Livros Um país entre a espada e a parede

Um país entre a espada e a parede

É a Venezuela nos últimos dias de Hugo Chávez que é o centro nevrálgico deste estimulante romance de Alberto Barrera Tyszka. Um olhar sobre um país dividido ao meio.
Fernando Sobral 14 de janeiro de 2017 às 12:15

Alberto Barrera Tyszka, "Pátria ou Morte" Porto Editora, 199 páginas, 2017


Na Venezuela, vivem-se dias de instabilidade permanente. Nada é seguro. A revolução de Hugo Chávez eclipsou-se. Resta o descontentamento e uma nação dividida. O que é que levou a este caos? O romance do escritor venezuelano Alberto Barrera Tyszka ajuda-nos a caminhar neste terreno minado entre os que defendem a "revolução" e os que a abominam. Para o autor, o poder actual está doente e essa doença espalhou-se a todo o país.

"Pátria ou Morte" é um livro sobre a desintegração da Venezuela, onde um doente cada vez mais próximo de perecer, Hugo Chávez, se vai transformando numa imagem sagrada. Uma das personagens, Madeleine, espelha este desacerto: "Era impossível não se deixar comover diante de um homem doente que chora. A fragilidade do Chávez humano estava, também, ao serviço do poder do mito de Chávez. Ambos usavam o mesmo corpo."

O autor envolve-nos numa fina história que relata esses tempos finais de Chávez, através de um médico oncologista, Miguel Sanabria, que vive entre duas vozes que se opõem: a da mulher, Beatriz, uma ardente oponente de Chávez, e a do irmão, Antonio, apoiante fiel do Presidente. Ou seja, ele está no meio, entre duas forças rivais que se combatem sem se escutar. Tal como acontece a toda a Venezuela.

O fim de Chávez vai mostrando a realidade enferma do país. Vivem-se dias de dúvida: "Compreendeu que já estava saturado. No fundo, estava cansado da História. Sentia que a Venezuela era uma merda, um precipício que nem chegava a ser um país. Achava que a política os intoxicara e que estavam todos, de algum modo, contaminados, condenados à intensidade de tomar partido, de viver na urgência de estar a favor ou contra um governo. Eram, há demasiados anos, uma sociedade pré-apocalíptica, uma nação em conflito, sempre à beira da explosão. (…) O país estava sempre prestes a explodir, mas nunca explodia. Ou, pior ainda, vivia explodindo lentamente, pouco a pouco, sem que disso ninguém se apercebesse."

Miguel, a sua mulher e o irmão e o sobrinho Vladimir acabam por ser os actores principais de um país que parece uma comédia teatral. Depois surgem outras duas personagens importantes, Fredy Lacuna (que quer escrever um livro sobre a doença de Chávez) e Madeleine Butler (que deseja escrever uma obra sobre o seu carisma). Mas tudo isto gira à volta do centro de gravidade: Chávez e o seu núcleo de poderosos, onde tudo se decide. A pouco e pouco, vai-se criando um mito, que bebe todas as gotas da figura heróica de Simón Bolívar: "Chávez não tinha derrubado nenhum ditador. Não enfrentara nenhuma invasão. Não falava como se fosse o Che Guevara, como se pertencesse à liga dos grandes combatentes latino-americanos. A sua temperatura verbal estava acima da sua realidade: limitara-se a ganhar as eleições num país produtor de petróleo. Nunca tinha enfrentado um perigo iminente numa acção militar. Era um funcionário, não um guerrilheiro." Mas queria tornar-se um mito.

Tyszka cria um enredo muito tentador: vai obrigando as suas personagens, quase todas elas da classe média, a entrar em contradição com o regime, até porque têm de tomar decisões, algumas das quais podem pôr em causa a sua integridade física e moral. Como pano de fundo, há um fantasma: um Hugo Chávez moribundo. Este é um livro poderoso e empolgante. Que nos mostra uma Venezuela à procura de si própria.




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