Ajuda Externa Não são os sapatos elegantes e a austeridade que vão salvar Portugal

Não são os sapatos elegantes e a austeridade que vão salvar Portugal

A trajectória de Portugal rumo a uma maior recessão é uma prova não adulterada de que a insistência da Zona Euro na austeridade não está a conduzir à recuperação, diz Megan Greene, colunista da Bloomberg e conselheira de vários governos.
Negócios 08 de março de 2013 às 19:22

Qualquer pessoa que ainda precise de provas de que a austeridade não está a solucionar a crise da dívida na Zona Euro deve visitar Portugal. É assim que começa a análise de Megan Greene, colunista da Bloomberg e economista chefe da Maverick Intelligence.

 

A economista disserta, neste texto de opinião, sobre a manifestação do dia 2 de Março em Portugal, dizendo que a única surpresa é o facto de as centenas de milhares de portugueses que tomaram as ruas do país não o terem feito mais cedo. Isto sem contar com a primeira grande demonstração de descontentamento popular, a 15 de Setembro passado, no âmbito do movimento “Que se lixe a troika”.

 

“Portugal é o mais claro exemplo da Zona Euro de como a austeridade está a matar o doente, com os efeitos maléficos da contraproducente contenção orçamental a passarem diante dos nossos olhos”, prossegue Megan Greene, que até 2012 chefiou o departamento de análise económica europeia na Roubini Global Economics.

Portugal é o mais claro exemplo da Zona Euro de como a austeridade está a matar o doente. 
Megan Greene

 

“Raramente ouvimos falar dos problemas económicos de Portugal. Com uma população de 10 milhões de pessoas, o país é muito mais pequeno do que Espanha ou Itália, a sua dívida pública é menor do que a da Grécia e o endividamento privado é inferior ao da Irlanda. Além disso, o governo tem feito o que pedem os seus credores internacionais, e o povo tem – pelo menos até agora – aceite calmamente os remédios”.

 

Mas, diz Megan, “ao contrário da Grécia, o contínuo mergulho de Portugal na recessão não pode ser atribuído à especulação sobre a sua potencial saída da Zona Euro (alguém já ouviu falar no Porxit? [alusão ao Grexit])”. “Além disso, a ausência de crescimento no País não se deve à não implementação do programa que os credores estabeleceram para Portugal regressar à vida do crescimento sustentável”. Assim sendo, “a trajectória de Portugal rumo a uma maior recessão é uma prova não adulterada de que a insistência da Zona Euro na austeridade não está a conduzir à recuperação”, frisa a economista.

 

Os factores positivos

 

Megan Greene escreve que Portugal pode reivindicar algum êxito desde que ficou abrangido pelo programa de resgate internacional, em Maio de 2011. E dá como exemplo o facto de o país, em matéria orçamental, estar em vias de conseguir um saldo primário em finais deste ano, além de em Janeiro o governo ter “reconquistado suficiente confiança dos investidores para reentrar no mercado da dívida de médio prazo, pela primeira vez em dois anos”. 

 

E refere também os ajustamentos económicos realizados por Portugal como factores positivos. “Durante décadas, o país teve um sector público ‘gordo’. Contudo, desde que aceitou o programa de resgate, já privatizou a EDP e a REN, bem como a ANA, o que contrasta fortemente com a Grécia, que apenas concluiu algumas privatizações desde o início do seu ‘bailout’”. A economista recorda ainda que Portugal também conseguiu transitar de um modelo de procura interna para um modelo de crescimento mais orientado para as exportações.

 

No entanto, “apesar destes sinais positivos, Portugal continua esmagado pelas despesas com a dívida”. A dívida pública representa cerca de 120% do PIB, um pouco abaixo do nível de Itália, e a dívida privada ascende a 250% do Produto Interno Bruto, naquele que é um dos níveis mais elevados da Europa, sublinha.

