa, ela falava muito connosco e até nos ajudou nos títulos das primeiras canções da Sétima Legião. Já o meu pai vivia num mundo mais à parte, ele é engenheiro de máquinas, saía muito cedo de manhã, voltava ao fim do dia, mas levava-nos, todos os domingos, a passear ou até à praia. Enquanto a minha mãe nos ajudava com as disciplinas de filosofia e português, o meu pai dava-nos explicações de física e de matemática. Outras vezes, era o meu avô, pai da minha mãe, que nos ajudava. Ele era matemático. Foi director-geral da Caixa de Previdência durante muitos anos, chamava-se António da Costa Leão. Eu acabei por ficar com o nome (artístico) Rodrigo Leão. O meu último nome é Miguez – os meus avós eram espanhóis –, mas pensei que o nome português faria mais sentido.   

 

As referências literárias estão também nos títulos de outros álbuns, como "A Um Deus Desconhecido" (1984), dos Sétima Legião.

Sim. Aliás, eu e o Gabriel Gomes, que toca acordeão comigo e é meu amigo de infância, temos um projecto que se chama "Os Poetas", que surgiu há uns 20 anos. Na altura, fizemos um disco e lançámos um segundo álbum há uns três anos, agora tocamos esporadicamente. É um projecto que tem gravações dos próprios poetas a dizerem os seus poemas, gravações com 50 ou 60 anos, do Mário Cesariny, do Herberto Helder, entre outros, e nós criamos a música para esses poemas. A literatura tem estado sempre presente nas minhas músicas. Lembro-me que, no final dos anos 70, início dos anos 80, eu e os meus amigos do Bairro das Estacas começámos a ir para o Bairro Alto e falávamos sobre livros e filmes. Íamos ao Frágil, ao Arroz Doce, ao Gingão, a todas aquelas tascas, estávamos fascinados com tudo, com toda aquela corrente musical que chegava de Inglaterra, com grupos como os New Order e os Joy Division, numa altura em que toda a gente se vestia de preto. Foi então que em Portugal houve um "boom" da música portuguesa, apareceram os Heróis do Mar, os Xutos & Pontapés, os Rádio Macau, os Ban. Havia um grande entusiasmo, apareceram novos espaços para tocar, nós conhecíamo-nos todos. Organizávamos concertos na Escola Superior de Belas-Artes, carregávamos amplificadores até ao Rock Rendez Vous…, era toda uma série de aventuras que vivíamos com muita intensidade nesses anos 80.

 

Havia, na altura, um companheirismo maior entre os músicos?

Na altura, era tudo mais caseiro, mais pequenino, hoje existem milhões de grupos. E havia, se calhar, mais espaço na televisão e na rádio para divulgar música, hoje há menos espaço para a música portuguesa. Por um lado, existe mais facilidade em comunicar projectos através das redes sociais, por outro lado, é mais difícil sobressair no meio de tanta gente. Acho que, às vezes, é uma questão de sorte, de destino, das circunstâncias. Há sempre tantas pessoas a fazer coisas extraordinárias que é preciso um bocadinho de sorte para conseguir sobressair. Eu tive um bocadinho de sorte. É evidente que trabalhei muito e acreditei muito, mas há sempre um bocadinho de sorte nestas coisas.

 

Disse que era um músico autodidacta. Nunca chegou a ter qualquer formação?

Quando andava no liceu, ofereceram-me uma guitarra e, claro, não se pode pegar num instrumento pela primeira vez e começar a inventar ou a compor sem dominá-lo minimamente. Ainda estive uns seis meses a aprender com uma professora que dava aulas de guitarra clássica, mas, como sou canhoto, aquilo era uma confusão para mim, e desisti. Acabei por aprender com as pessoas que estavam à minha volta. E passei uns anos a improvisar por cima de músicas que ouvia. Havia um programa de rádio do Jaime Fernandes, que se chamava "Dois Pontos", que passava álbuns na íntegra, e eu ficava horas a improvisar por cima daquilo... Os meus filhos – de 15, 13 e 10 anos – estudam no liceu e têm aulas na Academia Musical dos Amigos das Crianças. Mas penso que há uma geração de músicos que começou nos anos 80 e que não dava muita importância ao saber ler e escrever música.

