Música As raízes dos Madredeus

As raízes dos Madredeus

Com o álbum “Capricho Sentimental”, cumpre-se uma nova etapa no trajecto dos Madredeus, agora com a voz cristalina de Beatriz Nunes, no meio da melancolia musical que é servida pelo grupo.
As raízes dos Madredeus
Fernando Sobral 30 de outubro de 2015 às 17:00
Os Madredeus vêm de um mundo muito antigo, no antigo convento da Madre Deus, numa época em que Portugal parecia procurar de novo a sua identidade. Depois dos frenéticos anos pós-revolução e quando o país deixava de olhar para o Tejo em busca de outros mundos e se voltava, apressadamente, para a Europa que prometia o futuro.

Os Madredeus surgem no meio desta inquietude tipicamente portuguesa: enfrentam a modernidade mas não esquecem aquilo que são as raízes de Portugal. E todos os seus discos, mesmo com as alterações na formação do grupo, nunca deixaram de percorrer esse tronco comum que nos foi dando folhas viçosas ao longo dos anos. Apesar da economia de meios musicais que sempre foi timbre do grupo. Julgou-se, num momento, que, com a saída de Teresa Salgueiro, a luz onde se centrava toda a mensagem quase mítica do grupo que cantava em português, a estrela desapareceria nos céus.

Não aconteceu isso: Beatriz Nunes, a nova vocalista, não é uma sucessora de Teresa Salgueiro: é uma nova alma colocada, com a sua voz cristalina, no meio da melancolia musical que é servida pelo grupo. No fundo cumpre-se, com "Capricho Sentimental", uma nova etapa no trajecto dos Madredeus. Em 1994, Pedro Ayres Magalhães escreveu uma carta-aberta incluída no programa dos concertos japoneses desse ano. Dizia, por exemplo : "As novas composições não são 'sobre Portugal', como já muitas das antigas foram, mas 'de Portugal': ou seja, passámos de uma fase em que nos inspirámos na paisagem, na poesia, e em sons da nossa música popular, para uma outra em que a nossa fonte de inspiração foi o próprio caminho traçado pelo grupo nos seus primeiros sete anos de existência".

Esse caminho de renovação está neste disco, como a festa anunciada num dos mais tentadores temas do disco, "Na Lusitânia". Nele, Beatriz Nunes canta: "Na Lusitânia há fogo/E o fumo anda no ar/Acendem-se as fogueiras/E os Homens estão cantar". A harmonia é o horizonte que se busca por aqui. Aquele sítio inalcançável que fica para lá do que os nossos olhos alcançam. Depois do mar. Este disco também mostra que a música dos Madredeus sobrevive ao tempo, evolui a partir de traves-mestras nunca abandonadas. Percorrendo os 14 temas deste novo disco, percebe-se que o fogo interior, que esteve na origem do grupo, continua vivo. Encontramo-lo nos acordes de "Existimos no Céu", "Sei Lá" ou "A Espiral". Aqui e ali descortinam-se memórias de antigas canções de José Afonso, mas eles diluem-se no universo musical da guitarra clássica (de Ayres Magalhães) e das teclas (de Carlos Maria Trindade), a que se juntam a harpa de Ana Isabel Dias e o violoncelo de Luís Clode, felizes valores acrescentados para o mundo harmónico do grupo. Beatriz Nunes canta aqui a felicidade e a dor, a eternidade e a solidão, o amor e o universo que vive independentemente de nós. "Capricho Sentimental" corre livre para a foz mais bela da música portuguesa. Continua a saga dos Madredeus. Aquela que começou quase há três décadas numa Lisboa que assistia a uma mudança sem fim. E que procurava não perder o seu passado. As raízes de que se faz um país, uma língua, uma poesia e a música que lhe dá corpo e alma.




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