Livros Reflexões sobre a dor portuguesa

Reflexões sobre a dor portuguesa

Manuel Laranjeira e Miguel de Unamuno discorreram, cada um à sua maneira, sobre a singular forma portuguesa de enfrentar a dor e o destino. Este livro reúne as suas reflexões.
Fernando Sobral 09 de julho de 2016 às 12:30
A decadência nacional sempre foi uma excelente inspiração para o Fado português. Fosse como canção sofrida, fosse como sinal da exasperante anemia daquilo a que temos designado como as elites lusas. O desespero da dívida e do défice é apenas o resultado de um desencontro com o destino de que os portugueses sempre se queixaram. E que, por isso, os levou a sulcar os mares em busca de uma ilha de amores perfeitos ou, então, mais realisticamente, a emigrar, construindo o seu Portugal nas sete partidas do mundo.

O pessimismo nacional instalou-se. E compreende-se porquê: lendo-se o que escrevia Eça, Fialho de Almeida ou Antero de Quental há mais de um século e olhando para o país de hoje, que se vê? As mesmas inépcias, as mesmas dúvidas, as mesmas cumplicidades, a mesma falta de futuro credível. Nestes dias de sombras, ler os dois textos que se conjugam nesta excelente edição pode servir para percebermos melhor o que corrói Portugal. Manuel Laranjeira e Miguel de Unamuno, separados por uma fronteira, estavam juntos pela amizade. Iberista, Unamuno tinha outras ligações fortes a nomes grandes da cultura portuguesa, de Guerra Junqueiro a António Ferro, de Vitorino Nemésio a António Sérgio. Conhecia bem os labirintos nebulosos onde a alma portuguesa se costumava perder.

Unamuno descobriu que os portugueses tinham uma vocação suicida. Compreende-se a fixação: Antero de Quental, sempre atormentado, suicidou-se. Camilo Castelo Branco colocou uma bala na cabeça. Manuel Laranjeira, que escreveu este acutilante "Pessimismo Nacional", fez o mesmo. Nessas páginas, Portugal dói: "Eu sei que, em virtude dum resíduo ancestral do nosso carácter heróico, ainda há quem espere que isto se salve pela intervenção sobrenatural e desconhecida dum acto messiânico. Não nos iludamos. Ou nos salvamos nós, ou ninguém nos salva." Laranjeira sentia que era impossível combater este vírus que se instalara na sociedade portuguesa. Ou melhor, tal só seria possível com uma verdadeira revolução de usos, costumes, lógicas de actuar. Nada disto sendo possível, que solução havia? Nenhuma. Apenas a desistência.

Unamuno percebeu, até no universo de um dos grandes autores portugueses, Teixeira de Pascoaes, esse mundo doloroso: "E esta dor é a que une o passado ao futuro." Num outro escrito dedicado a Portugal, Unamuno chegou a escrever: "O povo português tem, como o galego, fama de ser um povo sofrido e resignado, que tudo suporta sem protestar, a não ser passivamente. E, no entanto, há que ter cuidado com povos como esses. A ira mais terrível é a dos mansos." Daí chegamos, claro, a "Um povo suicida". É um texto contundente que nos faz olhar ao espelho: "Portugal é um povo triste, e é-o até quando sorri. A sua literatura, incluindo a sua literatura cómica e jocosa, é uma literatura triste. Portugal é um povo de suicidas, talvez um povo suicida. A vida não tem para ele sentido transcendente. Desejam talvez viver, sim, mas para quê? Mais vale não viver."

Olhando à volta, vendo o fim dos seus amigos portugueses, percebe-se Unamuno. No livro, claro, recupera uma carta de Manuel Laranjeira, que lhe escreve: "Em Portugal, a única crença ainda digna de respeito é a crença - na morte libertadora." Unamuno percorre a alma portuguesa e se cruzarmos as suas palavras às de Manuel Laranjeira temos um quadro que lembra quase "O Grito" de Munch. É um som lancinante sobre uma dor sem presente, passado ou futuro. É uma dor que acompanha os portugueses. E esse, talvez, seja o seu destino.



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