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Luís Veiga Martins: "O espaço europeu é um mercado natural da reciclagem"

Há tecnologia disponível e recursos humanos qualificados por isso Portugal tem as condições para ser competitivo refere Luís Veiga Martins director-geral da Sociedade Ponto Verde.

Filipe S. Fernandes 19 de Janeiro de 2016 às 07:40
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Nos últimos 20 anos assistiu-se em Portugal a uma revolução no sector dos resíduos de embalagens assinala Luís Veiga Martins director-geral da Sociedade Ponto Verde. Em 1998, dois anos depois de ter surgido a Sociedade Ponto Verde, começou a funcionar o Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens [SIGRE], que enviou cerca de duas mil toneladas de embalagens para reciclagem. Em 20014 foram mais de 730 mil toneladas, das quais 419 mil toneladas de embalagens recuperadas no fluxo urbano. Foi o melhor resultado de sempre desde que a reciclagem de resíduos de embalagens é feita em Portugal. Desta forma, a SPV, conseguiu atingir uma taxa de reciclagem de 74%, e que a separação de resíduos de embalagens seja um hábito diário para 71% dos lares portugueses.

Para o futuro Luís Veiga Martins refere que "o grande desafio que se coloca cada vez mais à indústria portuguesa, incluindo a de reciclagem, é o de olhar para o espaço europeu como o seu mercado natural. A tecnologia está disponível, temos recursos humanos muito qualificados pelo que claramente Portugal tem as condições necessárias para ser competitivo". Além disso, é fundamental fomentar a inovação, por isso foi criado o Ponto Verde Open Innovation.

 

Como tem evoluído a actividade da Sociedade Ponto Verde (SPV) e quais são os principais desafios para os próximos anos tanto para a Sociedade Ponto Verde como para a Economia Circular?

A Sociedade Ponto Verde foi criada em 1996 por iniciativa das empresas que embalam os produtos que os portugueses consomem. Ao longo de 19 anos, as suas empresas aderentes financiaram a recolha selectiva em mais de 650 milhões de euros, tendo investido cerca de 50 milhões de euros em comunicação e sensibilização ao consumidor, cerca de 15 milhões de euros para viabilizar a reciclagem de alguns materiais, 2 milhões de euros em projectos de Investigação e Desenvolvimento e 1 milhão de euros em projectos de Responsabilidade Social. Todo este esforço permitiu o encaminhamento para reciclagem de mais de 6 milhões de toneladas de resíduos de embalagens, contribuindo para que Portugal tenha cumprido com os seus compromissos a nível europeu, bem como com as metas delineadas nos diversos planos estratégicos de resíduos urbanos.  Daqui para a frente há que consolidar os bons resultados já alcançados, contribuindo para que noutros fluxos de resíduos seja obtido o mesmo sucesso já conseguido nos resíduos de embalagens, o que pode passar por iniciativas como o Ponto Verde Open Innovation, recentemente lançada.

 

Qual é a importância da indústria dos resíduos e da reciclagem para a indústria portuguesa e dinamização da economia? Como é que se poderia dinamizar mais este sector?

O sector dos resíduos em geral e da reciclagem, em particular, tem um papel crucial no desenvolvimento da economia portuguesa. Actualmente, as actividades de gestão de resíduos urbanos têm um impacte económico directo de 357 milhões de euros, contribuindo para a criação de mais de 15.000 postos de trabalho directos e indirectos. Já a reciclagem no âmbito do Sistema Integrado de Gestão de Resíduos de Embalagens, que é gerido pela Sociedade Ponto Verde, contribui com 71 milhões de euros para o PIB nacional e é responsável pela existência de mais 2.400 postos de trabalho. Trata-se de uma área muito versátil, que contribui significativamente para a Economia Verde, e cuja influência poderá ser cada vez maior tendo em conta as exigências crescentes ao nível da legislação nacional e europeia.

 

Qual será o futuro da indústria dos resíduos em Portugal? 

Tendo em conta a evolução dos últimos anos, temos razões para acreditar que será um futuro promissor. Hoje o impacte directo das actividades de gestão de resíduos urbanos ronda os 350 milhões de euros. Mas este valor poderá ser significativamente superior. Um estudo apresentado no ano passado pela consultora 3 Drivers e o Instituto Superior Técnico, que contou com o apoio da Sociedade Ponto Verde, indica que o impacte económico directo global das actividades de gestão de resíduos urbanos aumentará 26%, para 451 milhões de euros, com base nas metas definidas no Plano Estratégico dos Resíduos Urbanos (PERSU 2020). Por outro lado, estima-se que as emissões de gases com efeito de estufa se reduzam 47%, o que se traduz na poupança da emissão de 522 mil toneladas de CO2, um dado importante considerando o recente Acordo de Paris para conter o aquecimento global.

 

A transformação de resíduo em recurso

A Comissão Europeia adoptou em 3 de dezembro um pacote da economia circular para ajudar as empresas e os consumidores a fazerem a transição para uma economia mais forte e mais circular, com uma utilização mais sustentável dos recursos.

 

Qual é a importância do Pacote comunitário para Economia Circular na economia portuguesa e na Sociedade Ponto Verde?

