Weekend Winston Churchill: o grande estadista

Winston Churchill: o grande estadista

A II Guerra Mundial haveria de colocá-lo no centro do palco: Churchill impôs-se como um líder guerreiro. Foi o profeta que vislumbrou a ameaça da Alemanha nazi e tornou-se o arquitecto da vitória aliada no futuro. E, com isso, criou um mito que ainda hoje perdura. O seu pensamento está no livro “A Hora Mais Negra”, que deu origem ao filme com o mesmo nome.

Anthony Mccarten
A hora mais negra
Objectiva, 307 páginas, 2017


Há quem tenha uma certeza: tal como Disraeli no imaginário britânico, Winston Churchill foi capaz de transformar as suas batalhas políticas em romances literários. Ou seja: os seus discursos e textos são um palco iluminado, onde o autor parece um actor. Basta escutar os seus discursos no período crítico de Maio a Junho de 1940 (aquele que é retratado no livro "A Hora Mais Negra", de Anthony McCarten, e na adaptação cinematográfica do mesmo), para se perceber a dimensão do líder político que ainda hoje é referenciado como um dos estadistas marcantes do século XX.

Até a esse momento culminante, o espírito genial, mas errático, de Churchill (apesar de todo o seu passado) era subvalorizado. Porque, quando falava do futuro do liberalismo, supunha-se que ele estava a conspirar com Lloyd George. E, quando falava da degradante situação da defesa militar britânica, parecia que estava a tentar remover Stanley Baldwin. Mas os tempos eram de decisões: os britânicos tinham acreditado, em demasia, que gestos conciliatórios poderiam acalmar Adolf Hitler e, mesmo no centro político de Londres, havia muitos simpatizantes da causa nazi.

Mas a II Guerra Mundial haveria de colocar Churchill no centro do palco: ele percebeu o que estava em causa e impôs-se como um líder guerreiro. Foi o profeta que vislumbrou a ameaça da Alemanha nazi e tornou-se o arquitecto da vitória aliada no futuro. E, com isso, criou um mito que ainda hoje perdura.

O filme de Joe Wright centra-se nessas três primeiras semanas do consulado de Churchill, após ter substituído o desacreditado Neville Chamberlain do n.º10 de Downing Street, e onde se torna evidente que ele não é um homem, nem um político, como os outros. É a liberdade da Grã-Bretanha, mas também do mundo, que está em causa. E ele coloca-se do lado da barricada onde ela se defende. O seu discurso mais célebre diz tudo: "Eu diria a esta Câmara como disse a todos os que vieram integrar este governo: 'Nada tenho para oferecer senão sangue, trabalho, lágrimas e suor'. Temos diante de nós uma provação da espécie mais atroz. Temos diante de nós muitos e demorados meses de luta e sofrimento. Perguntam-me: qual é a nossa política? Posso dizer: é combater, combater no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poderio e toda a força que Deus nos possa conceder; combater contra uma tirania monstruosa, nunca ultrapassada no tenebroso e lastimável catálogo dos crimes humanos. É esta a nossa política. Perguntam-me: qual é o nosso desígnio? Posso responder numa só palavra: é a vitória, a vitória todo o custo, a vitória malgrado todo o terror, a vitória por mais longo e duro que possa ser o caminho. Porque sem vitória não haverá sobrevivência."

Ler este discurso de sete minutos é transportar-nos para a essência da política no que tem de mais nobre. Churchill faz escolhas. E guia uma nação atrás dele.

Era um tempo em que parecia que Churchill estava fora do contexto político. Tinha já 65 anos, e muita da sua carreira fora pautada por erros de julgamento e por falhas políticas. Mas ele, naquele momento, vislumbrou o que estava em jogo. Apesar de não ser fácil: o núcleo duro dos "tories" acreditava que o isolacionismo era a melhor solução política para a Grã-Bretanha. Churchill acreditava no contrário. E, depois de ter derrotado o seu adversário para a liderança dos "tories", Lord Halifax, usou os seus mais conhecidos talentos (o de orador e o de actor) para ocupar o palco e liderar a revolta. E fez isso com paixão. Algo que, na política, é um trunfo importante. Inspirou o heroísmo físico e motivou os cidadãos britânicos a seguir o exemplo de outros.

A hora mais negra da Grã-Bretanha, nesses dias de 1940, tornou-se a "finest hour", como mais tarde a descreveu. A sua retórica e dotes literários criaram uma liturgia de esperança e fé que se adivinham no livro e no filme. Contra a barbárie, pediu o triunfo da civilização. No filme, Gary Oldman (como Churchill) não evita os "clichés" conhecidos: os charutos sempre entre os dedos, o uísque sempre demasiado visível. Mas Oldman cria um Churchill interessante, que ultrapassa o da lenda que conhecemos. Ele é inspirador, corajoso e mesmo marcial, mas também é errático e sentimental. É neste momento que percebemos as palavras da sua mulher Clementine, no início do filme: ele é apenas um homem como os outros. Não o era. Mas tornou-o humano e mortal.

Edward R. Murrow disse que Churchill "mobilizou a língua inglesa e enviou-a para a balha". E talvez tenha sido isso mesmo. "A Hora Mais Negra" gira à volta dos três mais fascinantes discursos de Churchill: o seu primeiro no Parlamento, o que fez na rádio para uma nação assustada e aquele que foi produzido para os deputados após a evacuação de Dunquerque, que parecia antever o pior.

Lendo-os, percebe-se que seria difícil a um político de hoje poder competir com eles. Num mundo onde a televisão e as redes sociais são o ambiente em que os políticos de hoje operam, seria difícil uma retórica como aquela. Mas as suas grandes frases ecoam hoje, como o fizeram ontem, e poderiam ser momentos de poucos segundos que captariam toda a atenção, mesmo dos mais distraídos. Por aqui se pode ver a cultura de Churchill, quando comparada com a incultura que hoje reina no nosso espaço político. Basta comparar um destes seus discursos com as patéticas e desérticas frases de Donald Trump para percebermos a diferença.

Há ainda outra observação que deveremos ter em conta nestes dias de Brexit: Churchill percebeu que o destino da Grã-Bretanha estava ligado ao do continente europeu de que está próximo. Mesmo que depois tenha conseguido seduzir os Estados Unidos para se juntar à luta.

Quando começou a escrever os seus discursos, Churchill não sabia se conseguiria levar a Grã-Bretanha atrás do desafio que lhe propunha. Mas também não disse aos britânicos o que eles esperavam ouvir. Usou os seus dotes inspiracionais para conquistar o Parlamento e os cidadãos. Liderou a opinião pública em vez de seguir o seu sentimento. E isso foi a luz que iluminou o seu momento. Deu à Grã-Bretanha a liderança que necessitava para não sucumbir à hegemonia nazi. E acabou por conduzir o seu país à vitória.





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