Conjuntura César das Neves: estimular o consumo atrasará o crescimento

César das Neves: estimular o consumo atrasará o crescimento

O economista e professor da Universidade Católica, João César das Neves, alerta no DN para os riscos de seguir uma estratégia de estímulo do consumo e de reverter as privatizações e concessões. Atrasará o crescimento e provocará estragos.
César das Neves: estimular o consumo atrasará o crescimento
Negócios 07 de janeiro de 2016 às 10:21
"Sugerir estimular o consumo para obter crescimento é uma ideia de quem não conhece a situação nacional", escreve João César nas Neves na sua coluna de opinião no Diário de Notícias. "Também reverter as privatizações ou concessões e castigar os aforradores institucionais significa atacar os poucos incautos, nacionais ou estrangeiros, que decidem investir em Portugal", acrescenta, considerando que esta "é a melhor forma de assinalar ao mundo que não somos um país de futuro".

"A dança da poupança", assim titula João César das Neves o seu artigo em que começa por falar nas recentes intervenções na banca para demonstrar que Portugal continua com um problema. "Portugal sofre uma forte crise financeira", diz considerando que os recentes casos do BES e do Banif reflectem um problema de endividamento.

"Défice público, endividamento das famílias ou descapitalização das empresas, tudo envolve sempre a banca", diz, concluindo que a banca "limita-se a ser o bengaleiro dessas dívidas, desmoronando quando elas explodem".

Esta explicação até há pouco tempo pacífica, diz, "é hoje oficialmente recusada pelos actuais dirigentes" quando o governo rejeita que "o país tenha vivido acima das suas posses", atribuindo a crise "ao cavaquismo e à austeridade". 

Claro que houve roubos, reconhece, mas alerta: "o país está há 20 anos a reduzir a poupança e isso chega para explicar a situação". E o que se gastou, considera, "a maior factura não foi em luxos e loucuras, mas em salários, pensões infra-estruturas e serviços públicos de que todos beneficiámos". E, por isso, "a crise é nossa, não à volta a dar-lhe".

"Esperar que os problemas se resolvam funciona às vezes", diz, depois de ter lembrado nos parágrafos anteriores do seu texto o que se passou em Portugal entre finais da década de 70 e início dos anos 80 do século XX, quando um problema semelhante acabou sendo resolvido com o aumento do crescimento. "Dessa vez tivemos sorte: o grande crescimento após a entrada na CEE foi suficiente para tapar os buracos e acabou tudo bem".

Tentou-se também nesta crise adoptar a uma estratégia paciente deste lado do Atlântico. "Na Europa preferiu-se a ambiguidade e a tolerância". E, na sua perspectiva, "o caso português é paradigmático.É espantoso que seja depois da suposta "saída limpa" do programa de ajustamento que se sucedam as derrocadas bancárias".

Se esperar que os problemas se resolvam por vezes funciona, César das Neves alerta que "negar as dificuldades é sempre um disparate". E é aqui que considera que "o actual Governo anda apostado em propor exactamente o contrário do que devia", concluindo que "não o poderá cumprir", embora mesmo assim "os estragos serão consideráveis".

"Sugerir estimular o consumo para obter crescimento é uma ideia de quem não conhece a situação nacional", defende. "Com a taxa de poupança das famílias em 4% e o investimento em 15% do produto, os registos mais baixos da história de Portugal, o mal do consumo é execesso, não falta de estímulo". 

É com este quadro que João César das Neves considera que "as políticas de aumentos de rendimentos, pensões e salários só servirão para subir impostos, reduzir lucros e, portanto, atrasar o crescimento". 




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