Música White Album: O recorde de Ringo

White Album: O recorde de Ringo

A lista anual dos recordes do Guinness distinguiu velhos conhecidos: os The Beatles destruíram mais um máximo, com uma cópia de "White Album", detida por Ringo Starr, a tornar-se o disco de vinil mais caro de sempre.
White Album: O recorde de Ringo
Reuters
Tiago Freire 16 de setembro de 2016 às 17:00
A venda de discos de vinil tem vindo a subir por todo o mundo, mas há um disco que se destaca pelo seu preço. O Guinness acaba de atribuir o título de disco mais caro de sempre a uma cópia de "White Album", dos The Beatles, vendida por Ringo Starr em Dezembro de 2015, por um valor a rondar os 625 mil euros, ao câmbio actual face à libra. A cópia em causa está identificada com o número de série 00001, o que não quer dizer necessariamente que tenha sido a primeira a ser produzida, uma vez que, em 1968, era costume fábricas diferentes numerarem as primeiras edições dos discos, ou seja, pode haver no mundo mais cópias número um do "White Album". Mas mais nenhuma pertencia ao baterista de uma das bandas mais marcantes de todos os tempos.

Aquando da edição do álbum duplo, que surgiu sem título e rapidamente foi apelidado de "White Album" devido à cor da sua capa, os quatro membros da banda receberam cópias numeradas. No caso de Ringo Starr, a cópia esteve guardada num cofre durante os últimos 35 anos, encontrando-se em óptimo estado de conservação. A identidade do comprador não foi revelada, com as receitas a reverterem para a Lotus Foundation, dirigida por Ringo e a sua mulher, tendo como objectivo apoiar vítimas de violência doméstica, sem-abrigo ou animais necessitados, entre outros.

O recorde agora destronado oficialmente pertencia a um disco com as primeiras gravações de Elvis Presley, comprado pelo também músico Jack White, por 266 mil euros, ao câmbio actual.

Aliás, em termos de discos e do seu valor, há estimativas para todos os gostos. Segundo a revista Record Collector, o disco mais caro até é outro, embora com características muito especiais: "Once upon a time in Shaolin", dos norte-americanos Wu-Tang Clan, foi comprado por um gestor de "hedge-funds" por perto de dois milhões de dólares. No entanto, tratava-se de uma cópia única, produzida pela banda já com o objectivo de vender o disco único a um comprador endinheirado.



O álbum branco de Ringo Starr é, assim, o disco mais caro entre aqueles que foram comercialmente editados. E ajuda os Beatles a cimentarem o seu estatuto de banda mais valiosa, contando com várias entradas no top dos discos mais cobiçados da revista Record Collector. O mais valioso, embora não esteja à venda, é a única cópia existente de um single dos Quarrymen, com um cover de um tema de Buddy Holly e "In spite of all the danger", assinado por uns tais de McCartney e Harrison. Esta gravação dos Quarrymen, banda formada por um muito jovem John Lennon e que em 1958 contou com outros dois futuros Beatles, pertence a Paul McCartney e só se pode especular acerca do seu valor. Para a revista britânica, a coisa andará à volta das 100 mil libras, enquanto uma reedição privada de 1981, de 25 cópias, valia à volta de 10 mil libras.

No top dos 20 discos mais valiosos para a Record Collector surgem ainda o "White Album" (com a numeração original da primeira edição o mais baixa possível); a primeira edição de "Please, Please Me", dos Beatles, de 1963; a segunda edição do mesmo disco de estreia da banda de Liverpool; e uma das 250 cópias de um single de teste de "Love me do", com um erro no nome de Paul McCartney.


O princípio do fim dos Beatles

O álbum branco é a casa de temas como "Helter Skelter", "While my guitar gently weeps" ou "Ob-La-Di, Ob-La-Da", mas é visto como o princípio do fim da banda. Luís Pinheiro de Almeida, jornalista e grande especialista em tudo o que respeita aos The Beatles, concorda com essa visão. "Essa desagregação começou aí, com eles a gravarem muita coisa separadamente e os problemas pessoais", lembra.

Gravado depois de uma viagem à Índia que teve impactos diferentes nos quatro membros do grupo, as tensões começaram a intensificar-se. É dessa altura a entrada em cena de Yoko Ono, nomeadamente a sua presença em estúdio quando os The Beatles estavam a gravar. "Foi um foco de tensão, mas a culpa não é só da Yoko, até porque as mulheres de alguns dos outros também por lá passavam", lembra o jornalista. A história marcou o álbum branco – por oposição à explosão de cor do seu antecessor, "Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band" – como aquele em que os músicos se isolaram uns dos outros e procuraram impressionar individualmente. "Nota-se que é uma soma das partes, mas as partes são extraordinárias", diz Luís Pinheiro de Almeida, salientando que "a genialidade deles se sobrepôs ao resto".


A dupla Lennon/McCartney começava a desfazer-se, com os músicos a criticarem abertamente os temas um do outro: Lennon queria fazer política e provocação gratuita, defendia o baixista, que por sua vez era acusado de só querer fazer músicas bonitas para donas de casa. No meio disto, Harrison tinha crescido como compositor, mas continuava sem muito espaço, enquanto Ringo acabou mesmo por, brevemente, abandonar os The Beatles durante a gravação do disco, descontente com o que considerava ser a sua subalternização face aos restantes (algo que, de certa forma, sempre tinha acontecido).

Apesar dos problemas, o disco foi mais um sucesso de vendas e também em termos artísticos, trazendo várias explorações tecnológicas em estúdio. "É mais um marco na carreira dos Beatles, é mais um avanço, com eles cada disco marca um marco", afirma Luís Pinheiro de Almeida.

Se as sementes da discórdia foram então lançadas, os The Beatles "ainda fizeram mais alguns grandes discos até à despedida, com o ‘Let it Be’, que é óptimo", em 1970, defende o jornalista. Luís Pinheiro de Almeida – que se recusa a nomear um Beatle preferido e que coloca "Rubber Soul", de 1965, acima dos restantes álbuns da banda – não quer revelar o disco pelo qual mais pagou enquanto coleccionador: "Já esqueci. Se tentar, se calhar lembro-me, mas mais vale esquecer", conclui. 


Novo documentário e disco ao vivo Os The Beatles acabaram há décadas, só metade da banda está viva mas, na verdade, o seu legado nunca abandonou a consciência colectiva mundial. Neste mês de Setembro, há novos motivos para regressarmos aos quatro de Liverpool. Primeiro, o documentário "Eight days a week", de Ron Howard, que cobre o período das grandes digressões dos Beatles em concerto, com natural destaque para a conquista de uma América que abraçou a Beatlemania de alma e coração. Com algumas imagens inéditas, mostra os quatro rapazes no centro do turbilhão que iam lançando à sua passagem, e que só em parte compreendiam.

Para coincidir com o lançamento do documentário há uma nova edição de "The Beatles: Live at the Hollywood Bowl", disco ao vivo inicialmente lançado em 1977, já depois do fim do grupo. Esta nova edição conta com música inédita e, claro está, com um tratamento sonoro de luxo dos masters originais, permitindo ouvir os gritos dos fãs sem deixar de ouvir a banda, na sua versão 1964/65.