Os governadores do Banco de Portugal pós-25 de abril

Álvaro Santos Pereira é o mais recente governador do BdP. Sucede a Mário Centeno e será responsável por liderar a supervisão bancária nacional e intervir no BCE em decisões como taxas de juro. Nesta cronologia, olhamos para os últimos governadores e o que marcou os seus mandatos.
Texto: João Duarte Fernandes | Imagens: Medialivre e Lusa
Álvaro Santos Pereira é o mais recente governador do BdP. Sucede a Mário Centeno e será responsável por liderar a supervisão bancária nacional e intervir no BCE em decisões como taxas de juro. Nesta cronologia, olhamos para os últimos governadores e o que marcou os seus mandatos.
Texto: João Duarte Fernandes | Imagens: Medialivre e Lusa

Década 70

1974-1975

Manuel Jacinto Nunes

Manuel Jacinto Nunes

Reconhecido economista, foi o primeiro governador do Banco de Portugal pós-25 de abril. Foi nomeado para o cargo logo a seguir à Revolução dos Cravos, onde se manteve até 1975. Pouco depois, ocupou a pasta das Finanças e do Plano no IV Governo Constitucional chefiado por Carlos Mota Pinto. Voltou a liderar o supervisor da banca entre 1980 e 1985.

1975-1980

José da Silva Lopes

José da Silva Lopes

Entre os dois mandatos não consecutivos de Jacinto Nunes, Silva Lopes ocupou o cargo de governador do BdP. À semelhança do seu antecessor – que também viria a suceder-lhe –, fez parte dos primeiros quatro Executivos do pós-25 de abril, nos quais ocupou por várias vezes o cargo de ministro das Finanças. Ainda antes disso, integrou a equipa responsável pelo processo de adesão de Portugal à Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA, na sigla em inglês). Em 1969 tornou-se membro do conselho de administração da CGD e, em 1972, foi chefe-adjunto das negociações do Acordo de Comércio Livre com a Comunidade Económica Europeia (CEE). Após a sua saída do supervisor da banca, onde foi governador de 1975 a 1980, esteve no FMI e no Banco Mundial. Presidiu ainda ao conselho de administração do Montepio Geral e foi presidente do Conselho Económico e Social.

Década 80

1980-1985

Manuel Jacinto Nunes

Manuel Jacinto Nunes

Jacinto Nunes serviu um segundo mandato à frente do BdP entre 1980 e 1985. O seu mandato ficou marcado pela segunda intervenção do FMI no país, em 1983, devido à degradação da conjuntura externa, mas também às políticas eleitoralistas então seguidas na altura. Entre os dois mandatos que serviu à frente do BdP, teve cargos de destaque na Caixa Geral de Depósitos (CGD), onde foi administrador-geral e presidente do conselho de administração do banco público.

1985-1986

Vítor Manuel Ribeiro Constâncio

Vítor Manuel Ribeiro Constâncio

Economista, político e académico, foi dos que esteve durante mais tempo à frente do BdP. Antes de liderar esta instituição, foi ministro das Finanças e do Plano do II Governo Constitucional e vice-governador do regulador da banca. Serviu um primeiro mandato enquanto governador, entre 1985 e 1986, e um segundo entre 2000 e 2010. No seu primeiro mandato, deixou o BdP depois de apenas um ano no cargo, após ter chegado a ser secretário-geral do Partido Socialista (PS). Foi candidato derrotado às legislativas de 1987, vencidas por Cavaco Silva. No setor privado, foi administrador do conselho de administração do BPI e, novamente no setor público, entre 1998 e 2000, vogal e administrador não-executivo da EDP.

1986-1992

José Alberto Tavares Moreira

José Alberto Tavares Moreira

Trabalhou como economista e, depois, como diretor do conselho de gestão do Banco Pinto e Sotto Mayor, entre 1973 e 1976. Antes de assumir o cargo de governador do BdP - função que exerceu entre 1986 e 1992 -, foi administrador da CGD. Já depois do fim do seu mandato, manteve-se como membro do conselho consultivo do BdP até se ter demitido de todos os cargos que ocupava no supervisor na sequência de um desentendimento com Vítor Constâncio. Foi presidente da Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo e foi à frente de um banco de investimento lançado por este grupo, o Central Banco de Investimento, que viria a ser alvo de um processo de contraordenação num caso que envolveu a ocultação de verbas em sociedades offshore. Este processo, datado de 2002, inibiu Tavares Moreira de exercer cargos na banca durante sete anos.

