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O jogo das elites

Um forte contributo para um debate urgente, especialmente no País, onde a austeridade excessiva conduz a uma destruição da economia interna e ao sufoco da classe média, que é a almofada que aconchega a democracia.

Fernando Sobral fsobral@negocios.pt 21 de Setembro de 2013 às 10:00
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Joseph Stiglitz não poupa palavras nestes dias onde todas as certezas se transformaram em incógnitas. De acordo com o economista, a política formata o mercado, mas ao mesmo tempo foi ocupada pela elite financeira que garante, sobretudo, os seus próprios interesses. Depois de algumas décadas de neoliberalismo, argumenta, estamos à mercê de um grupo de cartéis que convenceram os políticos da bondade da desregulação, das privatizações, da destruição das leis laborais e da globalização sem limites, e que utilizam o monopólio do poder para aumentar os seus lucros. Por isso, o rendimento das classes médias diminuiu (acrescentado de um sentimento de insegurança que desconheciam) e a desigualdade está a retardar o crescimento.

 

Segundo Stiglitz, é tudo isto que está a matar o "sonho americano" e, ao mesmo tempo, o "sonho europeu" e o de outros povos de diferentes latitudes. A terra prometida, os EUA, está na posse de 1% da população, enquanto 99% das pessoas sentem o medo e começam a fazer sentir a sua raiva. Stiglitz recorda a chegada em força dos "Chicago Boys", de Milton Friedman, nas décadas de 1970 e 1980, que, com o apoio do FMI e de países como a Grã-Bretanha de Thatcher, os EUA de Ronald Reagan, o Chile e o México, aplicaram estes princípios.

O que parece estar subjacente às análises de Stiglitz é a necessidade de injectar moralidade neste capitalismo financeiro que domina com base na globalização. No fundo, quer regressar aos princípios que o "pai" do liberalismo, Adam Smith, defendia. Até porque os actuais níveis de desigualdade começam a ser intoleráveis.

 

A distorção de utilização de fundos públicos é outra questão que o autor analisa neste livro contundente. Recorda que, em 2008, foram injectados na companhia de seguros AIG cerca de 150 mil milhões de dólares de dinheiros públicos, isto é, dos contribuintes, valor superior ao gasto em auxílio aos pobres entre 1990 e 2006.

 

Defende mesmo que os casos de corrupção e dolo que causaram grande parte da crise em que vivemos desde 2008 deveriam ter penas pesadas. Não poupa, na política americana, as teses neoliberais que os democratas têm implementado e o "laissez-faire" total dos republicanos. Stigliz defende um regime de mercado livre, porque beneficia a sociedade em geral, mas um regime que necessita de ser regulado pelo Estado e de uma supervisão para se manter funcional.

Este livro é um forte contributo para um debate urgente, especialmente em Portugal, onde a austeridade excessiva conduziu a uma destruição da economia interna e ao sufoco da classe média, que é a almofada que aconchega a democracia. Para Stiglitz, a desigualdade leva a um crescimento mais baixo e à menor eficiência do mercado e da sociedade. Ou seja, a falta de oportunidades que daí deriva leva que não seja utilizado o mais importante valor das sociedades: o seu povo.

 

Segundo o autor, a carência de empregos e as assimetrias da globalização criaram uma competição fratricida pelos empregos que existem. Aí, os trabalhadores perderam e os detentores do capital ganharam. Há esperança? Stiglitz acredita que sim. Mas não é peremptório: "Há quatro anos, houve um momento em que a maioria dos norte-americanos tinha a ousadia de ter esperança. As tendências de há mais de 25 anos podiam ter sido revertidas. Em vez disso, pioraram. Hoje, a esperança é vacilante". Não poderia ser mais claro.

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