Weekend Será que o dinheiro vai acabar?

Será que o dinheiro vai acabar?

A economia digital está a mudar a forma como fazemos pagamentos e transferências de dinheiro. Já não faltará muito para, se quisermos ver moedas e notas, termos de visitar um museu. Na Europa, os escandinavos lideram a transição para a chamada "cashless society".
Será que o dinheiro vai acabar?
Filipa Lino 25 de Novembro de 2016 às 11:25
"Money makes the world go round", cantavam Liza Minnelli e Joel Grey no filme musical "Cabaret", em 1972. Quatro décadas depois, ainda é o dinheiro que faz o mundo girar. Mas há um processo tecnológico em curso que está a mudar a relação que temos com o "vil metal". De facto, a pergunta que se começa a colocar cada vez mais é: "Será que ainda faz sentido andarmos com moedas e notas no bolso?" Há países que consideram que não. E já estão a caminhar para uma sociedade sem dinheiro. Na linha da frente estão os escandinavos. Um estudo realizado pela Visa na Europa, "Digital Payments 2016", divulgado em Outubro, mostra que o número de cidadãos europeus que utiliza dispositivos móveis para fazer pagamentos triplicou no espaço de um ano. Dos cerca de 36 mil consumidores inquiridos, oriundos de 19 países (Portugal não foi incluído neste estudo), mais de metade (54%) utiliza smartphones, tablets ou os chamados "wearables" (relógios inteligentes, pulseiras electrónicas, etc.) para fazer compras e transferências de dinheiro. Em 2015, eram 18%.

A encabeçar o "top" 10 dos países que mais utilizam estas tecnologias está a Turquia (91%), em segundo lugar a Dinamarca (89%), a seguir, em "ex aequo", a Noruega e Israel (87%) e depois a Suécia (86%). O estudo associa este crescimento a uma maior adopção da tecnologia "contactless". "A quase ubiquidade da utilização dos cartões 'contactless' está gradualmente a ajudar toda a gente a adaptar-se a novas formas de pagamento, incluindo o 'mobile banking'", pode ler-se nas conclusões. Mas não é só a Europa que está a debater estas questões. O fim do dinheiro tem sido tema de inúmeros artigos e estudos um pouco por todo o mundo. Na Austrália, por exemplo, o banco Westpac fez o estudo "Cash Free Report", onde prevê que o país estará pronto para se livrar do dinheiro em 2022. Será apenas uma questão de tempo para esta "utopia" se tornar realidade?

Cartões e apps

Michael Leif Larsew é dinamarquês e está de visita a Portugal. Tira da carteira o cartão Visa, que utiliza sempre no estrangeiro. Mostra o verso onde, no canto superior esquerdo, está a sigla DK. É o chamado Dankort, um cartão de débito nacional que foi introduzido na Dinamarca em 1983. É detido por uma empresa cujos accionistas são a maioria dos bancos do país. "Funciona como uma espécie de cheque electrónico", explica, "o dinheiro é retirado directamente da conta bancária". Michael diz que a maioria da população o usa porque é "rápido e fácil". Além disso, não tem taxas ou custos associados, seja qual for a quantia a pagar. Só é cobrada uma comissão quando se obtém o cartão. "Se eu quiser comprar um café, uma bebida ou outra coisa de valor inferior a 200 coroas dinamarquesas (o equivalente a cerca de 27 euros), nem é necessário digitar o código. Basta dar o cartão ao funcionário, ele passa-o na máquina e mostra-nos o valor num ecrã. Depois recebemos um talão e é tudo!", diz. Recentemente também surgiu no mercado dinamarquês uma aplicação para smartphone, desenvolvida pelos bancos, que permite fazer transferências de dinheiro - o MobilePay. De acordo com o site da aplicação, há 3,7 milhões de dinamarqueses que já a descarregaram. Isto num país com 5,6 milhões de habitantes.


As previsões do banco central da Suécia apontam para o fim da utilização de dinheiro vivo até 2030. Actualmente, 80% de todas as transacções no país são electrónicas.


A Dinamarca dá passos largos para se tornar uma sociedade sem dinheiro. "É um assunto que surge com frequência", refere este dinamarquês que vive no centro de Copenhaga. Os bancos são os principais promotores da transição. Michael não acredita que as moedas e as notas desapareçam completamente nos próximos anos porque os idosos não gostam da ideia. Mas muitos operadores, em particular no sector da distribuição e no canal Horeca, gostariam que a caminhada para a plena digitalização fosse mais rápida, porque isso reduziria custos e aumentaria a segurança.

O caso sueco

Na vizinha Suécia, o assunto é tratado como objectivo nacional. As previsões do banco central apontam para o fim da utilização de dinheiro vivo até 2030. Não deixa de ser curioso que o primeiro país europeu a usar papel-moeda, em 1661, queira agora ser o primeiro a livrar-se dele. Actualmente 80% de todas as transacções no país são electrónicas. Em Estocolmo, há lojas e restaurantes que têm na montra o aviso: "Não aceitamos dinheiro" e até os feirantes e vendedores ambulantes dispõem de leitores de cartões portáteis.

