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Lóbi farmacêutico bloqueou Bruxelas na investigação aos coronavírus em 2018

As organizações não-governamentais (ONG) Global Health Advocates e Corporate Europe Observatory acusam as grandes farmacêuticas envolvidas em parcerias público-privadas (PPP) com a União Europeia (UE) de terem impedido a investigação sobre coronavírus proposta por Bruxelas em 2018.

Lusa
Lusa 25 de Maio de 2020 às 00:38
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"Estamos indignados por encontrar provas de que o lóbi da indústria farmacêutica EFPIA [European Federation of Pharmaceutical Industries and Associations] não só não considerou o financiamento da bioprevenção (ou seja, estar pronto para responder a epidemias como a causada pelo novo coronavírus, covid-19), como se opôs a que a mesma fosse incluída nos trabalhos da IMI [Iniciativa de Inovação Médica] quando essa possibilidade foi levantada pela Comissão Europeia em 2018", lê-se nas conclusões de um estudo a que a agência Lusa teve acesso.

Contactada pela Lusa, fonte oficial da Comissão Europeia (CE) sublinhou que está a ser investida "uma verba significativa de dinheiro em pesquisa e inovação na saúde, nas alterações demográficas e no bem-estar, assim como na sustentabilidade ambiental e na ação climática, com o foco nos desafios da sociedade e atacando as necessidades médicas e ambientais".

Segundo o relatório "Mais privada do que pública: como as grandes farmacêuticas dominam a Iniciativa de Inovação Médica", integrado num documento mais amplo denominado "Em nome da Inovação", feito pela Global Health Advocates (GHA) e pelo Corporate Europe Observatory (CEO), a indústria farmacêutica beneficiou de 2,6 mil milhões de euros do orçamento público de investigação da UE no período compreendido entre 2008 e 2020, através da IMI, "mas até agora falhou em investir significativamente em áreas de pesquisa onde o financiamento é urgentemente necessário".

A GHA e o CEO sublinham que, entre as áreas negligenciadas que necessitavam de um financiamento significativo, estão "a prevenção para epidemias (incluindo as causadas pelos coronavírus), o HIV/sida, e as doenças tropicais relacionadas com a pobreza", mas que, em vez disso, "a indústria farmacêutica usou sobretudo o orçamento para financiar projetos em áreas que eram comercialmente mais rentáveis".

As duas ONG assinalam que, desde a aparição do coronavírus SARS, "um primo chegado do novo coronavírus", em 2003, os investigadores têm pedido que seja acelerado o desenvolvimento de tecnologias médicas para combater este tipo de vírus.

"Na verdade, já houve um 'candidato promissor para tratar coronavírus em 2016', mas não captou a atenção das grandes farmacêuticas para mais desenvolvimentos", acusam as duas organizações sem fins lucrativos.

E acrescentam: "Só agora, com uma pandemia global em curso e quando existem fundos públicos mobilizados para combatê-la, é que a indústria está a mostrar vontade de ajudar a desenvolver vacinas e tratamentos".

De acordo com as ONG, a indústria farmacêutica já tinha tratado a Ébola de forma semelhante, uma vez que só se dedicou à sua investigação quando a mesmo se tornou uma epidemia em 2014, e depois de a IMI ter começado a financiar projetos de pesquisa relevantes.

"Esse caso mostra como intervenções tardias quando uma epidemia já está em andamento são muito menos úteis do que o tipo de bioprevenção que a indústria rejeitou", vincaram.

Questionada pela Lusa, Marine Ejuryan, da GHA, considerou que, face à atual crise, "é expectável" que Bruxelas coloque a bioprevenção entre as prioridades do financiamento de projetos nas próximas PPP da área da investigação na saúde.

Contudo, realçou que "é demasiado pouco e demasiado tarde investir em epidemias após surgirem", e que uma "resposta efetiva requer tempo e investimentos sustentáveis para garantir que existem as vacinas e tratamentos necessários quando surgem os surtos epidémicos".

Sobre a postura das grandes farmacêuticas, a especialista considerou que "muitas multinacionais estão agora envolvidas na pesquisa da vacina e de tratamentos contra o coronavírus, uma vez que agora existem enormes quantias de financiamento público mobilizado na União Europeia e a nível global. Mas não necessariamente por razões altruístas".

Por seu turno, Martin Pigeon, investigador do CEO, considerou que "já é tempo de a política de investigação e inovação da UE receber o escrutínio político e os debates que merece", a bem do interesse público.

"O que está em jogo aqui é a captura corporativa de grandes áreas da política e dos orçamentos de pesquisa da UE, às custas das necessidades públicas, da nossa saúde e da saúde do nosso planeta", destacou.

E rematou: "O financiamento público da pesquisa e inovação é um investimento na produção de conhecimento e ferramentas para o futuro, e, num momento de crise em curso, acertar esses investimentos é mais crucial do que nunca".
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