Música The Smiths: Um manifesto na nação de Thatcher

The Smiths: Um manifesto na nação de Thatcher

A versão remasterizada de “The Queen is Dead”, o álbum mais maduro dos The Smiths, viu agora a luz do dia. Continua a ser um manifesto único para se perceber melhor os anos em que Margaret Thatcher modificou para sempre a sociedade britânica e os seus anseios e sonhos.
The Smiths: Um manifesto na nação de Thatcher
Há discos que marcam uma geração. Tal como "God Save the Queen", dos Sex Pistols, definiu o niilismo punk e pontuou a chegada de Margaret Thatcher ao poder "para restabelecer a ordem", "The Queen is Dead", dos The Smiths, também é um manifesto à nação britânica. Os paralelos entre os dois temas são múltiplos, da crítica à monarquia como pilar do sistema reinante, à eloquência radical da lírica, ao som mais agreste como contraponto à melodia. Não admira que, editado originalmente no Verão de 1986 (a canção e o álbum a que deu o nome), "The Queen is Dead" tenha resistido como obra de arte ao tempo. Voltar a escutá-lo, na edição "deluxe" agora disponível, é reencontrar uma obra-prima.

Entre a voz, a postura e as palavras de Morrissey e a guitarra cristalina de Johnny Marr, desvenda-se o que resta de uma era. Morrissey está aqui no seu auge, como o bardo de uma cidade e de um país de quem escutava o eco cortante dos seus anseios e receios e, claro, do seu desespero. Os Smiths foram formados em 1982, em Manchester, por Steven Patrick Morrissey e por John Maher (que alteraria o nome para Johnny Marr), com o baterista Mike Joyce e o baixista Andy Rourke. O quarteto adoptou o nome The Smiths porque era um nome comum (ao contrário das bandas de pop electrónico da altura). Em 1983, surgiriam os primeiros singles: "Hand in Glove", "This Charming Man" e "What Difference Does it Make?", pérolas de coloração pop que foram promovidas pelo influente John Peel na BBC.

Era um tempo de mutação social. A Grã-Bretanha vivia um momento de mudança radical e de "engenharia social", desenvolvida após a vitória estrondosa de Margaret Thatcher em 1979. Thatcher queria mudar a Grã-Bretanha política e economicamente. Para isso, socorreu-se de um bem importado: o monetarismo. E isso reflectiu-se, com a crescente influência da City, como centro da riqueza que mudaria a face do país (com o apoio do petróleo do mar do Norte a ajudar). O Norte perderia influência e Londres seria a jóia da Coroa. A herança da Revolução Industrial dava lugar ao mundo financeiro e dos serviços. Os sindicatos, fustigados por Thatcher, perdiam também a sua influência na nova Grã-Bretanha. A música percebia isso. Green Gartside, dos Scritti Politti, muito influenciado pelos escritos de Antonio Gramsci, dizia em 1981: "O que tem sentido é o que vende." A televisão em 1982 aderia ao mundo do comércio, com a chegada do Channel 4, que levou à criação de dezenas de empresas independentes. Thatcher percebera o país: queria uma nova história em que se reconhecesse. Órfã do seu passado colonial, a Grã-Bretanha deixara de ser uma potência cintilante. Entre os Estados Unidos e a Europa, optara pela sua estratégia de estar com um pé num lado e o outro no outro. Thatcher criou uma nova versão da Grã-Bretanha. O mundo musical também mudara, quando os Smiths irromperam. Era uma indústria: o "New Musical Express" vendia 220 mil cópias por semana, quase tanto como o The Times por dia. O dinheiro também se tornara parte da nova indústria musical. Em 1982, Boy George, dos Culture Club, dizia: "No punk toda a gente te atacava por seres rico... Mas todos eles queriam ser ricos. Temos de o ser. Eu tenho muito dinheiro..., mas trabalho para isso, de forma dura."

A nova ética ("ser rico não é um pecado, e quem não o for é um falhado") tinha vingado. Os artistas tornavam-se heróis e empresários. Os artistas torturados estavam fora de moda. Vivienne Westwood, a rainha da moda punk, e uma das forças por trás dos Sex Pistols, explicava o seu estilo: "Parecer rico é grande, enorme!" Detestando Thatcher, Westwood absorvera a aspiração social e o materialismo dos anos da revolução monetarista. A nova Grã-Bretanha que idolatrava a aristocracia e a riqueza vinha ao cimo: com o casamento de Diana com Carlos, mas também com o sucesso da série "Brideshead Revisited", baseada na novela de Evelyn Waugh sobre o declínio de uma família aristocrata entre os anos de 1920 a 1940.

Em 1986, Margaret Thatcher haveria de ganhar a sua terceira eleição para o Parlamento. O Estado Social era reduzido ao mínimo, o espírito do empreendedorismo individual ganhava estatuto eterno. O Acid House ainda vivia no "underground", mas era mais um reflexo do hedonismo individualista reinante. Foi neste contexto que cresceu o mundo dos Smiths.

Morrissey era o contrário deste novo mundo de Thatcher e da pop britânica de então. Era um artista torturado, que se via um pouco como um sucessor de Oscar Wilde. Em vez de livros, usava a música para se exprimir. A carreira do grupo reflecte isso até chegar ao seu momento culminante, "The Queen is Dead". A raiva poderia transformar-se em lágrimas ou, então, em canções pop. O disco é um testamento e um manifesto da Grã-Bretanha dos anos 80.

Mas isso não nos faz esquecer que, na época, os Smiths eram um grupo de fãs. Não eram ícones que levantavam multidões. Morrissey e Marr acreditavam ainda no mundo pop dos anos 60, quando os grupos lançavam singles que não apareciam nos álbuns. Mas os Smiths nunca dominaram os "tops" como os Beatles. Não deixa de ser curioso como, passado pouco tempo de sair "The Queen is Dead", o grupo tenha lançado o excelente single "Panic", em que Morrissey propunha alegremente o enforcamento do "Blessed DJ" por, constantemente, colocar no ar música que "says nothing to me about my life."

Os Smiths sentiam-se traídos pela falta de sucesso. E aqui voltamos ao título-tema do disco: Morrissey, que se via como um "salvador" da pop britânica, estava hipnotizado pelo passado. Sabia que o país nunca singraria no futuro se não se libertasse do seu passado imperial e exclusivista. Morrissey parecia antever a lógica do Brexit e os erros primários que este continha. No disco, há uma grande canção, "The Boy With the Thorn in His Side", onde o cantor pede a simpatia dos fãs face ao maior número dos que duvidam da sua palavra. Canta: "How can they hear me say those words still they don't believe me?" A melancolia do disco, e mesmo o mórbido título, não escondem a luminosidade da melodia que Marr cria para as palavras de Morrissey. E há um tema que parece sintetizar o mundo vazio onde Morrissey tenta não sucumbir: "I Know It's Over" ("The sea wants to take me/The knife wants to slit me," ou "It's so easy to hate/It takes strength to be gentle and kind."). Está aqui um dos momentos maiores da associação entre Morrissey e Marr. E um disco que define uma era.





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