 

“Para reduzir estes encargos, a economia portuguesa tem de crescer de forma robusta e sustentável. Com as actuais políticas, é provável que isso não aconteça”, adverte Megan Greene. “O governo espera que, se encolher o sector público, o privado ‘se chegue à frente’ para colmatar a lacuna e restaurar o país na via do crescimento virado para as exportações. Mas isso poderá ser difícil, uma vez que a maioria do sector empresarial português é composta por micro, pequenas e médias empresas, que são sobretudo financiadas por dívida. Com a desalavancagem dos bancos, a concessão de crédito a pequenas empresas diminuiu significativamente no último ano, e o investimento privado também foi penalizado”, recorda.

 

Em pezinhos de lã... à espera de crescer com a venda de sapatos

 

O artigo de análise prossegue, com um forte destaque ao sector do calçado português. E não, também não é por aí que o país se salva… “Perguntei a inúmeros responsáveis que sectores de exportação poderiam recolocar Portugal no caminho do crescimento. Parece que o governo deposita as suas esperanças nos sectores tradicionais, que nos últimos dois anos têm tido um desempenho relativamente positivo. Uma área que me mencionaram repetidamente foi a do calçado, sector que em Portugal está bastante orientado para as exportações, com 90% dos sapatos a seguirem para fora de fronteiras”.

O calçado feito em Portugal é o segundo mais caro do mundo, a seguir ao italiano. 
Megan Greene

 

Mas Megan Greene não parece tão optimista quanto os responsáveis portugueses com quem falou. Isto porque, na sua opinião, a probabilidade de Portugal recuperar essencialmente devido ao calçado não é assim tão certa. “O mercado português de calçado é bastante pequeno em termos de volume, estando no 21º lugar do ranking a nível global. E o calçado feito em Portugal é o segundo mais caro do mundo, a seguir ao italiano. Em termos de receitas de exportação, o sector luso do calçado sobe para o 11º lugar, mas, ainda assim, fica atrás de Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda, Espanha e França, na Europa. Será preciso mais do que uns sapatos elegantes para que as exportações portuguesas compensem a menor procura a nível interno”.

 

Apesar das previsões negativas de crescimento para Portugal – a Comissão Europeia, por exemplo, elevou a sua estimativa de contracção da economia portuguesa, de 1% para 1,9% - os credores do país continuam a aclamá-lo pelos progressos na implementação das condições do programa de resgate, salienta Megan Greene. Mas, acrescenta, “isso destina-se mais a diferenciar Portugal da Grécia”. Ou seja, trata-se de uma mensagem bem clara: ao contrário da Grécia, Portugal não terá um perdão parcial da sua dívida soberana.

 

A concluir a sua análise, a economista chefe da Maverick Intelligence sublinha que os protestos de 2 de Março em Portugal foram um indicador de que o povo está farto de austeridade. Tal como, aliás, os restantes países periféricos da Zona Euro.

 

“Os manifestantes cantaram ‘Grândola, Vila Morena’, a canção-emblema da revolução de 1974, que derrubou a ditadura. Se os credores de Portugal não acordarem e não flexibilizarem as suas exigências de austeridade, arriscam-se a ter de se confrontar com muito mais do que uma mera canção”, avisa Megan Greene.

 

 
Perfil

Megan Green é economista chefe na Maverick Intelligence, prestando consultoria a governos e empresas sobre desenvolvimentos políticos e macroeconómicos. Foi directora do departamento de análise económica europeia na empresa de consultoria Roubini Global Economics, dirigida pelo economista Nouriel Roubini.

 

A economista começou por cobrir a Grécia, Irlanda, Itália e Alemanha na Economist Intelligence Unit em 2007. Licenciada pela Universidade de Princeton e pela Universidade de Oxford, trabalhou também no JP Morgan Chase como conselheira da família real do Liechtenstein. Tem um blog, cujo endereço é www.economistmeg.com




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