Weekend Trump e o renascimento do nacionalismo económico

Trump e o renascimento do nacionalismo económico

Trump já ameaçou as empresas dos EUA que deslocalizem a produção, promete baixar os impostos e acabar com o Obamacare, que classifica como um “evento catastrófico”.
Trump e o renascimento do nacionalismo económico
Jonathan Ernst/Reuters
Celso Filipe 20 de janeiro de 2017 às 12:00
"Serei o maior criador de empregos que Deus já fez." Donald Trump não faz por menos e garante que o seu mandato será marcado pela geração de postos de trabalho, um plano que espera concretizar forçando as empresas norte-americanas a inverterem as suas estratégias de deslocalização da produção.

As ameaças feitas às grandes construtoras automóveis, como a General Motors e a Ford, de as penalizar caso não produzam nos EUA, faz parte dessa estratégia que se pode classificar de nacionalismo económico. Uma concepção que combina com uma radicalização da política, discursiva e prática, que começou com a sua candidatura, abriu brechas no próprio Partido Republicano e promete ser uma marca sua no exercício do poder.

Em paralelo, Trump pretende avançar com uma reforma fiscal destinada a reduzir os impostos pagos pelas empresas sobre os seus lucros. O Partido Republicano propõe-se reduzir esta taxa de 35% para 20%, mas Trump deseja ir mais longe e fixá-la em 15%. E pretende também reduzir os escalões de IRS para três, com taxas de 12%, 25% e 33%.

Os especialistas avisam que estas medidas, que se traduzem numa diminuição da receita do Governo, poderão fazer com que o défice cresça em cinco biliões de dólares nos próximos 10 anos.

Uma área onde Trump quer avançar com mudanças substantivas é a de energia. Obama deu um ímpeto às energias renováveis que o novo inquilino da Casa Branca pretende inverter, apostando nas energias fósseis como o petróleo e o carvão, com características poluentes. E durante a campanha eleitoral garantiu mesmo que iria acabar com as normas ambientais que destroem o ambiente.

Donald Trump nomeou, para secretário do Departamento de Energia, Rick Perry, que ocupou o lugar de governador do Texas entre 2000 e 2015, tendo sido nesta qualidade um dos grandes defensores do petróleo, mas também um promotor do crescimento das energias renováveis neste estado norte-americano.

Perry é, contudo, uma figura controversa. Em 2012, quando se iniciou na corrida presidencial, entrou em rota de colisão com o consenso científico sobre as alterações climáticas. "A questão do aquecimento global foi politizada e há um número substancial de cientistas que manipularam os dados para terem mais subsídios para os seus projectos", declarou Perry na altura.

Uma outra bandeira de Donald Trump, porventura a mais mediática de todas, é a de acabar com o Obamacare, o plano de saúde social implementado por Barack Obama, e constituiu uma das marcas da sua governação. "O Obamacare foi um evento catastrófico", disse Trump no início de Janeiro, em entrevista ao New York Times. O novo Presidente dos EUA pretende substituir o Obamacare por um sistema que definiu como "Contas de Poupança de Saúde", delegando nos estados a decisão de como gerir os fundos do sector da saúde, mas este plano ainda está em aberto.

O 45.º Presidente dos Estados Unidos tem também uma visão completamente diferente sobre a questão das armas e promete acabar com as zonas livres criadas por Barack Obama porque, em seu entender, estas são como "oferecer doces aos bandidos". Um maior controlo e regulação da venda e posse de armas, tema quente da anterior administração norte-americana, vai ser arquivado por Trump, para gáudio da toda-poderosa National Rifle Association, que apoiou de forma indefectível a sua candidatura.

Internamente, Trump vai ainda ter de saber lidar com a animosidade da generalidade dos media norte-americanos. Ainda esta semana, o magnata disse que só usava a rede social Twitter para responder aos órgãos de comunicação social "desonestos". E, na anterior, a sua primeira conferência de imprensa depois da eleição ficou marcada por ter impedido um jornalista da CNN de lhe fazer perguntas, argumentando que a cadeia televisiva norte-americana dá "notícias falsas" a seu respeito.

Não por acaso, esta quarta-feira, dia 18, Obama deu a sua última conferência de imprensa deixando um repto aos jornalistas: "Vocês devem ser cépticos e não bajuladores, porque são essenciais para a democracia." Para bom entendedor, meia palavra basta.






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