Weekend Uma honra que jamais pode ser lavada

Uma honra que jamais pode ser lavada

Se a história fosse justa para com as mulheres, seria Lady Macbeth a dar título a este clássico de Shakespeare. É ela que move a tragédia e tenta conter os seus efeitos. Há manchas de sangue que nunca se tiram. Porque são profundas, estão cravadas na alma.
Uma honra que jamais pode ser lavada
Macbeths - A peça encenada por António Pires está no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, até 18 de Agosto. É uma das poucas propostas de teatro para ver na capital este mês.
Wilson Ledo 04 de agosto de 2018 às 14:00
Um palco em meia-lua, debaixo das estrelas. É assim que se aprecia "Macbeths". Porquê plural? Porque aqui se cruzam várias referências de William Shakespeare. Ricardo II, Rei João, Júlio César, Otelo, Hamlet, Cimbelino, Henrique V, Henrique VI ou O Mercador de Veneza - todos delicadamente combinados por Luísa Costa Gomes.

Apesar da fusão, a linha narrativa é facilmente identificável: esta é a história de Macbeth, recém-nomeado Conde de Cawdor, depois dos seus feitos na protecção do reino. Uma premonição vem ao seu encontro: Macbeth há-de ser rei. O regicídio põe-se, inevitavelmente, em marcha.

Neste palco, 15 cadeiras, 15 tronos. Em cada um deles, uma imagem alusiva à guerra. Afinal, é pelo lado bélico que quase sempre se conquista o poder. Entre um elenco recheado de alunos finalistas da ACT - Escola de Actores, é para o casal Macbeth que a atenção se volta. O mesmo é dizer, para Cláudio da Silva e Margarida Vila-Nova.

Poder-se-ia garantir que o foco está na figura feminina, por mais que o título nos tenha levado a olhar para o outro lado do casal ao longo destes séculos. É Lady Macbeth a figura mais intrigante e mais desafiante do enredo. É ela que impulsiona a tragédia, que gere a hipocrisia e os remorsos depois de estar "feito o feito". "Os mortos e os que dormem não passam de imagens", lembra-nos, quando a tirania se apodera do marido, por medo de ser o próximo a quem é arrancado o trono.

"Macbeths" é sobre esse medo levado à exaustão. Cláudio da Silva não nos traz um protagonista austero, com postura real, sólido, como seria de esperar de um tirano. Ele é, pelo contrário, alguém em estado de fragilidade, com pouco controlo sobre os seus gestos e uma expressão facial que treme a cada palavra.

Por sua vez, Margarida Vila-Nova constrói uma Lady Macbeth no ponto, fulminante, valorizando o lado mais subliminar do texto. "Ai desgraça, em nossa casa", solta quando é anunciada a morte do rei, provocando o riso da plateia. Todos somos seus cúmplices, sabemos do que foi capaz e compreendemos os seus motivos.

As escolhas de António Pires na encenação são, diríamos, coreográficas. A multidão move-se com rigor e espalha-se, depois, pelas ruínas do Museu Arqueológico do Carmo. Para lá do palco, a acção nunca pára nos bastidores. Pires coloca em cena figurinos que conquistam e prendem o olhar pelo corte assimétrico. E, por fim, destaque para as séries de fotografias, onde coloca em cena o que dela não pode ser apagado com facilidade: o verde das árvores, o azul da água e, sobretudo, o vermelho do sangue.

É esse sangue que o casal Macbeth nunca poderá tirar das mãos. A sua honra não pode ser lavada, por mais que passem os séculos. Eles mancharam a Escócia e a si próprios. Para perderem tudo, assim, com o rápido movimento de um bosque.





pub