Década 90

1992-1994

Luís Miguel Couceiro Pizarro Beleza

Luís Miguel Couceiro Pizarro Beleza

Concluiu o doutoramento em economia no MIT, nos Estados Unidos (EUA), em 1979. Aqui estudou ao lado de importantes nomes, como Ben Bernanke, ex-presidente da Reserva Federal norte-americana, e Lucas Papademos, ex-vice-presidente do BCE. Antes de passar a governador do BdP em 1992, trabalhou no supervisor da banca nacional enquanto técnico. Antes, foi ministro das Finanças do XI Governo Constitucional, período em que impulsionou a criação da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), além de ter estado envolvido no processo de adesão de Portugal à União Económica e Monetária. Enquanto governador do Banco de Portugal, geriu a desvalorização do escudo durante as perturbações cambiais de 1992 a 1993. Um ano depois, demitiu-se do cargo de governador por conflito com o então ministro das Finanças, Jorge Braga de Macedo. Falecido em 2017, era irmão de Leonor Beleza, atual presidente da Fundação Champalimaud.

1994-2000

António José Fernandes de Sousa

António José Fernandes de Sousa

Fernandes de Sousa foi o último governador do BdP antes da entrada do euro em Portugal e foi responsável por preparar o processo de adesão do país à moeda única, nomeadamente, no que disse respeito ao controlo da inflação. Ocupou o cargo de secretário de Estado em vários governos e diferentes pastas e, ainda antes de ter liderado o supervisor, foi administrador do Banco Totta & Açores. Posteriormente, de 2000 a 2004, foi presidente do conselho de administração da CGD.

Década 2000

2000-2010

Vítor Manuel Ribeiro Constâncio

Vítor Manuel Ribeiro Constâncio

Durante o seu segundo mandato, passou por várias polémicas enquanto governador, nomeadamente, no papel que o BdP assumiu no que ficou conhecido como “ataque ao BCP” e em vários créditos que geraram perdas de milhões à CGD. Mais tarde, foi vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) de 2010 a 2018, onde serviu ao lado de Jean-Claude Trichet e de Mario Draghi.

Década 2010

2010-2020

Carlos da Silva Costa

Carlos da Silva Costa

Nomeado por José Sócrates em 2010, Carlos Costa foi o 17.º governador do BdP, tendo servido dois mandatos consecutivos, depois de ter sido reconduzido por Pedro Passos Coelho em 2015. Atravessou, enquanto líder do supervisor da banca, uma das épocas mais difíceis para a economia nacional, marcada pelo período de austeridade que se viveu com a intervenção da troika. Os dez anos de mandato de Carlos Costa à frente do supervisor da banca ficaram ainda marcados pela queda do BES e do Banif, e por severas críticas de vários quadrantes políticos, mas também sobre a concessão de créditos problemáticos quando era administrador da CGD. Um processo ligado à sua intervenção no processo Eurobic/BPI, chegou a opor em tribunal o antigo governador e o ex-primeiro-ministro António Costa. Este ano, chegaram a acordo e deixaram o processo cair.   

Década 2020

2020-2025

Mário Centeno

Mário Centeno

Não viu o seu mandato à frente do BdP renovado e deixa o cargo que exerceu desde 2020, tendo agora o desafio de se articular com o sucessor, Álvaro Santos Pereira. As questões sobre a independência que foram sendo colocadas a Centeno após o salto direto das Finanças para o BdP – e incluindo o episódio em que terá aceitado um pedido de António Costa para ser primeiro-ministro, após o presidente do Conselho Europeu ter apresentado a sua demissão - acabariam, nos seus últimos dois anos de mandato, por pesar no funcionamento do supervisor nacional. Antes de ser nomeado por António Costa para liderar o supervisor nacional em 2020, foi presidente do Eurogrupo. O “Ronaldo das Finanças” - alcunha usada na altura em que Portugal deixou o procedimento por défices excessivos – tem agora lugar garantido como consultor do supervisor nacional, havendo quem ainda questione se voltará à vida política. É o primeiro governador nos últimos 25 anos a não ser reconduzido.

2025-2030

Álvaro Santos Pereira

Álvaro Santos Pereira

Nomeado no final de julho pelo Governo de Luís Montenegro para liderar o BdP, Santos Pereira, de 53 anos, foi professor universitário no Canadá e no Reino Unido, e foi escolhido por Pedro Passos Coelho para ministro da Economia, em 2011. Assumindo-se como independente e reformista, sempre quis fazer as coisas de forma diferente e até chegou a pedir aos jornalistas que deixassem para trás o formalismo e o tratassem, simplesmente, por "Álvaro". Teve um percurso atribulado à frente da pasta da Economia - função que exerceu por apenas dois anos - e em 2014, foi nomeado diretor de estudos nacionais do Departamento de Economia da OCDE. Em junho do ano passado, foi promovido a economista-chefe da organização sediada em Paris. Depois de ontem ter sido ouvido no parlamento - passo obrigatório para tomar posse como governador do BdP -, liderará a supervisão bancária nacional e intervirá no BCE em decisões como taxas de juro.