A mudança significativa de abordagem, que consiste na transformação de um resíduo num recurso, aumenta a importância da matéria-prima secundária para a economia circular, bem como o contributo significativo para a redução das emissões de gases com efeito de estufa. Estima-se que sejam evitadas 500 milhões de toneladas, directa e indirectamente, pela diminuição da deposição em aterro e pela promoção da reciclagem. Por outro lado, de acordo com estimativas recentes, a prevenção dos resíduos, a concepção ecológica, a reutilização e medidas similares poderão proporcionar às empresas europeias poupanças líquidas de 600 mil milhões de euros. Por outro lado, prevê-se que a Economia Circular contribua para criar 3 milhões de empregos. Por isso, acreditamos que o novo pacote terá um impacto muito positivo na economia nacional.

No respeitante à SPV as metas que estão previstas irão lançar novos desafios no sentido de contribuir, como sempre, e de uma forma activa, para que Portugal atinja os seus objectivos, sempre defendendo e promovendo a sustentabilidade financeira do SIGRE e na busca da diminuição dos custos de contexto.

 

O que destaca mais no Pacote comunitário para Economia Circular? Que impacto vai ter o plano de acção e será que os objectivos previstos são alcançáveis?

A aprovação do novo pacote vem demonstrar que a Economia Circular é uma prioridade política para a Comissão Europeia, com o objectivo de transformar a sua economia, criar novas oportunidades de negócio e reforçar a competitividade. Os resíduos são um elemento essencial nesta política. Como tal, foram definidas medidas e metas que terão um impacto nas políticas a adoptar pelos Estados Membros. Por exemplo, até 2030, é objectivo reciclar 65% dos resíduos urbanos e 75% dos resíduos de embalagens. São metas muito ambiciosas e que lançam um grande desafio a todos os players do sector.

Será importante aferir o impacto do estabelecimento de novas metas no âmbito de uma metodologia harmonizada que leve em linha de conta as atuais diferenças entre os Estados Membros, como sejam diferentes pontos de partida em desempenho, diferentes capacitações para gestão dos resíduos e diferentes produções de resíduos.

Acredito que Portugal reúne as condições para que tal se concretize. Temos infraestruturas, expertise, indústria de reciclagem e uma estratégia que, naturalmente, terá de ser ajustada a estes novos desafios, mas que será inevitável. 
Ponto Verde acelera inovação A Sociedade Ponto Verde prevê investir até 2 milhões de euros em 5 anos no financiamento de projectos através do acelerador de empresas Ponto Verde Open Innovation.

Dedicado ao sector da reciclagem e da gestão de resíduos, Ponto Verde Open Innovation tem por objectivo "a criação de estímulos ao empreendedorismo e ao desenvolvimento da indústria e de processos inovadores e dar um novo impulso à investigação científica e optimização da gestão de resíduos" referiu Luís Veiga Martins, director-geral da Sociedade Ponto Verde, que prevê investir até 2 milhões de euros em 5 anos neste projecto. Este anúncio foi feito durante a cerimónia de apresentação realizada a 3 de dezembro no CCB.

O Ponto Verde Open Innovation vai apoiar modelos e projectos de negócio de universidades, start-ups (com até três anos de implementação no mercado), empresas e pessoas singulares maiores de 18 anos.

A apresentação de candidaturas inicia-se a 2 de fevereiro e prolonga-se até dia 8 de abril de 2016. Depois os projectos candidatos são pré-seleccionados por pela consultora internacional EY, que vai fazer a verificação da elegibilidade formal e a avaliação técnica do mérito das candidaturas apresentadas.

Feita a primeira selecção, os projectos serão avaliados pelo advisory board da Ponto Verde Open Innovation que é constituído por Ana Isabel Trigo Morais, secretária-geral, APED, João Lobo Antunes, neurocirurgião, Francisco Nunes Correia, professor catedrático e antigo ministro do Ambiente, Jorge Rodrigues, CEO da Suma, e Viriato Soromenho Marques, professor catedrático entre outras personalidades.

Esta incubadora de empresas vai apoiar os projectos através da formação, mentoring, financiamento, networking entre outras valências.

Este acelerador de empresas pretende reunir numa mesma plataforma vários parceiros investigadores, associações sectoriais, empresas, investidores e universidades. Contam já com a participação da AEP (Associação Empresarial de Portugal), AEPSA (Associação das Empresas Portuguesas para o Sector Ambiente), Centro de Valorização de Resíduos, Building Global Innovators, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, Universidade do Porto e Universidade do Minho.

Ao longo dos seus 19 anos a Sociedade Ponto Verde já investiu mais de 2 milhões de euros em projectos e estudos para melhorar processos de recolha, de transporte, de triagem e de reciclagem e, inclusivamente, para o aparecimento de novas técnicas e de novos negócios.

Destacam-se projectos como os plásticos mistos, que contribuíram para a reciclagem de plásticos que, no passado, constituíam refugo das estações de triagem; ou o baldeamento assistido, projecto que tem proporcionado ao sector horeca (hotéis, restaurantes e cafés) uma forma eficiente e fácil de depositar o vidro recolhido nos seus estabelecimentos em ecopontos especialmente adaptados para recolher grandes quantidades de embalagens. 
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