Weekend Teatro: Ilusão de uma solidão partilhada

Teatro: Ilusão de uma solidão partilhada

Paralisa, isola, cega. É a força da solidão. Dois irmãos partilham um espaço sufocante. “Invazio ou A Autoridade Mundial em Solidão”, para ver até 6 de Março no Comuna – Teatro de Pesquisa.
Teatro: Ilusão de uma solidão partilhada
Miguel Baltazar/Negócios
Wilson Ledo 27 de Fevereiro de 2016 às 13:30

Uma vila rural da Irlanda do Norte. Dois irmãos em conflito. Três poderes a exercer influência: família, religião, trabalho. Eis a equação de "Invazio ou A Autoridade Mundial em Solidão", em cena até 6 de Março no Comuna – Teatro de Pesquisa, em Lisboa.

Luís Moreira regressa à encenação, sem volta a dar. "Tomei-lhe o gosto". Em cena toca-se delicadamente a solidão. Aquela que paralisa, isola, cega. Este não é um espectáculo de tempo, mas de espaço. "No fundo é o abismo. Mostrar solidão em cena é muito difícil".


Coleman e Valene, face a face. "Falam um com o outro. Mas ninguém se ouve. Tudo passa completamente ao lado". E naqueles corpos procrastinadores, a materialização de um medo comum e universal: o medo de ficar sozinho. "A verdadeira solidão existe quando tens de partilhar o espaço com outra pessoa. Isso é que custa".

Grande cidade ou zona rural. Minutos rápidos ou lentos. A atmosfera solitária é transversal, não um exclusivo. "Nós já não temos tanto medo de ficar sozinhos porque nos apetrechamos de aparelhos cheios de botões a dizer partilhar. Achamos que a consequência de ficar sozinho está eliminada".



Estará mesmo? O encenador acredita que não. "Uma mentira completa. A consequência, quanto muito, tornou-se maior. Isolamo-nos de tal maneira e habituamo-nos. Estamos a criar a ilusão de uma solidão partilhada. Isto é que é perigoso".

Estamos igualmente sozinhos com os ecrãs ligados, com a palavra-passe da internet sem fios, com o barulho dos televisores. Tão sozinhos como perante um irmão a quem se reconhece, com dificuldade, os laços de sangue. Porque não é só uma questão de emoção, mas também de propriedade quando o conflito surge em cena. Sem fim à vista.


Em "Invazio ou A Autoridade Mundial em Solidão" Luís Moreira está num jogo constante. "O problema é ter de me desdobrar enquanto actor e encenador. Estar dentro e fora de cena". Quando o aluno José Pimentão – que assina a tradução de "The Lonesome West" de Martin McDonagh – lhe apresentou o texto, Luís Moreira soube que queria partilhar o palco com ele, ser um dos irmãos.


"Não queria deixar de representar". É a primeira vez "em muito tempo" que interpreta uma personagem com nome. A primeira de muitas, espera ele, de olhos fixados no futuro.

sugestão
Invazio ou A Autoridade Mundial em Solidão

A partir de "The Lonesome West" de Martin McDonagh.

Encenação de Luís Moreira.

Interpretação de Carolina Crespo, Isac Graça, José Pimentão e Luís Moreira.

Onde: Comuna Teatro de Pesquisa, Praça de Espanha, Lisboa

Quando: 25 de Fevereiro a 6 de Março

Quanto: cinco a dez euros

Luís Moreira volta à encenação
Luís Moreira volta à encenação
Miguel Baltazar/Negócios




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