Os pagamentos por smartphone também já são bastante frequentes, através da aplicação Swish. Basta digitar o número de telefone do destinatário, seguido de um código de segurança. A transacção dá-se em tempo real. Este sistema foi implementado pelos seis maiores bancos suecos e é utilizado por consumidores e empresas.

Desde a década de 90 que a Suécia está a investir fortemente nos sistemas de pagamento electrónico. E 75% das agências bancárias já operam sem dinheiro. Isso explica a redução drástica do número de assaltos a bancos que, de acordo com a Associação de bancos sueca, está no nível mais baixo em 30 anos.
No Museu dos Abba, em Estocolmo, não se aceita dinheiro. Björn Ulvaeus, membro da banda sueca, é um defensor da "cashless society".
No Museu dos Abba, em Estocolmo, não se aceita dinheiro. Björn Ulvaeus, membro da banda sueca, é um defensor da "cashless society".
reuters
Quem quiser, por exemplo, visitar o Museu dos Abba, em Estocolmo, terá de pagar a entrada de forma electrónica. O museu não aceita dinheiro e explica porquê no seu site. "Acreditamos que não usar dinheiro é mais seguro e eficiente, tanto para os nossos visitantes como para os funcionários". Björn Ulvaeus, antigo membro da banda sueca que fez furor nos anos 70 e que teve como "hit" a música "Money, money, money", é, aliás, uma das vozes a favor de um mundo sem dinheiro vivo. Em declarações à CBS News, o músico disse que se trata de uma questão de segurança. Depois de o filho ter sido assaltado três vezes, Björn tornou-se um defensor de uma transição rápida para a economia digital.


No livro "The curse of cash", Ken Rogoff, professor de Harvard, defende o desaparecimento gradual das notas de valor mais elevado para combater a corrupção, o mercado negro e o financiamento ao terrorismo. 


Pode dizer-se que a Europa caminha a vários ritmos para a chamada "cashless society". De um lado estão os escandinavos com apenas 20% de pagamentos em dinheiro, do outro os países do Sul, onde a percentagem ultrapassa os 80%. Portugal é um caso diferente. Os portugueses têm uma predisposição para as novas tecnologias e há duas soluções de pagamentos que foram inovadoras e que ditaram esta tendência - a Via Verde e o multibanco. "Ainda hoje somos uma referência mundial no que diz respeito ao pagamento electrónico nas auto-estradas", diz o administrador-delegado da Via Verde, Pedro Mourisca. Em Portugal, 80% dos pagamentos das portagens são feitos electronicamente através deste sistema de pagamento. Metade dos veículos em circulação tem o dispositivo fixado no vidro da frente, que pode ser também utilizado para pagar o estacionamento em parques fechados, no McDrive e em algumas bombas de gasolina.

A empresa acabou de lançar uma app que serve para pagar o parquímetro na rua, em parceria com a Empark. Para já, está apenas disponível em seis cidades do país - Vila Real, Porto, Vila Nova de Gaia, Amadora, Portimão e Figueira da Foz. "Queremos acrescentar serviços às pessoas através do smartphone", diz Pedro Mourisca. A empresa está "a olhar para a mobilidade de uma forma mais abrangente" porque "ela vai-se transformar radicalmente nos próximos anos". Pedro Mourisca diz que já é evidente a tendência para a "intermodalidade". Além das restrições crescentes à utilização do automóvel, "as novas gerações estão muito menos 'agarradas' à posse do automóvel". Por isso, a Via Verde de-senvolveu uma app destinada aos transportes públicos, onde os pagamentos em dinheiro ainda pesam 50%. Estará disponível no início de 2017 nos comboios da Fertagus.


Para Alexandre Nilo Fonseca, presidente da ACEPI - Associação da Economia Digital, o "fenómeno multibanco" foi o grande motor dos pagamentos electrónicos em Portugal. Ainda hoje é "considerado um dos sistemas mais avançados e sofisticados de interacção digital com o consumidor", com mais de 60 funcionalidades. Isso, defende, destacou o país na "corrida" para o digital. "Estamos numa situação quase de excepção em relação à Europa do Sul. Temos um nível de utilização de pagamentos electrónicos muito superior ao de Itália, França, Espanha e da Grécia", refere.

Mas, ainda assim, não acredita que o dinheiro vivo tenha os dias contados. Por dois motivos. Há custos associados aos sistemas de pagamento electrónicos e a geração mais velha ainda está muito familiarizada com o pagamento em dinheiro. "Será preciso deixar passar uma geração", defende.

Agarrados ao dinheiro

De acordo com o estudo do Banco de Portugal "Custos sociais dos instrumentos de pagamento de retalho em Portugal", os portugueses ainda preferem usar dinheiro no dia-a-dia. Em 2015, fizeram cerca de 3,2 mil milhões de pagamentos em numerário, o que representa 70% do total de pagamentos dos particulares. Mas os cartões "são um instrumento de pagamento cada vez mais popular", pode ler-se no documento. Pesaram 27% nos pagamentos dos diferentes agentes económicos no ano passado.


