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Cavaco recusa ser "actor político" e apela ao consenso no pós-troika

Presidente volta a defender os compromissos com a troika e consensos futuros, num discurso em que diz ser "errado" concluir que a entrada na CEE destruiu a agricultura.

Paulo Duarte
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Cavaco Silva rejeitou esta segunda-feira o papel de "actor político" no "jogo entre maiorias e oposições", ao mesmo tempo que apelou ao cumprimento dos compromissos assumidos com a troika e a um "consenso" entre partidos que sustente futuras perspectivas de crescimento. Dedicando mais de metade do discurso do 10 de Junho à agricultura, Cavaco Silva refutou uma das principais críticas que lhe é dirigida enquanto ex-primeiro-ministro, ao considerar "objectivamente errada" a ideia que a entrada na CEE "destruiu" o mundo rural.

Depois de ter sido acusado pela oposição de apoiar o Governo no seu discurso do 25 de Abril, Cavaco Silva defendeu que não deve alimentar conflitos partidários. "Sempre discordei (...) daqueles que têm uma visão do Presidente da República como um actor político que participa e se envolve no jogo entre maiorias e oposições" na busca de "protagonismo pessoal", afirmou, em Elvas.

Numa altura em que os compromissos para a redução estrutural da despesa colocam em cima da mesa acentuados cortes na despesa com salários e pensões, o Presidente da República deixou cair algumas das críticas que fez no 25 de Abril ao diagnóstico da troika e defendeu que os compromissos são para cumprir. "Portugal é uma República de bem que honra a palavra dada", justificou.

Numa cerimónia que voltou a ficar marcada pelos protestos de populares – que gritaram "demissão" a Cavaco Silva e a Pedro Passos Coelho – o Presidente da República voltou a sublinhar a importância do consenso entre partidos políticos para preparar o período pós-troika. "Independentemente de quem seja Governo, os desafios serão tão grandes que temos que começar, desde já, a antecipá-los ", de, salientando que as perspectivas de crescimento da economia e de emprego dependerão "criticamente" do consenso social que "às forças políticas compete estabelecer".

"Eu reconheço-me nas palavras que falam da necessidade de haver um compromisso na sociedade portuguesa", reagiu o líder do PS, António José Seguro. "Esse compromisso na sociedade portuguesa existe, é o compromisso da mudança", disse o líder do PS. Pedro Passos Coelho não comentou o discurso.

No apelo ao "consenso", Cavaco Silva esteve em sintonia com Silva Peneda, presidente da comissão organizadora das comemorações. O líder do Conselho Económico e Social foi, contudo, mais crítico em relação aos problemas sociais. Com o nível de desemprego que se regista, "começa a pairar uma séria ameaça sobre as formas de convivência que sustentam uma comunidade organizada", alertou.

Recusando contribuir "para o pessimismo e o desânimo", o Presidente da República dedicou mais de metade do seu discurso ao sector da agricultura. Apresentando uma série de indicadores que tentaram contrariar a ideia "errada" de que a adesão à CEE "implicou a destruição do mundo rural", o Presidente da República sublinhou o potencial que este sector, juntamente com a preservação do património (que passa pela reabilitação urbana) poderão ter na recuperação da economia.

Dados do Instituto Nacional de Estatística revelam que o sector primário (agricultura, silvicultura e pescas) tinha em 2012 um peso de 1,9% no PIB, valor que compara com os 4,9% registados em 1995. Esta tendência de decréscimo não é inédita na Europa.

António Filipe, do PCP, considerou que os problemas que preocupam os portugueses "não tiveram eco" no discurso do Presidente da República, enquanto Cecília Meireles, do CDS-PP e Teresa Leal Coelho, vice-presidente do PSD, elogiaram as palavras de Cavaco Silva.

 
Como evoluiu o discurso de Cavaco Silva entre o 25 de Abril e o 10 de Junho

Troika

25 de Abril

"Alguns dos pressupostos do programa não se revelaram ajustados à evolução da realidade, o que suscita a interrogação sobre se a troika não os deveria ter tido em conta mais cedo."

 

10 de Junho

"Temos que cumprir os compromissos que assumimos, pois Portugal é uma república de bem, que honra a palavra dada."

 

Pós-troika

25 de Abril

"Portugal tem que preparar-se para o final do Programa de Assistência, o que irá ocorrer já no próximo ano. (...) Sejam quais forem os resultados das eleições, o futuro de Portugal implica uma estratégia de médio prazo."

 

10 de Junho

"Desenganem-se os que pensam que o pós-troika é longínquo. Pelo contrário, o futuro avizinha--se e, independentemente de quem seja governo, os desafios serão tão grandes temos que começar, desde já, a antecipá-los e a prepararmo-nos."

 

Apelo ao consenso

25 de Abril

"É essencial alcançar um consenso político alargado que garanta que (...), quaisquer que sejam os partidos que se encontram no Governo, o País, depois de encerrado o actual ciclo do programa de ajustamento, adoptará políticas compatíveis com as regras fixadas no Tratado Orçamental."

 

10 de Junho

"As perspectivas de crescimento da economia e de criação de emprego no período "pós-troika" dependerão criticamente do consenso social (...) e do compromisso quanto às linhas de rumo do país, num horizonte temporal de médio prazo, que compete às forças políticas."

 

Crescimento e Emprego

25 de Abril

"O combate ao desemprego deve ser uma prioridade da acção governativa."

 

10 de Junho

"Devemos fazer uma aposta inequívoca no crescimento da economia, com vista a combater o desemprego e a alcançar mais justiça social."

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