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FMI: Munições dos bancos centrais para combater a estagnação estarão perto do fim

Boa parte do mundo desenvolvido, onde as taxas de juro são virtualmente nulas, corre o risco de ver-se contagiado pela doença que há décadas trava a economia do Japão.

6.ª Christine Lagarde (FMI)
Manteve a posição do rankingo do ano passado. A directora-geral do FMI é a sexta mulher mais poderosa a nível mundial, segundo a Forbes. O que acontece quando foi nomeada para segundo mandato à frente do Fundo Monetário Internacional. As várias crises económicas que tem de acudir mantêm-na presa ao topo.
Reuters
Eva Gaspar egaspar@negocios.pt 27 de Setembro de 2016 às 12:11
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O risco de um longo período de fraca inflação e de baixo ou nulo crescimento está a aumentar. É preciso um novo "mix" de políticas para evitar que boa parte do mundo desenvolvido, designadamente a Europa e os Estados Unidos, fique contagiado pela doença que há décadas afecta o Japão, em que a perspectiva de descida contínua dos preços trava o consumo e o investimento e, consequentemente, o crescimento económico e o emprego.

 

O alerta foi nesta terça-feira, 27 de Setembro, renovado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) num relatório no qual constata que a descida dos preços não pode apenas ser explicada pelos mínimos históricos em torno dos quais permanece o custo do petróleo. "Inflação baixa e decrescente passou a ser, no rescaldo da Grande Recessão, um fenómeno progressivamente alargado, atravessando vários países e sectores de actividade".

 

E, neste contexto, "a eficácia da política monetária para lidar com a desinflação persistente estará a diminuir nas economias onde as taxas de juro estão perto de zero", estando, por isso, "a aumentar o risco [de vivermos] um longo período de fraca inflação", alerta a instituição presidida por Christine Lagarde (na foto), ao recomendar uma "combinação adequada de políticas para evitar que se ancorem expectativas de queda da  inflação, o que poderá cortar a actividade económica e o emprego".


No rescaldo da crise financeira deflagrada em 2007, os principais bancos centrais, designadamente o BCE, a Fed e o Banco do Japão, flexibilizaram progressivamente as suas políticas e, neste momento, oferecem taxas de juro virtualmente nulas e estão no mercado com programas de compra de activos de larga escala. 


Já na semana passada, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) chamara abertamente à atenção para a circunstância de juros excepcionalmente baixos não terem sido aproveitados pelos governos para fazerem reformas estruturais (normalmente impopulares) no funcionamento das suas economias, sendo neste momento um remédio que arrisca provocar males maiores.

Actualmente, 35% da dívida soberana emitida pelos mais de 30 países membros da OCDE (o "clube dos desenvolvidos") está a ser transaccionada a taxas negativas. Mas a actividade económica continua anémica, apontou a organização sedeada em Paris no relatório em que reviu em baixa as perspectivas para a economia global, concluindo que "taxas de juros excepcionalmente baixos geraram distorções financeiras e riscos". 

"A política monetária está sobrecarregada. Os países devem implementar medidas de política orçamental e estruturais para reduzir a dependência excessiva dos bancos centrais e garantir oportunidades e prosperidade para as gerações futuras", sublinhou, então, a economista-chefe da OCDE, Catherine Mann. Os governos, aconselha, devem articular-se para usar o espaço orçamental de que disponham para "promover no imediato a actividade privada e impulsionar o crescimento de longo prazo" e "implementar políticas estruturais para assegurar o comércio e o investimento".


BCE pede responsabilidades aos governos

 

Também Mário Draghi voltou ontem mesmo a avisar os governos do euro para os limites da acção do Banco Central Europeu (BCE), ao frisar que as baixas taxas de inflação, que persistem, não obstante a dimensão do programa de compra de activos em curso, "são sintoma da situação económica subjacente" que não será alterada na ausência de medidas que só podem ser tomadas por governos eleitos.

 

"Outros actores políticos precisam de fazer a sua parte, perseguindo políticas orçamentais e estruturais que contribuam para uma recuperação sustentável e para o aumento do potencial de crescimento da Zona Euro", disse Mário Draghi nesta segunda-feira, 26 de Setembro, perante o Parlamento Europeu.

 

"É preciso que os governos nacionais tomem medidas para libertar o crescimento, reduzir o desemprego, capacitar os indivíduos e, ao mesmo tempo, oferecer protecção aos mais vulneráveis", acrescentou.

 

Os avisos de Draghi, que se podem traduzir por o pedido de uma política orçamental mais expansionista à Alemanha e mais reformas e contenção aos países mais endividados, como é o caso de Portugal, surgiram no mesmo dia em que também Benoit Coeuré, membro da comissão executiva do BCE, alertou, em Roma, para o risco de a Zona Euro cair numa armadilha de baixo crescimento e de baixas taxas de juro e de inflação, a menos que os governos deixem de depender do BCE para reanimar a economia e comecem a desempenhar um papel que é só seu.

 

Citado pela Reuters, Coeuré disse que a ultra-flexibilização da política monetária do BCE foi pensada no pressuposto explícito de que os outros actores políticos iriam fazer a sua parte na tentativa de relançamento da actividade económica, e que a sua falta de iniciativa abre a perspectiva de baixas taxas de juro por um longo período com consequências nefastas para o "contrato geracional" e para o "tecido social" europeus.

 

Manter baixas taxas de juro por um período prolongado "irá limitar severamente a margem de manobra das ferramentas convencionais de política monetária, mas, ainda mais preocupante, irá ameaçar o contrato entre gerações, bem como gerar risco de rasgar o nosso tecido social", disse.

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