Economia 25 de Abril: Retornados contam história 40 anos depois

25 de Abril: Retornados contam história 40 anos depois

40 anos depois, os retornados de África contam o regresso a Portugal depois do 25 de Abril de 1974. A revolução, com o fim da ditadura e a descolonização, provocou um afluxo de centenas de milhares de portugueses ao país, muitos vindos das "colónias". A Lusa foi ouvir quem veio de Angola e Moçambique.
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Lusa
Lusa 25 de abril de 2014 às 17:00

Leston Bandeira: "Aquela era a minha terra"

 

Leston Bandeira vivia no Lubango (antiga Sá da Bandeira) quando soube que "estavam a acontecer movimentações militares com consequências imprevisíveis" em Portugal.

 

Aquela "era uma terra pobre, apesar de se cultivar desde a banana à castanha" e de o distrito da Huíla ter "milhares e milhares de cabeças de gado", mas tinha três cinemas, boîtes e o mar a apenas duas centenas de quilómetros. "Vivia-se muito bem". Correcção: "Os brancos viviam muito bem".

 

A terra era rica, mas exclusivamente explorada por estrangeiros, sem benefício para a população local, num sistema "racista", no qual, "quando aparecia um branco, com a sua taleiga às costas, já estava no patamar superior".

 

As divisas do café e dos diamantes de Angola iam directas para o Banco de Portugal e Leston "estava cansado de ver os olhos tristes das pessoas" que viviam a seu lado, mas sem "as mesmas oportunidades".

 

Foi com estes pensamentos que o 25 de Abril o apanhou. Depois de se assegurar que não era apenas "mais uma golpada", recebeu a notícia com euforia e fez "uma festa".

 

Na esperança de construir "uma terra onde toda a gente" coubesse, Leston, nascido na Pampilhosa (Coimbra), decidiu ficar em Angola - "aquela era a minha terra" -, onde chegara com dez anos, com os pais e três irmãos.

 

Leston Bandeira sempre acreditou que um dia a agulha viraria no sentido da independência, mas acreditava que haveria "lugar para todos". Estava enganado, mas levaria tempo a percebê-lo.

 

Fez parte de "outra grande maioria" que ficou em Angola e que ajudou o novo país a fazer a transição entre o regime colonial e um poder independente.

 

Se locais houve onde as pessoas tiveram "alguma razão para fugirem", gerou-se um efeito de contágio sem "verdadeiramente motivo", avalia. Perante a "diferenciação das pessoas, de repente, tu és do MPLA, aquele é da UNITA, aquele é da FNLA", as pessoas ficaram sem saber o que fazer e "a primeira ideia que lhe veio à cabeça foi fugir".

 

Leston envolveu-se politicamente com o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e é eleito por uma assembleia geral de militantes, ficando responsável pelo departamento de informação da comissão política do partido no Lubango. "O MPLA teve uma adesão muito forte de brancos, gente esclarecida, que tinha lido sobre as várias descolonizações, mas tinha alguma esperança que Angola fosse diferente."

 

Desiludido com o MPLA, chegou à conclusão que "a festa não era para todos". Nunca imaginara que tivesse de acarretar com "a culpa de ser branco" e, na "hora certa" de um dia de 1977, volta a Portugal.

 

"O objectivo de todos os movimentos de libertação, incluindo o MPLA, o que me custa muito, era a expulsão dos brancos de Angola", lamentou.

 

Leston Bandeira deixa Angola, acompanhando a mulher, grávida, e guardando a recordação inesquecível do cheiro da terra molhada e dos bons tempos passados com centenas de amigos. Mas não sente saudades.

 

"Tenho saudades das pitangas, mas, agora, saudades de Angola? A Angola em que eu vivi já não existe. As cidades e tudo o resto é feito das pessoas que conhecemos (...). Agora, Angola é outra terra. Não estou a dizer que é pior ou melhor, é outra terra, já não é a minha Angola."

 

Margarida Pinto: "Foi a vida de trabalho do meu pai

e do meu avô que ficou perdida"

 

As raízes africanas de Margarida Pinto, nascida em Lisboa, remontam ao trisavô materno, que saiu de Chaves e foi para o Sul de Angola, onde o apelido de família deu nome a uma vila.

 

Quando o pai de Margarida geria as três roças, duas de café e uma de gado, que a família tinha na zona de Quicolongo e Camabatela, no norte de Angola, estas já contavam com mais de mil trabalhadores, hospital próprio e escola para os filhos dos funcionários, grande parte negros.

 

"Todos nos sentíamos muito angolanos", recorda Margarida. Os pais casaram-se em Lisboa, em 1951, mas foram logo para Angola, onde ficaram até 1970. Depois vieram uns anos para Portugal, mas, quando a mãe morreu, o pai decidiu voltar a Angola. Margarida ficou a terminar os estudos e juntou-se a ele pouco depois do 25 de Abril.

 

Em junho de 1975, a guerra entre os três movimentos independentistas estava instalada e Luanda vivia em "estado de guerra", entre patrulhas e metralhadoras.

