Vinhos Um brinde aos velhos hábitos

Um brinde aos velhos hábitos

No universo do vinho do Porto, os vinhos Dalva são um caso especial com uma colecção impressionante de Portos Dry White muito velhos, bem como Portos Colheitas brancos que fazem delirar os entendidos.
Edgardo Pacheco 24 de dezembro de 2016 às 16:00
O regresso das categorias nobres do vinho do Porto à ribalta deve-se ao lançamento de vinhos muito velhos, num processo que começou em 2010 com o o Scion, da Taylor's. E a existência desses vinhos velhos deve-se a um hábito muito antigo das gentes do Douro: guardar vinhos especiais para as gerações futuras.

No Douro, uma família com algumas posses procurava sempre fazer um vinho especial no ano do nascimento dos filhos. Esse vinho destinar-se-ia às datas festivas que podiam começar com primeira comunhão e acabar no casamento, com profissões de fé e crismas pelo meio.

Sucede que, por um comportamento que é muito português (no vinho e noutras matérias), o chefe de família afeiçoava-se de tal forma aos vinhos que ia protelando a abertura das pipas, dos garrafões ou das garrafas, naquele raciocínio tipo: "bom, se o vinho chegou até ao casamento do meu filho, se calhar chegará melhor no baptizado dos meus netos". E, depois, começava tudo: primeira comunhão, profissão de fé, entrada na universidade, formatura, etc etc. E o vinho, sempre inviolável. A dada altura, o vinho adquiria um tal valor sentimental que os filhos e netos do seu autor não tinham coragem de o beber. Só processos de partilhas ou aflições financeiras podiam fazer o vinho mudar de mãos e, então sim, cumprir a sua função: ser provado e bebido.

E se este era um comportamento familiar, era também corporativo. Nas próprias empresas havia este hábito de deixar sempre uns vinhos esquecidos. José Manuel Sousa Soares, responsável de enologia do grupo Gran Cruz - e bem assim dos vinhos Porto Dalva da empresa C da Silva que hoje destacamos -, lembra-se de trabalhar com responsáveis de gestão de "stocks" de vinho do Porto que, já com boa idade, nem queriam ouvir falar em mexer em certos lotes. "Às vezes, eu perguntava por aquela pipa A ou B que nem sabia bem o que era e o que ouvia logo: 'a gente vê isso mais tarde'. E eu rapidamente aprendi que 'a gente' não era nenhum de nós. 'A gente' era uma geração que haveria de nos suceder".

Ora, se hoje José Manuel Sousa Soares pode dar-se ao luxo de oferecer vinhos do Porto sublimes com a chancela Dalva, isso deve-se ao tal espírito de guarda para memória futura de diferentes gerações de homens que governaram a C da Silva. Sendo que, misteriosamente, esta pequena firma especializou-se em Portos Brancos velhos para a feitura de dois perfis de vinho: o Old Port Dry White e o Porto Colheita. Se este último é um vinho de uma única colheita, o primeiro é um vinho de lote, apresentado com estilo de entrada (Reserva) e estilo datado (10, 20, 30, 40 e mais anos). É, por comparação, idêntico a um Tawny com indicação de idade, só que com vinhos do Porto brancos.

Para infelicidade nossa, não podemos escrever sobre todos os vinhos Dalva, pelo que ficaremos por dois: O Porto Dalva DalvaDry White 40 anos e o Porto Golden White Colheita 1971.

Com estas idades, os vinhos ganham naturalmente aromas terciários misteriosos. O 40 anos tem aquela mistura de aromas cítricos com frutos secos e madeiras exóticas, mas à medida que rodamos e levamos o copo ao nariz e à boca vamos descobrindo outros cheiros: E, na boca, o que espanta é o volume e o nível de secura do vinho, o que lhe dá uma capacidade gastronómica impressionante. Inigualável em matéria de vinho do Porto.

Já o Golden White Colheita de 1971 é, a nosso ver, um vinho sublime porque os seus primeiros aromas atiram-nos com uma rapidez impressionante para o cheiro inebriante de umas caves cheias de pipas e tonéis com Portos de diferentes perfis e idades. Temos notas de frutos em passa, damasco, caril e acetona da praxe. Envolvente na boca, o vinho cresce e tende a prolongar indefinidamente os seus sabores em virtude da sua acidez. Em certo sentido, na boca, quase nos faz lembrar um Madeira, tão fresco e tão vivo é. Num vinho do Porto com 45 anos, não é assim tão fácil descobrirmos este carácter vibrante

A nós só nos resta agradecer e brindar aos homens que, na C da Silva, fizerem o favor de nos legar tais vinhos. E esperarmos que José Manuel Sousa Soares esteja a imitar os antigos. Sim, eles sabiam muito sobre vinho do Porto. Os Portos Dalva provam-no bem.





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Anónimo Há 3 semanas

Belissimo texto q se perde nas ultimas geracoes:o jovem de hoje nao gosta(bebe)vinho.Estao mais virados para bebidas espirituais,cerveja e adocicados.Um natal sem um bom vinho do porto acompanhado de uma rabanada caseira nao faz sentido.UM BOM NATAL A TODOS QUANTOS SE DEBRUCAO EM REDOR DESTE JORNAL.

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