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Conferência do Clima: Acordo pode atrasar mas aumenta a ambição

O financiamento continua a ser uma questão fracturante em Paris, onde é esperado que as negociações produzam um acordo ambicioso para a redução das emissões e para limitar o aquecimento global.

Reuters
Inês F. Alves inesalves@negocios.pt 10 de Dezembro de 2015 às 17:59
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Os franceses são os mais optimistas quanto a um acordo final até sexta-feira, enquanto chineses e britânicos acreditam que o prazo irá derrapar. A meta dos 1,5ºC voltou à mesa das negociações esta quinta-feira na Conferência do Clima (COP21) de Paris.

O presidente francês François Hollande admitiu esta quinta-feira numa recepção no Palácio do Eliseu que persistem algumas dificuldades para se alcançar um acordo mundial sobre o clima, especialmente ao nível do financiamento, noticia a Lusa. Hollande alerta, porém, que se discute em Paris "o futuro do planeta", uma responsabilidade "da qual [os países e seus líderes] não podem fugir".

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês e presidente da COP21, Laurent Fabius, disse entretanto que é expectável que um novo esboço de acordo seja apresentado ainda esta quinta-feira. 

Fabius espera ainda que o acordo final seja adoptado antes das 17:00 (hora de Lisboa) de sexta-feira, dia em que termina a Cimeira do Clima. A delegação chinesa, no entanto, acredita que a versão final do acordo estará pronta "o mais cedo possível" no sábado. Os britânicos, por sua vez, dizem que a sua expectativa está em colocar um ponto final entre sexta ao final do dia e domingo, escreve o o The Guardian.

Francisco Ferreira, professor do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa, disse à Lusa que "as divergências são de tal forma grandes" que vai ser preciso "mais tempo para chegar a um consenso".

"Nenhuma conferência destas terminou, nos últimos anos, antes da madrugada de sábado para domingo. Nesta que é tão crucial eu acho que nós provavelmente iremos pelo mesmo caminho", considerou.

Também João Branco, presidente da organização ambiental Quercus, disse que o acordo "está atrasado".

Para o ambientalista, ouvido pela Lusa, "uma das coisas que está a envenenar o acordo é a questão das compensações monetárias". "Os países não desenvolvidos estão a aproveitar a situação para tentarem obter o máximo de dinheiro possível dos países desenvolvidos", disse, considerando que se caiu "numa situação que não é útil para a obtenção de um acordo porque a discussão não devia estar aí".

Ministros, representantes e negociadores dos 195 países presentes na cimeira continuam divididos no que toca a temas fundamentais, escreve a Reuters, salientando que a questão do financiamento aos países em desenvolvimento acentuou as tensões nos bastidores entre os EUA e a China nas negociações.

John Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos, criticou a abordagem "minimalista" de países que podem fazer contribuições financeiras mais elevadas. Da outra parte, a delegação chinesa evitou discutir pormenores, dizendo apenas que há espaço para compromissos.

Apesar de "uma meta climática muito mais ambiciosa" que é "o texto encaminhar-se para uma ambição de um aumento de 1,5 graus Celsius em relação à era pré-industrial", os pontos de discórdia continuam a ser o financiamento, os prazos das revisões das contribuições nacionais e a "diferenciação entre países, ou seja, o esforço de redução de emissões e de financiamento entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento", notou Francisco Ferreira.

 

1,5ºC ou 2ºC?

Esta quinta-feira voltou a colocar-se em cima da mesa a questão dos 1,5ºC como meta para 2100 em vez dos 2ºC, limite a partir do qual a comunidade científica acredita que as consequências das alterações climáticas poderão ser dramáticas.

Um bloco significativo de países em desenvolvimento insistem que o acordo deve incluir um objectivo de longo-prazo de limitar o aumento da temperatura aos 1,5ºC (2,7 Fahrenheit) face aos níveis pré-industriais, ainda que as contribuições nacionais voluntárias avançadas pelos vários países (denominadas INDC) não permitam respeitar esse patamar.

Com o apoio inesperado dos Estados Unidos e da Europa, o acordo pode ir para lá do objectivo actual dos 2ºC, escreve a Reuters, salientando que o último rascunho pode traçar como objectivo ficar "bem abaixo" dos 2ºC e reconhecer a necessidade de apontar para o limite dos 1,5ºC. Um reconhecimento explícito de que é preciso fazer mais pode promover acções mais decisivas no futuro, explica agência.

Todavia, alguns países desejam manter a meta dos 2ºC.

A Arábia Saudita, por exemplo, bloqueou na semana passada tentativas iniciais de incluir referências no Acordo de Paris a um relatório das Nações Unidas que recomenda a meta dos 1,5ºC, alegando que isso poderá colocar em causa a segurança alimentar, já que teriam de ser plantadas árvores em zonas agrícolas, escreve a Reuters.

A Índia, por sua vez, ofereceu um apoio condicional a esta meta, ou seja, só no caso de as nações desenvolvidas acordarem reduções mais acentuadas nas suas emissões, recorda a agência.

Michiel Schaeffer, investigador na área do clima, ouvido pela Reuters, disse que a única diferença entre traçar a linha limite nos 1,5ºC ou nos 2ºC é a velocidade com que terão de ser implementadas tecnologias que impulsionem a redução das emissões de carbono: "Se queres chegar aos 1,5ºC, precisas de as colocar no terreno 10 ou 20 anos mais cedo".

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