Weekend Virgolino Faneca tem um plano para ajudar os catarianos

Virgolino Faneca tem um plano para ajudar os catarianos

O xeque Tamim, intrépido líder do Qatar, está em sobressalto com o isolamento político a que foi submetido pelos seus parceiros do Médio Oriente. Pediu ajuda a Virgolino Faneca e este, claro, apresenta uma solução para o problema.
Virgolino Faneca tem um plano para ajudar os catarianos
Reuters
Celso Filipe 09 de junho de 2017 às 17:00
Caro Tamim

O senhor xeque, muito humildemente, endereçou-me uma carta, pedindo que eu esclareça o público em geral sobre o Qatar e a sua magnífica política, para que o rótulo de país apoiante do terrorismo se desvaneça.

Confesso-lhe, senhor xeque, que a minha reacção inicial foi a de o mandar catar, mas rapidamente concluí que este jogo de palavras básico serviria tão-só para provocar um ligeiro e condescendente sorriso nos dilectos leitores, descurando o essencial, o cabal esclarecimento dos factos. E este desiderato, claro, não se consegue com piadas foleiras sobre o mundial de futebol no Qatar, um país com enorme historial futebolístico e um clima ameno propício à prática deste desporto. Nem tão-pouco meditando no facto de o Qatar ter organizado, em 2015, um campeonato do mundo de andebol onde apresentou nove jogadores naturalizados e os árbitros pareciam também ter sido naturalizados catarianos.

O que efectivamente gera uma indómita vontade de rir é ver a Arábia Saudita acusar o Qatar de apoiar o terrorismo, o que é o mesmo que o roto dizer para o nu porque não te vestes tu.

Neste contexto, xeque Tamim, a minha missiva serve para o ajudar a definir um novo posicionamento do seu país, um extraordinário conceito criado pelo agora desaparecido Jack Trout - podia escrever, pela boca morre o peixe (porque "trout" na língua de Shakespeare significa truta na língua de Camões), mas seria um graçola estúpida e potencialmente desrespeitosa para com o finado e por isso não a faço - pelo que remeto três propostas tendentes a materializar a estratégia que me encomenda. A primeira é a de mudar o posicionamento geográfico do país, pedindo para fazer parte da Oceânia. Se esta medida se revelar inexequível, existe uma segunda possibilidade de remediar a arrelia da Arábia Saudita cedendo-lhes, por exemplo, o patrocínio das camisolas do Barcelona, oferecendo-lhes um clube de futebol inglês ou mesmo o Harrods, o género de presentes que poderá ajudar o magnânimo rei Salman a reconsiderar.

Caso esta última iniciativa se gorar, existe ainda uma terceira via, que consiste em recorrer aos serviços do senhor Trump, um mago da diplomacia, que lhe poderá vender "a tia-avó materna de todas as bombas não nucleares" e mais "uma série de bonito material militar" (Presidente dos EUA, "dixit"), acessórios com os quais poderá reforçar os seus poderes argumentativos.

Se todas estas estratégias falharem, o melhor é o xeque Tamim considerar a hipótese de vir residir para Portugal, um país muito hospitaleiro, com um clima soalheiro, vastos espaços desérticos para montar tendas e que já não maltrata infiéis para aí desde o século XII. Também estamos habilitados a organizar corridas de Fórmula 1, de cavalos, camelos e galgos e caçadas de falcões e gostamos muito de turistas. Em última análise, até podemos organizar testes de condução para as senhoras sauditas que, como é sabido, no seu país estão inibidas de conduzir, uma acção que poderá contribuir para o degelo das relações entre sauditas e catarianos.

Xeque Tamim, se vier para Portugal poderá até participar livremente nos debates estruturantes que estão a acontecer no nosso tranquilo país, como a gravidez da namorada do Ronaldo, o português dos D.A.M.A ou o estado de saúde de Manuel Luís Goucha. E não se preocupe com os "posts" da Maria Vieira. Está tudo controlado. É vir, com todo o seu dinheirinho, que nós lhe daremos bom uso.


Um bacalhau seco deste seu,

Virgolino Faneca


Quem é Virgolino Faneca

Virgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.






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comentários mais recentes
Conselheiro de Trump 09.06.2017

Pois e virgolino,nas arabias ainda impera a lei da selva.na selva de quando em vez o boi tem de ir medir forcas com outros do mesmo timbre para saber se ainda continua rei e senhor de toda a vaquinha q o rodeia.Se na selva separam-se os sexos pela corpolencia,nas arabias faz-se pela parte parietaria

Marta Guimaraes 09.06.2017

Ó surpreso!
Cala a boca retornado ressabiado. Para lixo já chega o que escreves todos os dias no Observador com o nick victor guerra.

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