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Bruegel: Saída da troika não será o fim dos problemas para Portugal

“Think tank” belga alerta que a economia vai continuar “frágil” e que o PIB terá que crescer pelo menos 2,5% para a assegurar a sustentabilidade da dívida, com uma taxa de juro de 6%. O Brugel lança críticas à troika por ter sido optimista na execução do programa de ajustamento.

A “saída do programa [de ajustamento da troika] não vai ser o fim dos problemas para Portugal”. A frase é do “think tank” belga Bruegel, que publica esta quinta-feira um relatório sobre os programas de resgate dos três países do euro (Grécia, Irlanda e Portugal), onde não poupa críticas à troika.

 

O Bruegel lembra que em 2014 Portugal deve ser capaz de se financiar sozinho nos mercados internacionais, mas “a economia vai continuar frágil”. Uma situação que de acordo com o “think thank” se deve aos problemas estruturais da economia portuguesa antes da actual crise.

 

Portugal enfrentava uma situação de baixo crescimento, baixa produtividade, desemprego elevado e défices orçamentais e de conta corrente altos. “A boa notícia é que os défices orçamentais e de conta corrente vão ser reduzidos de forma substancial. A má notícia é que o desemprego e a dívida pública serão consideravelmente mais elevados”, alerta o Bruegel, considerando que “a sustentabilidade social e da dívida será fundamental para depois de Portugal sair do programa” da troika.

 

O último ponto da análise do Bruegel diz respeito ao pós-troika e à capacidade de Portugal sobreviver sem financiamento oficial. Os autores consideram que Portugal poderia beneficiar de um programa cautelar, com compra de dívida por parte do Mecanismo de Estabilidade Europeia no mercado primário e do BCE no secundário. "Portugal está no bom caminho para sair do programa dentro do calendário planeado", o que seria "um sucesso para Portugal e para a troika".

Com as taxas de juro de longo prazo em redor de 6%, Portugal tem que conseguir um crescimento nominal do PIB de pelo menos 4% (que implica um crescimento real do PIB de pelo menos 2,5%) e um excedente primário para assegurar a sustentabilidade da dívida. 
Think tank” belga Bruegel

 

Para o Bruegel, a chave de Portugal no pós-troika vai ser o crescimento. “E aqui o programa da troika identificou correctamente a necessidade de Portugal alterar radicalmente o modelo pré-crise”, diz o “think thank”, deixando contudo números que não se afiguram fáceis de alcançar: “Com as taxas de juro de longo prazo em redor de 6%, Portugal tem que conseguir um crescimento nominal do PIB de pelo menos 4% (que implica um crescimento real do PIB de pelo menos 2,5%) e um excedente primário para assegurar a sustentabilidade da dívida”.

 

Troika demasiado optimista

 

"Apesar de ter identificado muito claramente as medidas que Portugal precisa de adoptar para estimular o crescimento e reduzir os desequilíbrios, faltou provavelmente ao programa compreender a dificuldade de implementar estas medidas numa união monetária que atravessa uma crise financeira e de dívida pública", refere o relatório, acrescentando que “como resultado, o programa era, de certa forma, excessivamente optimista."

 

Segundo os autores, Jean Pisani Ferry, André Sapir e Guntram Wolff, este optimismo é a principal fragilidade do desenho do programa da troika. Um problema que não é exclusivo de Portugal. O relatório chega a conclusões semelhantes para o programa irlandês e grego: em todos eles a quebra da procura interna foi maior do que se esperava e o desemprego cresceu muito mais. No caso português, basta comparar as projecções iniciais com as actuais: a economia já deveria crescer 1,2% este ano, ter o desemprego a cair para 12% e um défice de 3%. Em vez disso, a recessão será -1,9%, o desemprego tocará nos 19% e o défice, se atingir a nova meta, ficará nos 5,5%.

Apesar de ter identificado muito claramente as medidas que Portugal precisa de adoptar para estimular o crescimento e reduzir os desequilíbrios, faltou provavelmente ao programa compreender a dificuldade de implementar estas medidas numa união monetária que atravessa uma crise financeira e de dívida pública. 
Think tank” belga Bruegel

 

Os autores consideram que o ajustamento português tem duas histórias muito diferentes: o plano interno e o externo. Por um lado, como já foi referido, a recessão e o desemprego tiveram uma evolução muito mais negativa do que se antecipava. Porquê? Três factores principais: austeridade orçamental e desalavancagem do sector privado; crescimento mais lento da produtividade e da transição do sector não transaccionável para o transaccionável; e o enfraquecimento da procura na Zona Euro, especialmente Espanha, o que prejudicou as exportações.

 

"O principal problema, até agora, é que o programa não foi bem sucedido a dinamizar o investimento. Pelo contrário, o comportamento do investimento tem sido extremamente desapontante", sublinha o estudo, referindo uma diferença de 19 pontos percentuais na queda acumulada do investimento em 2011-2013. "O comportamento do investimento em Portugal é muito pior que na Irlanda e apenas ligeiramente melhor que na Grécia."

 

Ainda assim, o relatório reconhece que o ajustamento externo tem registado uma tendência contrária, com um ajustamento mais rápido do que se esperava. Apesar de os autores admitirem que os progressos nessa frente estão relacionados com a contracção do mercado interno, acreditam que a recuperação do consumo não irá ter um impacto negativo na vertente externa.

 

Na comparação de indicadores entre a média 2004-2008 e as projecções actuais para 2014, verifica-se que, apesar da redução do défice o crescimento do PIB será menor (1,2% vs 0,8%), o desemprego muito mais alto (8,4% vs 16,9%), bem como a dívida (70% vs 124,7%). Com taxas de juro de longo prazo perto dos 6%, Portugal precisa de crescer 2,5% ao ano com excedentes primários, para assegurar a sustentabilidade da sua dívida, conclui o estudo. 

 

Previsões iniciais da troika versus realidade
As previsões iniciais da troika contam uma história diferente da realidade observada nos últimos dois anos. Uma recessão muito mais profunda do que se esperava e uma taxa de desemprego explosiva acabaram por se traduzir em mais dificuldades para cumprir as metas de défice. A análise do Bruegel conclui que a troika foi optimista nas suas premissas iniciais, contando com uma maior facilidade no ajustamento da economia portuguesa.
 

 

 

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