Weekend Virgolino Faneca denuncia o gigantesco esquema de espionagem que anda por aí

Virgolino Faneca denuncia o gigantesco esquema de espionagem que anda por aí

A menina Kellyanne Conway diz que Trump foi espiado através de um microondas. A maltosa ri-se mas Virgolino dá-lhe razão, revelando que tem sido espiado através de uma máquina de apara a barba
Virgolino Faneca denuncia o gigantesco esquema de espionagem que anda por aí
Celso Filipe 17 de março de 2017 às 17:00
Amigo Evaristo

Caro Evaristo, espero que esta te encontre bem, a ti e a todos os teus. Desculpa maçar-te, mas sei que foste agente secreto e ainda me lembro daquele intricado caso que resolveste envolvendo a menina Alice, dois pares de cuecas usadas, e o Anastácio, coleccionador das antigas e didácticas revistas Gina. Quando toda a gente pensava que tinha sido o Anastácio, o meliante responsável pelo furto de lingerie da menina Alice, tu descobriste que a mesma, afinal, tinha sido surripiada pela Custódia, por requisito de uma bruxa, que as ia usar numa macumba para quebrar o feitiço que a Alice tinha lançado ao Jacinto, marido da Custódia.

Tendo a tua brilhante investigação na memória, acontece-me que cada vez mais tenho dificuldade em perceber o cepticismo de algumas pessoas em relação aos modernos métodos aplicados nas ciências investigativas, manifestando esse estado de espírito através do uso da ironia para achincalhar os outros.

Ainda esta semana me deparei com um destes casos, quando essa gentinha sem escrúpulos se pôs a desprestigiar a menina Kellyanne Conway, conselheira de Donald Trump, por esta ter sugerido que o actual Presidente dos EUA foi espiado a mando do anterior, Barack Obama, tendo sido usado um aparelho microondas para o efeito.

E o que aconteceu? Paródia, galhofa, sarcasmo, fotomontagens. Imagens de microondas com o painel de funções onde acrescentaram a função espionar, Obama escondido dentro de um de máquina fotográfica em riste, a variedade de electrodomésticos onde é possível colocar câmaras, tais como, espremedores de citrinos, batedeiras, máquinas de café ou tostadeiras. Tudo para desacreditar a menina Kellyanne, quando ela não fez mais do que reportar a infestação de espiões, coscuvilheiros e alcoviteiros, equipados com a última geração de dispositivos electrónicos que estão apostados na devassa de pessoas espectaculares como o senhor Trump.

E isto não é conversa fiada, porque eu próprio fui vítima desta escumalha. Queres um exemplo? Olha, sou proprietário de uma máquina de aparar a barba e estou convencido de que a dita cuja está equipada com uma câmara oculta. Só assim se compreende que, chegando eu ao local de trabalho, as pessoas me digam: Cortaste a barba. E eu: Como é que sabem? E elas: Nota-se! E eu: Nota-se como?! Se vocês não me viram aparar a barba como é que sabem?! Andam a espiar-me fora do horário laboral? E elas: Não sejas parvo, vê-se que a barba está mais pequena! E eu: Não admito que se intrometam na minha vida privada. De certeza que meteram uma microcâmara na máquina. Isso é devassa e vou prontamente denunciá-la às autoridades, tanto as competentes como as incompetentes.

Partilhei, por correio electrónico seguro, esta minha preocupação com Kellyanne Conway, e ela confidenciou-me que lhe acontece o mesmo quando pinta as unhas, estando segura de que o Obama mandou instalar uma minimicrocâmara nos pincéis do seu estojo de manicura, partilhando as filmagens com colegas dela da Casa Branca. Só assim se entende, argumenta ela, que as funcionárias do gabinete do seu chefe lhe digam: Ó menina Kellyanne, esse vermelho fica-lhe melhor do que o azul que usou ontem. Realça a cor dos seus olhos. E pôr um "smile" nas unhas dos anelares transmite uma aparência jovial. E ela: Como é que sabem que pintei as unhas? E as secretárias: Por observação. Foi precisamente nessa altura que ela percebeu que estava a ser vigiada por uma minimicrocâmara e decidiu recorrer aos serviços de Maxwell, o inspector da série Olho Vivo, e à sua fiel companheira, a agente 99. Porque o assunto não é de somenos e um telefone no sapato dá sempre jeito nas emergências.

Para não ficar atrás, quero que tu, Evaristo, suspendas a reforma e trabalhes para mim, na companhia da Joaninha do Duarte & Companhia, que se mostrou disponível para ser tua parceira, com o fito de cortares este mal pela raiz e, quiçá, denunciares ao mundo que existe uma mancomunação entre os fabricantes de electrodomésticos e as organizações de espionagem. Enquanto isso não acontecer, vou passar a utilizar uma tesoura para tratar da minha barba.


Um abraço deste que te considera,

Virgolino Faneca


Quem é Virgolino Faneca

Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.




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