 

E os Sétima Legião podiam chamar-se Terceira Legião…

Éramos três, eu, o Pedro Oliveira e o Nuno Cruz, e havia um concurso, a Grande Noite do Rock, no pavilhão do estádio do Sporting, e fomos seleccionados. Para concorrer, precisávamos de ter um nome e, como Terceira Legião não nos soava bem, acabámos por ficar Sétima Legião. Isto foi em 1982. Era a primeira vez que tocávamos ao vivo. Na altura, o João Gobern escrevia n’ A Capital e fez uma crítica a dizer que tinha gostado muito das nossas músicas.

 

A recepção do público foi logo positiva?

Éramos mais um grupo de culto. Na altura, havia grupos com um som mais comercial que o nosso, penso eu. O primeiro trabalho, "A Um Deus Desconhecido", era mais denso. Foi com o "Mar D’Outubro" (1987) que os Sétima legião deram um salto, com canções como os "Sete Mares" ou "Noutro lugar". Estávamos a fazer aquilo com que tínhamos sonhado, mas não tínhamos pressa nem sede de êxito repentino. Estávamos a estudar, vivíamos em casa dos nossos pais… Foi um processo lento. Começámos com quatro, cinco concertos no ano. Só mais tarde, entre 1986 e 1991, é que passámos a fazer cerca de 50 concertos por ano. Percorríamos o país, andávamos numa Ford Transit a cair de podre, eram viagens alucinantes. Tocávamos em liceus, em curvas de estrada, em sítios inacreditáveis.

 

Pelo meio, estudou Direito.

Fiz o primeiro ano e até correu razoavelmente bem. Mas, no segundo ano, percebi que não tinha nada que ver com aquele curso, e já tinha dois projectos de música: os Sétima Legião e os Madredeus. Saí de casa dos meus pais, aluguei uma casa em Benfica com um amigo. No início, só passava lá os fins-de-semana, ainda não tinha dinheiro para viver sozinho. Só comecei a conseguir viver da música a partir do início dos anos 90, já estava nos Madredeus. Nos primeiros anos, fazíamos quatro, cinco concertos por ano, só depois da Europália é que começámos a fazer mais. Às vezes, estávamos dois meses fora de Portugal.

 

Saiu do grupo por causa das "tournées"?

Estava um pouco cansado do excesso de concertos. Por outro lado, em 1993, lancei um álbum com canções minhas chamado "Ave Mundi Luminar", era um disco muito mais sinfónico, cantado em latim, e esse meu trabalho estava a ser editado em muitos países e eu não lhe estava a dar a devida atenção por ter concertos com os Madredeus um pouco por todo o lado. Nessa altura, cheguei à conclusão que gostava de ter mais tempo para compor. Por tudo isso, saí.

 

Como explica o sucesso dos Madredeus?

Apesar de a música de Madredeus não ser fado, havia ali alguma coisa com influências de fado, a tal melancolia portuguesa. E o facto de a Amália Rodrigues ser conhecida no mundo inteiro talvez tenha ajudado. Assistia-se também a um "boom" da "world music" e os Madredeus, com o tema "Pastor", entraram em muitas colectâneas. Por outro lado, era um grupo portátil, com quatro músicos e uma cantora. Mas nunca nos passou pela cabeça que pudéssemos vir a ter o êxito que tivemos.

 

A música portuguesa está bem representada a nível internacional? Temos os Madredeus, os Moonspell…

Acho que os Madredeus contribuíram muito para que surgisse uma nova geração de cantoras com sucesso lá fora, como a Mariza, Mafalda Arnauth, Ana Moura. Depois, e embora com menor projecção, há grupos como os The Gift, Dead Combo e Danças Ocultas, que estão a entrar em alguns mercados, mas tenho pena que as pessoas lá fora só tenham acesso ao fado porque há muitas outras coisas boas que se fazem em Portugal.

