Weekend Um combate pela transparência

Um combate pela transparência

Uma aplicação para telemóvel está na linha da frente do combate contra a obscuridade do mercado global da arte, revelando continuamente preços em galeria e percursos de artistas.
Um combate pela transparência
José Vegar 29 de julho de 2017 às 09:00
Haverá sempre a hipótese de a utilização da tecnologia para acesso à transparência total - isto é, à publicação da informação mais útil para o conhecimento e para a decisão - ser uma ilusão. De facto, a informação pública teve sempre, e continuará a ter, os mais respeitáveis inimigos. Temos, primeiro, os detentores da informação, sejam governos ou empresas, para os quais a reserva da informação é vital. E temos, de seguida, todas as conexões daqueles agentes, para os quais a informação reservada é vital para a aplicação dos seus interesses.

Colocado assim o cenário, qualquer produtor e disseminador de informação encontra inúmeros problemas, por vezes críticos, para obter e partilhar dados que contam. Um dos modos em que a tecnologia pode agir como disruptor deste eterno estado das coisas é que as suas plataformas geram canais e fluxos multidireccionais, alimentados por diversas fontes que, desde que unidos e editados, podem gerar informação pertinente. É, afinal, o chamado poder da multidão.

É a partir deste princípio que funciona a aplicação Magnus, criada com a nobre missão de revelar o ainda demasiado velado mundo do mercado da arte. Disponível para iPhone e para a generalidade dos smartphones, em www.magnus.net, o Magnus, agora finalmente estável, depois da construção de uma saudável base de dados, assenta todo o seu valor na bondade dos agentes da procura, isto é, nos investidores, coleccionadores, conhecedores e amantes de arte. A ideia é que estes partilhem a informação resultante dos seus contactos, acessos e aquisições, alojando-a continuamente no Magnus.

A transparência que daqui resulta pode ser classificada em vários níveis. Primeiro, permite violar a fronteira dos leilões, infelizmente ainda hoje o centro informativo para as cotações e preços no mercado da arte, chegando aos valores existentes em galerias, e dos vários grupos de artistas, dos emergentes aos contemporâneos. Esta partilha de valores permite, igualmente, a construção de um histórico para um artista ou para uma obra. E, claro, a um terceiro nível, a partir dos valores, o Magnus consegue construir e disponibilizar biografias pessoais e criativas de artistas e, também, do percurso e posicionamento de galerias e museus.

O utilizador do Magnus pode beneficiar desta informação de um modo simples. Numa visita ou percurso, tira uma fotografia da obra que o intriga, e carrega-a na aplicação. O Magnus envia-lhe de volta toda a informação que possui. Garantem os seus autores que, em 70% dos casos, o envio da informação é imediato, e que nos restantes casos procedem à pesquisa necessária. Claro que, com a informação que possui, a aplicação permite ainda outros usos, como a descoberta de uma galeria numa determinada geografia, o percurso e a actividade recente de um artista, ou a gestão das prioridades de aquisição.

O Magnus não é ainda a materialização do sonho da transparência total, mas é um bom passo na direcção certa, num mercado que continua a usar o seu elevado estatuto cultural para tapar um segredo estrutural que faz pouco sentido.


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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