Conjuntura  Jaime Gama diz que há uma "ilusão muito grande" sobre a dívida e economia portuguesas

Jaime Gama diz que há uma "ilusão muito grande" sobre a dívida e economia portuguesas

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e histórico socialista diz, à Antena 1, ser necessário apurar as razões do endividamento, do atraso e qual a natureza de políticas sustentáveis para garantir o crescimento.
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Paulo Zacarias Gomes 23 de março de 2017 às 12:28

O antigo presidente da Assembleia da República considera que o país não está a preparar-se para os efeitos do fim do programa de compra de activos do Banco Central Europeu (BCE) e para a subida dos juros. E que é "ilusório" que o país possa por si só limpar o seu passivo, pedindo uma reflexão sobre a dívida e as políticas sociais.


"Imagine o que é a perspectiva do endividamento português quando o BCE resolver deixar de comprar dívida aos Estados-membros. (…) Esses cenários não são discutidos. (…) Há uma ilusão geral muito grande em relação à situação que envolve a economia portuguesa," afirma esta quinta-feira, 23 de Março, o histórico socialista em entrevista a Maria Flor Pedroso, na Antena 1.

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Numa altura em que o ritmo do programa de compra de dívida portuguesa por parte de Frankfurt se tem vindo a reduzir, que os juros associados às obrigações a 10 anos em mercado secundário se mantêm acima dos 4% e que as perspectivas de crescimento da inflação levam países como a Alemanha a pedir o fim progressivo das aquisições do BCE, Jaime Gama refere que é necessário reflectir "esses aspectos".


Alerta que "é muito fácil pregar as situações óptimas" e que "a opinião pública está anestesiada porque lhe é escamoteada a compreensão do problema [da dívida] e lhe é permanentemente afirmada a oferta ilusória que é impraticável". "A realidade far-se-á sentir na altura própria," adverte.


Por isso, questionado sobre o contributo que actualmente daria para a reflexão da situação em Portugal, elege a situação da dívida em Portugal – não só a das empresas e das famílias, como também a das administrações públicas – para "que não seja escamoteada do conhecimento dos portugueses". E que se questione por que razão a "economia portuguesa não cresce ou quando cresce, cresce sempre em bochechos conjunturais de curta duração".


Acrescenta ainda que as políticas sociais e o seu alcance também têm de ser trazidas à discussão "em função daquilo que é a realidade e a capacidade da economia. E se estamos a seguir um caminho certo (…) ou a viver a assimilação de uma sucessão de ilusões da qual só pode resultar um desastre," adverte.


O socialista admite que "todas as hipóteses devem ser colocadas" para resolver a situação da dívida, considerando que a "mais difícil" é a "emissão de moeda falsa, a criação de situação ilusória em que a dívida é apagada porque se muda de referente monetário".

E critica ainda a ilusão de que Portugal conseguirá trilhar o caminho da recuperação da dívida sozinho e de que conseguirá limpar o passivo com o "aplauso" dos credores. "Acho que há aí uma ingenuidade enorme. (…) É uma matéria sobre a qual é possível fazer toda a espécie de demagogia, mentindo e salvando a sua imagem com propostas absolutamente ilusórias," acrescenta.

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