Conjuntura FMI avisa: Portugueses têm de poupar mais para evitar os desequilíbrios externos do passado

FMI avisa: Portugueses têm de poupar mais para evitar os desequilíbrios externos do passado

A aceleração do investimento fez regressar os desequilíbrios externos de Portugal, mas tal pode ser compensado por uma maior taxa de poupança. O FMI apela ao Governo para fazer mudanças nos planos privados de pensões, uma área "subdesenvolvida" na economia nacional.
Tiago Varzim 12 de julho de 2019 às 15:35

O Fundo Monetário Internacional (FMI) não tem dúvidas: a poupança dos portugueses é baixa - está em mínimos históricos - e é preocupante. E essa tendência está, em parte, a ajudar a um regresso ao passado nas contas externas, ainda que ao de leve. 

No relatório anual sobre a economia portuguesa, ao abrigo do Artigo IV, divulgado esta sexta-feira, 12 de julho, os técnicos de Washington dedicam um capítulo específico à poupança das famílias, elegendo este como um dos problemas estruturais de Portugal.

"Taxas de poupança interna mais elevadas são necessárias para sustentar taxas de investimento mais elevadas sem criar novos desequilíbrios externos", resume o Fundo, referindo o que aconteceu no ano passado e se manteve no primeiro trimestre de 2019: o investimento acelerou, mas à custa de compras ao exterior que, na ausência de poupança interna, acentuam os desequilíbrios externos. 

"Depois de manter um equilíbrio ou excedente por vários anos, as contas correntes externas passaram a um défice em 2018", assinala o FMI, explicando que tal reflete um crescimento mais lento das exportações, incluindo no turismo, o que não compensou a forte procura interna (alimentada em parte por importações para consumo e investimento). 

Assim, as projeções dos técnicos de Washington apontam para um défice nas contas externas durante os próximos anos à medida que a procura interna aumenta e o crescimento do turismo arrefece. Para que esse indicador melhore, é preciso aumentar as taxas de "poupança interna" que, tanto nas famílias como nas empresas, estão abaixo da média da Zona Euro. 

Mas há uma evolução diferente nesses dois agregados. Enquanto a poupança das empresas tem recuperado desde a crise (situa-se em cerca de 13% do PIB em 2017), a poupança das famílias tem estado em queda, tendo atingido mínimos históricos abaixo dos 4% do rendimento (ou cerca de 3% do PIB).

"As tendências divergentes da poupança das empresas e das famílias não é um fenómeno único de Portugal, mas são mais acentuadas do que noutros países", alertam os técnicos do FMI. 

O tema é complexo, mas uma das explicações apontadas pelos técnicos de Washington para que Portugal tenha uma taxa de poupança das famílias mais baixa é o elevado rácio de proprietários de habitação própria em comparação com a média europeia. Ou seja, os gastos com a prestação do imóvel ao longo da vida contribuem para uma menor poupança.

Mas este fenómeno também é explicado por características mais gerais como o menor rendimento disponível, pelo menor património (incluindo o financeiro), pelo envelhecimento da população e pelos maiores gastos públicos em pensões e proteção social em Portugal. 

Traçada esta análise a este problema, o FMI considera que o Governo deveria - além de promover o crescimento económico e dos salários - começar por "explorar opções para encorajar um segundo complemento" através de mudanças nos planos privados de pensões, um segmento "subdesenvolvido" em Portugal.

É também de considerar mudanças nos impostos para diminuir o peso que incide sobre o trabalho, incentivar a participação no mercado de trabalho para lá dos 65 anos e reduzir a conversão dos salários mais elevadas nas pensões públicas (contribuindo para aumentar a poupança nos que têm mais rendimento). 




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