Weekend Um “soft power” limitado na revista Monocle

Um “soft power” limitado na revista Monocle

A revista Monocle dedicou um suplemento especial a Portugal. A nossa visibilidade global sai reforçada por esta atenção, mas não foi atingida a imagem de um país vibrante na dimensão cultural.
Um “soft power” limitado na revista Monocle
José Vegar 18 de março de 2017 às 09:00
Na sua edição deste mês, a revista Monocle, que tem edição global, dedica um suplemento especial a Portugal. O destacável segue o modelo habitual da revista, um inquérito ao momento económico e cultural do país escolhido, com trabalho jornalístico independente, apoiado em comunicação paga. Com 62 páginas, um espaço considerável, o destaque dedicado ao nosso país pode ser analisado com o recurso a uma lupa de dupla lente, a do "soft power" atingido, e a das limitações do mercado cultural reveladas.

O conceito de "soft power", para os que com ele tiveram ainda pouco contacto, assenta na capacidade de uma entidade, que pode ser um Estado, mas também uma empresa, projectar globalmente uma imagem atraente através do seu poder cultural, captando assim a atenção e a "simpatia" dos receptores. O exemplo que é sempre dado é o da difusão do "espírito americano" através dos seus filmes e músicos, mas pode-se igualmente invocar a França e a Itália através da sua indústria de moda, ou a Rússia clássica através dos seus escritores e compositores.

Usando a lente do "soft power", Portugal fica muito bem no suplemento da Monocle. Sob o "banner" uma "nova ambição global", a revista capta depoimentos entusiasmados do Presidente da República, do primeiro-ministro, de algumas figuras nacionais, e mostra, no geral, um país à procura da velocidade ocidental cosmopolita e sofisticada, que tenta incorporar neste objectivo as suas raízes.

Assim, é dada a atenção devida a bons movimentos empresariais, como são os da revitalização dos sectores têxtil e do calçado, e mostra-se também a contemporaneidade existente em espaços como os do vinho, da gastronomia ou do turismo, por exemplo. Há também excelentes exemplos, embora circunscritos a Lisboa, Porto e Alentejo, de cosmopolitismo urbano ancorado em raízes culturais, em páginas como as dedicadas às livrarias, ou a algumas lojas. Assim, o objectivo de projectar para o mundo o "soft power" português contemporâneo parece ter sido atingido. No entanto, se olharmos para o suplemento através da lente do mercado cultural interno mostrado, o nosso poder aparece muito diminuído.

É certo que há referências, embora escassas, a alguns museus e galerias, como também a alguns ateliês de arquitectura, de design e de mobiliário, entre outras referências. Mas, se o objectivo era o de partilhar uma grande panorâmica sobre a nossa dinâmica cultural, aplicada em criadores, pontos de criação e produtos, este não foi atingido. Há, para começo, ausências extraordinárias, como são as de grandes pontos de joalharia, belas artes, mobiliário e moda.

Há também uma escuridão arrepiante sobre mercados de nicho, mas valiosos, como os do vinil ou de certos sectores da antiguidade. E há, finalmente, uma ausência gritante de atenção a movimentos como os da música ou do cinema. Poder-se-á sempre dizer que foram os profissionais da Monocle que falharam, e haverá alguma verdade nisto, claro. Mas, ao mesmo tempo, é preciso não esquecer que uma operação de "soft power" começa sempre no poder de mostra e persuasão, de "lobby", dos executantes da referida operação. Ou seja, cabia a todos os agentes culturais portugueses o papel de influenciar e encaminhar os pesquisadores da revista para os alvos certos. Isso não aconteceu, e perdeu-se uma batalha na campanha pela visibilidade global de Portugal.


Nota ao leitor: Os bens culturais, também classificados como bens de paixão, deixaram de ser um investimento de elite, e a designação inclui hoje uma panóplia gigantesca de temas, que vão dos mais tradicionais, como a arte ou os automóveis clássicos, a outros totalmente contemporâneos, como são os têxteis, o mobiliário de design ou a moda. Ao mesmo tempo, os bens culturais são activos acessíveis e disputados em mercados globais extremamente competitivos. Semanalmente, o Negócios irá revelar algumas das histórias fascinantes relacionadas com estes mercados, partilhando assim, de forma independente, a informação mais preciosa.





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