Weekend Teatro: A cada estatística provisória corresponde uma dor permanente

Teatro: A cada estatística provisória corresponde uma dor permanente

A vida, por mais dura que seja, pode e deve ocupar um palco. A vida, em si, é uma obra de arte. O que Marco Martins nos traz de Great Yarmouth, em Inglaterra, é um alerta sobre o estado do mundo. Somos todos peças de uma máquina que ninguém sabe bem como desligar.
Teatro: A cada estatística provisória corresponde uma dor permanente
André Cepeda, James Bass e Sofia Bernardo
Wilson Ledo 14 de julho de 2018 às 14:00
De uma crueza inabalável. Marco Martins viajou até Great Yarmouth, em Inglaterra, e aí construiu uma pesquisa artística (e porque não, sociológica) a que raras vezes estamos habituados a assistir na criação teatral em Portugal. Longa e profunda.

Outrora destino balnear de referência para os britânicos, Great Yarmouth tem hoje uma realidade muito diferente. Os hotéis e os campos de caravanas semi-abandonados nesta vila costeira foram aproveitados, pelas indústrias que aí se desenvolveram, para instalar trabalhadores. E há um nome incontornável: Bernard Matthews, onde galinhas e perus são transformados a um ritmo vertiginoso.

Aquilo que Marco Martins desenha é o retrato de uma nova emigração, pouco conhecida, que teve o seu auge nos anos da crise económica. Um retrato em que os seus protagonistas deixam de ser tratados como números e passam a ter um rosto, um passado para contar. Por isso, "Provisional Figures Great Yarmouth" eleva a fasquia de um trabalho de pesquisa em comunidade que o encenador foi procurando ao longo dos últimos anos, primeiro com a população lisboeta em "Todo o Mundo é um Palco" e depois para mostrar o ritmo de trabalho dos "Atores".

"Provisional Figures Great Yarmouth" é um relato doloroso do cheiro a sangue e a fezes que se esconde numa fábrica de transformação de perus, dos movimentos mecânicos que deixam dores irremediáveis no corpo, das rotinas longe do que frequentemente associamos a um ideal de felicidade.


Mais contido na palavra do que nos espectáculos anteriores, é a corporalidade que se explora em palco. Porque estes corpos - com tatuagens, cicatrizes e ossos deslocados - reflectem uma lógica de capitalismo desenfreado. Eles são uma mera parte de uma linha de montagem que tem de cumprir metas no final do dia. E é nas suas peles que se mantém, por mais que se aplique água ou desinfectantes, o cheiro das entranhas dos bichos.

A lógica da sobrevivência impera. "Prefiro estar no sítio onde há dinheiro para sobreviver do que em Portugal", ouve-se num dos relatos gravados. Todos eles, sejam portugueses, eslovenos, moçambicanos ou mesmo ingleses se submeteram porque parecia não haver outra opção. São vidas marcadas por falhas, desencontros, desgostos que acabam por se reunir no mesmo local: Great Yarmouth.

Para as estatísticas, Ana, Ivan, Maria do Carmo, Pedro, Peter, Richard, Robert, Sérgio e Victoria não passam de dados provisórios. Depois do espectáculo que esteve em cena no Teatro Maria Matos - o último deste teatro, tal como o conhecemos, com um projecto de programação desafiante - as suas histórias vão perdurar no espaço digital.

A plataforma de residências artísticas raum.pt mostra um outro lado desta pesquisa de dois anos em território inglês. Os textos de Gonçalo M. Tavares e Isabela Figueiredo, bem como as fotografias de André Cepeda, acentuam esse contacto com uma realidade dura, que parece tão longínqua, mas que ao mesmo tempo nos diz tanto. Isto porque, também nós, somos peças de uma máquina de produção.

O registo visual de Cepeda é, maioritariamente, arquitectónico. É como se um parque de diversões decadente se abrisse para que o exploremos, deixando a fábrica Bernard Matthews fora desse registo. O que importa é mostrar o que resta quando termina o trabalho. E parece ser tão pouco, tão sem brilho, que chega a magoar. Um dos relatos escritos por Isabela Figueiredo comprova-o: sem trabalho, depois das cicatrizes, resta "andar de café em café".

Os dois momentos de "Provisional Figures Great Yarmouth" dizem-nos, assim, mais sobre o estado do mundo do que aquilo que o próprio mundo gosta de reconhecer. Processos de trabalho que unificam, submetem, rebaixam e cultivam uma ordem aparente. Processos de trabalho que promovem a desigualdade entre espécies, que fazemos crescer e degolamos a nosso bel-prazer.

São "fábricas de morte" nas quais o grave grito de socorro de quem aí trabalha se deixa abafar pelo barulho das máquinas.


"Provisional Figures Great Yarmouth"

Foi o último espectáculo do Teatro Maria Matos, em Lisboa, tal como o conhecemos nos últimos anos. O espaço junto à Avenida de Roma será agora concessionado a privados e a sua missão dividida por dois novos espaços criados pela EGEAC. A despedida dá-se este sábado, 14 de Julho, com o programa "aoarlivre", que inclui actividades para famílias. Entre as 15 e as 22 horas, no Bairro das Estacas.