Livros O pesadelo das crianças

O pesadelo das crianças

Andrés Barba regressa com um livro muito poderoso sobre a infância e sobre a violência. O que acontece com crianças numa cidade tropical é o reflexo do que acontece em todo o mundo.
Fernando Sobral 26 de agosto de 2018 às 13:00
Andrés Barba
República Luminosa
Elsinore, 167 páginas, 2018


Abril de 1993. Estamos em San Cristóbal, uma cidade encaixada entre a selva e o mar, onde se sente o calor húmido e intenso dos locais tropicais. "República Luminosa" leva-nos até lá através da vida de um homem que ali chegou, 22 anos antes, como jovem funcionário dos Assuntos Sociais. E que assiste depois a muitas alterações, incluindo o chocante caso das 32 crianças que ali perderam a vida.

No fundo, estamos perante um panorama no qual se cruzam a violência e a sobrevivência, os dilemas da infância e a paisagem selvagem, que dá um ar misterioso e fantasmagórico. O perigo ronda, seja nas ruas vazias devido ao calor que transtorna todas as almas, seja no ambiente circundante. Isso reflecte-se nas deliciosas descrições de Andrés Barba e na aparência das personagens que desfilam defronte de nós. O amor cruza-se com o medo, no meio de um ambiente demente e inclemente.

É assim que surge na cidade uma trintena de crianças que se julga terem sido raptadas anos antes e "aquarteladas" com o intuito de serem negociadas. Tal como sucedera antes, com outras. Têm entre nove e 13 anos, e a explicação não convence o narrador. O incómodo do aparecimento das crianças cruza-se também com o aumento de assaltos, que assusta a população local. A cidade exalta-se: "Mas a realidade é persistente e nem mesmo assim deixavam de ser crianças. Como é que podíamos esquecer uma coisa dessas, se era precisamente aí que começava o escândalo? Crianças. E, a dada altura, vimos que roubavam. 'Pareciam tão bonzinhos!', exclamavam algumas pessoas, mas por trás dessa afirmação havia uma ofensa pessoal: 'Pareciam tão bonzinhos, mas enganaram-nos, os pequenos hipócritas.' Eram crianças, sim, mas não como os nossos filhos."

Os 32 miúdos alegres e agressivos tornam-se um problema. O que é perturbador (e fascinante) no livro é que Andrés Barba consegue transmitir este universo violento como se fosse uma fonte de energia incontrolável. É a atmosfera húmida, os miúdos indigentes, o ataque ao supermercado Dakota e as consequências de violência, sangue e caos que se sucedem, que ficam. E os relatos das pessoas que assistiram ao sucedido. Não admira que o narrador partilhe connosco uma visão do apocalipse: "Talvez os mortos nos atraiçoem quando nos abandonam, mas nós também os atraiçoamos para viver."

O estilo do autor é severo, porque não pode deixar de o ser. Há sempre uma tensão no ar, que nos acompanha ao longo das páginas, e que nos atira para os braços de momentos dramáticos. Entre o que é real e o que sonhamos, há uma linha ténue que muitas vezes é difusa.

No fundo, através deste relato, falamos dos milhões de crianças que, em todo o mundo, tentam sobreviver nas ruas à indiferença dos outros e da sociedade. É aí que este livro é também sobre a infância, nestes dias em que a compaixão tende a dissolver-se no meio de valores materialistas e egoístas. Um livro muito poderoso e acutilante.