Weekend Virgolino Faneca revela os bastidores das negociações do Orçamento

Virgolino Faneca revela os bastidores das negociações do Orçamento

Primeiro foram as negociações entre os representantes da gerigonça. A seguir um Conselho de Ministros de debate profundo, ensombrado pelo jogo do Monopólio. Virgolino conta-lhe (quase) tudo sobre este Orçamento.
Celso Filipe 14 de Outubro de 2016 às 17:00
Prezado Pedro

Sempre a bem da Nação e também dos 10 mil euros que me ofereceste como recompensa, venho por este meio informar-te que concluí com êxito a missão que me confiaste, a de saber o que vai constar no Orçamento do Estado para 2017, que neste momento e injustamente é mais falado do que a Maria Leal, uma fabulosa cantora que constitui a nossa derradeira esperança para, finalmente, ganharmos o festival da Eurovisão.

Mas pronto, a vida é o que é e não o que nós queiramos que ela seja, os 10 mil euros vão dar um jeitaço e a Maria Leal, contra ventos e marés, há-de conseguir levar a canção portuguesa aos píncaros da notoriedade mundial.

Assim sendo, vamos ao que interessa, ou seja, a narrativa da minha acção de espionagem para sacar informações sobre o Orçamento que tu poderás usar para fazer oposição. Tudo começou no encontro a três, entre João Galamba, Mariana Mortágua e António Filipe, no qual me infiltrei mascarando-me de estenógrafo. Cada um deles pensou que eu estava ali a mando do outro e, portanto, ninguém me fez perguntas. O diálogo foi este.

João Galamba (JG) - Estamos aqui reunidos para acertar as medidas do Orçamento.

Mariana Mortágua (MM) - Pois estamos.

António Filipe (AF) - É aumentar as pensões e não se fala mais disso.

MM - É criar um novo imposto sobre o património imobiliário e não se fala mais nisso.

JG - Então não falamos.

MM - Pronto. Já chegámos a um acordo. Não falamos mais.

AF - Eu também aceito o acordo, desde que fique claro que o meu acordo é diferente do obtido pela Mariana.

Mais tarde, introduzi-me no Conselho de Ministros, ainda sem a presença de António Costa, mascarado de ministro da Cultura, que é aquele tipo que toda a gente sabe que existe, mas a quem ninguém conhece a cara.

Augusto Santos Silva (ASS) - Estou aqui, no papel de mestre de cerimónia, enquanto não chega o chefe. Que tal jogarmos ao Monopólio?

Eduardo Cabrita (EC) - Isso não é um jogo um bocado capitalista? Se o BE e o PCP sabem disto, ainda temos problemas.

Mário Centeno (MC) - Temos problemas e não é por causa do jogo. Como é que eu arranjo 1.800 milhões de euros para fazer com que o défice baixe para os 2%?

Azeredo Lopes (AL) - O défice? Não conheço essa rua no Monopólio.

MC - Isto não é Monopólio, porra! É economia real. Andam a prometer coisas ao PCP e ao Bloco que só aumentam a despesa e depois eu é que tenho de ouvir os gajos de Bruxelas.

ASS - Pois é, temos um problema. Os peões do Monopólio não chegam para jogarmos todos. Podemos fazer equipas, que acham?

MC - Vocês devem estar a gozar comigo! A economia não está a crescer e, se vamos gastar mais, podemos estar a caminho do precipício.

Pedro Marques (PM) - Tenho estado aqui caladinho, a ouvir, mas acho que é o momento de falar. Aceito que façamos um jogo de equipas no Monopólio desde que o meu parceiro seja o António Costa.

MC - Isto é de doidos!...

O que é doidos, perguntou António Costa enquanto entreabria as portas da sala do Conselho de Ministros.

António Costa (AC) - Olhem, trouxe presentinhos da China para todos. Uns pauzinhos para comerem arroz e umas fichas do casino Lisboa, em Macau. Gostam?

MC - Senhor primeiro-ministro, desculpe, mas isto está esquizofrénico. Temos o problema do Orçamento para resolver e os meus colegas querem é jogar Monopólio. Isto não faz sentido nenhum. O Orçamento não é nenhuma brincadeira.

AC - Meus senhores, o vosso colega tem toda a razão. Bom, Mário, vamos fazer assim. Tens aí o Orçamento do ano passado?

MC - Tenho.

AC - Vais à rubrica da despesa, cortas 2.200 milhões nos gastos gerais do Estado, podes cortar por ministério ou noutros itens, como for mais fácil para ti, depois metes 400 milhões para aumentar as pensões e, no fim, consegues fazer um ajustamento de 1.800 milhões de euros.

MC - Não é assim tão fácil…

AC - Ó Mário, afinal, estás do lado da solução ou do lado dos problemas?

MC - Da solução.

AC - Assunto resolvido. Vamos lá jogar Monopólio. Eu fico com a banca.

MC - Mas a banca não é para os chineses?!

Com esta informação relevante, acho que podes fazer maravilhas no combate político à geringonça. Que dizes?


Um abraço deste que te estima

Virgolino Faneca

Quem é Virgolino FanecaVirgolino Faneca é filho de peixeiro (Faneca é alcunha e não apelido) e de uma mulher apaixonada pelos segredos da semiótica textual. Tem 48 anos e é licenciado em Filologia pela Universidade de Paris, pequena localidade no Texas, onde Wim Wenders filmou. É um "vasco pulidiano" assumido e baseia as suas análises no azedo sofisma: se é bom, não existe ou nunca deveria ter existido. Dele disse, embora sem o ler, Pacheco Pereira: "É dotado de um pensamento estruturante e uma só opinião sua vale mais do que a obra completa de Nuno Rogeiro". É presença constante nos "Prós e Contras" da RTP1. Fica na última fila para lhe ser mais fácil ir à rua fumar e meditar. Sobre o quê? Boa pergunta, a que nem o próprio sabe responder. Só sabe que os seus escritos vão mudar a política em Portugal. Provavelmente para o rés-do-chão esquerdo, onde vive a menina Clotilde, a sua grande paixão. O seu propósito é informar epistolarmente familiares, amigos, emigrantes, imigrantes, desconhecidos e extraterrestres, do que se passa em Portugal e no mundo. Coisa pouca, portanto.





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