Os principais argumentos contra a "cashless society" são o aumento do risco de fraudes e de ataques informáticos e as dificuldades dos idosos em lidarem com as novas tecnologias. 


Esta tendência é sustentada pelo estudo da Cap Gemini "World Payments Report", que revela uma subida das transacções electrónicas em Portugal de 1,7% de 2010 para 2014, com os cartões a representarem quase 70% das operações. Os números do Banco de Portugal mostram que, nos nove primeiros meses de 2016, a utilização do multibanco bateu recordes. Entre Janeiro e Setembro, realizaram-se 1,49 mil milhões de operações, o que significa um aumento de 7% face ao mesmo período de 2015. Quase metade das operações corresponderam a compras.

No estudo "Custos sociais dos instrumentos de pagamento de retalho em Portugal", o regulador estudou vários cenários. Um deles foi a substituição de 10% dos pagamentos em numerário por cartões de débito. A conclusão foi que, "do ponto de vista social, permitiria uma poupança nos custos de 30 milhões de euros". Para os consumidores, haveria um ganho privado de 12 milhões de euros "obtido principalmente na redução do tempo necessário para efectuar o pagamento". Ou seja, a poupança é contabilizada tendo em conta o tempo gasto a levantar dinheiro ao balcão dos bancos ou nas caixas automáticas.

Prós e contras

Em Janeiro deste ano, no Fórum de Davos, o CEO do Deutsche Bank, John Cryan, fez uma previsão. Para ele, dentro de uma década deixará de circular dinheiro em papel porque "não há necessidade, é ineficiente e muito dispendioso", afirmou. Mas o assunto não é consensual. No livro "The curse of cash" (A maldição do dinheiro), o economista e professor na Universidade de Harvard, Ken Rogoff, defende o desaparecimento gradual das notas de valor mais elevado como forma de combate à corrupção, ao mercado negro e ao financiamento do terrorismo. Mas, em declarações ao Expresso, explica que não advoga o fim abrupto do dinheiro. E dá como exemplo o que aconteceu recentemente na Índia, onde o Governo retirou, de repente, de circulação as notas de 500 e 2000 rupias, causando o pânico na população. Para Rogoff, deve haver um período de transição que poderá começar com a retirada das notas de valor mais elevado, pouco usadas no dia-a-dia.

O economista explica a resistência dos bancos centrais a esta sua proposta com o facto de a impressão das notas de valor mais elevado ser muito lucrativa. Mas, argumenta, se for feito um balanço entre ganhos e perdas, percebe-se facilmente que o crime e a evasão fiscal acabam por não compensar os ganhos.


Portugal está a meio caminho entre os escandinavos e os países do Sul da Europa, diz o presidente da ACEPI. O "fenómeno multibanco" foi determinante, defende.    


As vantagens do dinheiro electrónico prendem-se sobretudo com a redução de custos de produção, gestão e transporte de dinheiro e também com o combate ao crime. É mais fácil fugir ao Fisco e às autoridades com pagamentos em dinheiro, que não deixam rasto. Além disso, os consumidores perdem tempo a levantar dinheiro nos ATM ou no banco. Há ainda um outro motivo a favor do dinheiro electrónico. Investigadores britânicos do Instituto BioCote concluíram que levantar dinheiro num ATM deixa uma pessoa tão exposta a bactérias como usar uma casa de banho pública em más condições de higiene. Do lado dos argumentos contra a sociedade sem dinheiro estão o aumento do risco de potenciais fraudes e de ataques informáticos, e ainda as dificuldades dos idosos em lidar com as novas tecnologias. E, por outro lado, como vamos poupar num mundo sem moedas e notas? Por via das dúvidas é melhor manter o porquinho-mealheiro.





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comentários mais recentes
5640533 Há 1 semana

O desaparecimento do dinheiro tem outras causas.

Rebelo Há 1 semana

E a planeta inteira terá acesso au pagamento por telefone? A África por exemplo? E deixar o dinheiro todo no banco vai fazer com que muita gentinha não durma ! E se o telefone ou a rede avariou ou não tem bateria fico a dever ? Assim a economia fica sempre a mercê dos bancos e podem saber de tudo sobre a nossa vida .As prostitutas também vão ter sistema de pagamento (on Line ) e eu vou utilizar o telefone da minha sogra quando lá for

Roger Russo Há 1 semana

O artigo é semelhante a todos os outros sobre este assunto. Gostei. Porém, para mim creio que não foi referida uma ou mais problemáticas. É certo que reduz a possibilidade de assaltos e de roubos violentos porém nesse âmbito apenas limita o circulo e o tipo de gatunos. Serão eventualmente menos os ladrões mas o pequeno grupo que ficar será muito mais especializado. Por outro lado há o problema da privacidade dos clientes bancários... e não é questão de somenos. Por outro lado porque temos que confiar nos banqueiros com as histórias feias que se contam há séculos? E em caso de crise? Vai haver sempre crises. No fundo esta será antecâmara do regresso ao padrão ouro ou semelhante ou de outro equivalente. Isto para não alertar para o surgimento de redes bancárias clandestinas bitcoins e etc... Ou será que os estados pensam que só eles podem ligar com informática e cibernética?

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