Ambiente Para implementar tecnologias limpas nos países pobres é preciso mais do que dinheiro

Para implementar tecnologias limpas nos países pobres é preciso mais do que dinheiro

A Cimeira do Clima em Paris arrancou com promessas de milhões ao nível do investimento em tecnologias limpas, mas o sucesso destas iniciativas nos países em desenvolvimento dependerá da sua capacidade de receber e aplicar as mesmas, e da ajuda que terão para o fazer.
Para implementar tecnologias limpas nos países pobres é preciso mais do que dinheiro
Philippe Wojazer/Reuters
Inês F. Alves 02 de dezembro de 2015 às 13:59

Os líderes de Estado e bilionários abriram a cimeira de Paris a anunciar grandes investimentos em tecnologia limpa e a frisar a necessidade de transferir esta tecnologia para os países em desenvolvimento, mas os especialistas alertam que o sucesso destas incursões vai depender não só da aprovação do financiamento aos países mais vulneráveis, como da capacidade de estes receberem e colocarem no terreno estas inovações.

No primeiro dia da Conferência do Clima, Bill Gates anunciou a criação de um fundo de 20 mil milhões de dólares (cerca de 18,9 mil milhões de euros) para apoiar o investimento em energias limpas nos países em desenvolvimento. O co-fundador da Microsoft falou ainda apaixonadamente sobre a possibilidade de gerar energia através de um processo de fotossíntese artificial.

No mesmo dia, a 30 de Novembro, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, apresentou a Aliança Internacional Solar, que reúne 121 países situados entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio, alguns dos quais têm mais de 300 dias de Sol por ano. O objectivo desta coligação é assegurar a transferência de tecnologia e financiamento para o desenvolvimento em todos os países com potencial solar com capacidade para gerarem energia.

Angela Merkel, no seu discurso de abertura da Cimeira do Clima, salientou a necessidade de se transferir tecnologia para os países em desenvolvimento que auxilie na transição para uma economia verde.

No entanto, os especialistas alertam que será difícil transferir tecnologia rapidamente para os locais onde ela é mais necessária a não ser que os negociadores acordem nos termos do financiamento aos países em desenvolvimento. "Acredito que o elefante na sala é ainda o financiamento", considerou Yvo de Boer, ex-líder do secretariado para a alterações climáticas nas Nações Unidas, citado pela Reuters.

Por outro lado, muitos países não estão simplesmente preparados para receber grandes transferências de tecnologia. Para certos países mais vulneráveis se adaptarem às novas tecnologias, têm de ter a instituições certas, regulamentações e força de trabalho capacitada no terreno, escreve a Reuters.

O Departamento norte-americano de pesquisa avançada em energia (ARPA-E, na sigla inglesa) apurou, em projectos anteriores, que muitos dos trabalhadores nos países mais pobres "não tinham capacidade para manter novos projectos, então as coisas falham", diz Cheryl Martin, ex-directora da instituição.

Durante a Conferencia do Clima em Paris, os negociadores precisam de mapear como serão providenciados os fundos dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento, fundamentais para os preparar para efectuar esta transição tecnológica.

Os países desenvolvidos prometeram em 2009, na Conferência do Clima de Copenhaga, financiar os países em desenvolvimento em 100 mil milhões de dólares por ano a partir de 2020 através do Fundo Verde do Clima.

Os milhões prometidos de investimento em tecnologia "não devem ser vistos como um substituto do financiamento público que deve estar em cima da mesa para desbloquear um acordo forte até ao final da próxima semana", altura em que termina a Conferência do Clima, alerta Tim Gore, da Oxfam International, citado pela Reuters.

"Precisamos de garantir que a competitividade até dos países menos desenvolvidos é impulsionada com estas oportunidades e que não são deixados para trás", disse Jonathan Coony, coordenador do Programa Tecnológico para o Clima do Banco Mundial. Os países menos desenvolvidos precisam de apostar na capacidade de manufactura, na investigação e desenvolver a sua própria economia verde, em vez de "se manterem somente como captadores de tecnologia", acrescentou.

A propriedade intelectual pode ser outra barreira para esta transferência de tecnologia que se pretende operar. A Índia e outros países com menos capacidade financeira, por exemplo, têm dito durante anos que a tecnologia patenteada é demasiado cara e desejam que as tecnologias verdes sejam tratadas como um bem público.




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