 

Sente-se, de alguma forma, embaixador do país?

Dentro destes projectos que ajudei a construir, o meu, se calhar, é o menos português, é mais universal, tem músicas em inglês, em francês, acho que a minha música vive do cruzamento de influências, que vão da música clássica ao tango, passando pela pop britânica e pela música brasileira. Mas, claro, em muitas melodias que faço há sempre qualquer coisa de Portugal e de Lisboa e do Alentejo, de Avis. Foi lá que me casei, a minha mulher tinha lá uma casa no meio do campo e é lá que vou com frequência para estar com família, com amigos. É também um sítio onde componho.  
 

 

Lisboa, Ericeira, Avis…

Sim, é o meu triângulo.

 

E em termos de internacionalização, quais são os seus mercados?

Não dou concertos lá fora como pessoas como Ana Moura, faço cerca de 40 concertos por ano, 30 dos quais em Portugal e 10 lá fora. Houve alturas em que tocámos muito em Espanha, Itália, Alemanha, Grécia. Fomos duas vezes à Coreia do Sul, estivemos no Brasil, em Goa, na Turquia, mas não tenho um mercado regular. Não tenho um grupo tão pequeno como isso e a verdade é que a minha grande preocupação é compor. Estou muito confortável com aquilo que tenho feito.

 

Mais sossegado e a compor?

Sim. Mas, em Março, vamos ter uma "tournée" de dez concertos na Alemanha, Áustria, Suíça, com o projecto "Life Is Long" e agora, em Janeiro, vamos à Holanda, ao festival Eurosonic Noorderslag. E eu gosto de concertos, atenção. Até dada altura, gostava muito mais de compor do que de tocar, mas as coisas mudaram um pouco, talvez porque a própria formação musical deu uma viragem quando comecei a ter de novo uma aproximação maior à música pop, às canções. As canções talvez nos aproximem mais do público do que a música instrumental. Os meus concertos vivem muito desses contrastes, intercalo canções com temas instrumentais, mais intimistas, gosto de misturar.

 

O Rodrigo Leão chegou a ser dos músicos que mais vendiam em Portugal.

Neste momento, não sou. Talvez tenha existido um período em que isso aconteceu, entre 2004 e 2010, altura em que lancei dois discos que tiveram mais sucesso, falo do "Cinema" (2004) e de "A Mãe" (2009). Venderam, em Portugal, cerca de 60 mil cada um, o que era muito mais do que eu costumava vender. Hoje vendo cerca de seis, sete mil, tendo em conta o último disco, "O Retiro", que saiu há um ano. Tenho conseguido viver da música, com alturas melhores, outras piores. Quando há períodos com menos concertos, há sempre algum dinheiro que vem dos direitos de autor e pode ajudar. Tenho mais de 400 músicas registadas na Sociedade Portuguesa de Autores e na Sacem (Société des auteurs, compositeurs et éditeurs de musique). Mas, sim, é preciso trabalhar muito para conseguir viver da música.

 

Disse numa entrevista que, pelo facto de não se venderem muitos discos, se calhar, os artistas até têm mais liberdade de fazerem aquilo que querem.

Eu quero acreditar que sim, até porque é, muitas vezes, nestas alturas que há mais criatividade. E não se perdeu, em Portugal, aquela energia e vontade de fazer coisas novas. Apesar de alguma melancolia, há uma alegria inerente aos portugueses, acho eu, gostam de ir para a rua, falar uns com os outros, gostam de acreditar, de descobrir, acho que isso está na alma dos portugueses.

 

E cantar, não gostava de cantar?

Pontualmente, numa segunda voz, de resto, nunca pensei nisso, nem teria feitio para estar à frente do público a cantar, gosto mais de estar um bocadinho escondido. 





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