 

Quando o pai se sentiu "em risco de vida", depois de ser assaltado dentro do carro, decidiu mandar a filha para Portugal, no dia seguinte.

 

Devido ao recolher obrigatório, não a podia acompanhar até ao aeroporto e Margarida parte sozinha, em direcção a uma ponte aérea. Tinha 15 anos.

 

A viagem estava marcada para as nove da noite de um dia de Junho de 1975. No aeroporto, tropas dos três movimentos exibiam metralhadoras e o ambiente era de "caos".

 

Às dez da noite, informaram os passageiros que, por causa de "um problema técnico", o avião "só descolaria, na melhor das hipóteses, às seis da manhã do dia seguinte" e que "iam fechar todas as salas do aeroporto".

 

O único "salvo-conduto" que Margarida tinha era o próprio bilhete de avião, de modo que a solução foi meter-se num táxi de volta para casa.

 

A meio da Avenida da Restauração, uma patrulha de soldados atinge a viatura com "uma rajada de metralhadora", mandando-o parar. "Foi uma situação horrível", recorda.

 

No dia seguinte, o avião levanta voo, num "cenário muito desagradável", embora num "espírito de entre-ajuda", recorda, contando que as pessoas partiam sem "rigorosamente nada" e "sem saberem o que ia acontecer", na "angústia" da ignorância sobre "o que é que as esperava" em Portugal.

 

Margarida sabe que foi privilegiada por ter família à espera em Portugal, onde "muitos nem casa tinham". Não precisou de recorrer ao Instituto de Apoio ao Retorno dos Nacionais (IARN) nem a outro tipo de apoios, porque a família mantivera morada em Lisboa. Mas viu-se sozinha, adolescente ainda, a ter de gerir uma casa. Tudo era "um ponto de interrogação" e não sabia quanto tempo ficaria sem ver o pai.

 

Regressar à metrópole foi "psicologicamente péssimo", porque "as pessoas em África são muito mais abertas, há outra sinceridade".

 

O pai regressa em Setembro de 1975, com "a perspectiva de ter perdido tudo o que tinha".

 

Duas semanas depois, as propriedades em Angola foram "confiscadas pelo Estado angolano" e as 30 mil cabeças de gado "abatidas a tiro" por soldados do MPLA.

 

Nunca recuperaram nada e nunca mais voltaram a Angola. Margarida ainda reclama "justiça" do Estado português, que, em 40 anos, não ofereceu "nenhuma compensação". O processo é um dos cerca de 80 mil que reclamam indemnizações pelos bens perdidos nas ex-colónias.

 

"Não houve vontade política", mas "esse dia tem que chegar", reivindica. "Foi a vida de trabalho do meu pai e do meu avô que ficou perdida", justifica.

 

Ana e Maria Gonzaga: "O que me custou mais foi não ter casa

e pensar que tive um grande palacete"

 

Africanas e negras, Ana e Maria Gonzaga deixaram Angola e nunca mais lá voltaram. À chegada a Portugal, não contaram com os apoios que o Estado concedia aos "retornados".

 

Nunca tinham estado na antiga metrópole e, na altura, estavam longe de saber que, afinal, até tinham um avô português.

 

Ana foi a primeira das irmãs Gonzaga a vir para Portugal, logo em 1975. Certo dia, depois de ir com o marido "fazer um frete" a Benguela, já não encontrou "filha nenhuma" em casa, no Longonjo. Ameaçadas de morte, as sete tinham fugido para Nova Lisboa (hoje Huambo) e entrado na ponte aérea.

 

Ana e o marido ainda tentaram ficar em Angola, mas acabaram por lá deixar "tudo, tudo". Ele, português branco, começou a ser alvo de racismo. "Começaram a desgostar dos brancos e dos mulatos", recorda Ana, hoje com 85 anos.

 

Ana e o marido cansaram-se das ameaças e voaram para Portugal, onde reencontraram as sete filhas, que haviam sido acolhidas por familiares, no Bairro do Fundo Fomento, agora conhecido como Vale da Amoreira.

 

Chegaram sem "nada, nem um alfinete, nem uma roupa". Tudo o que tinham era "dado" e Ana ia conseguindo "um quilito" de açúcar ou arroz na igreja que frequentava. "Dinheiro, nunca me deram nenhum", diz. Ana, hoje sozinha porque as filhas foram saindo de casa, vive com uma pensão de 242 euros.

 

Maria Gonzaga, mais nova dois anos, veio para Portugal só em 1980, já a ponte aérea tinha terminado. A sua vida deu uma volta com a "desgraça" que aconteceu à filha e ao genro, executados por "uns tropas" quando tentavam chegar a Luanda.

 

O neto de Maria sobreviveu ao ataque. Com três anos, "recuperou os sentidos e deixou-se ficar ao lado dos mortos, até amanhecer". Passou todo o dia na mata, entre os pais mortos, até ser encontrado por um homem, a quem contou tudo o que presenciara.

 

"O menino apanhou uma coronhada, mas Deus não o quis levar", acredita a avó. Foi "por causa desse menino" que Maria veio para Portugal, porque ele, "depois do que passou, não podia ver negros" que "fugia com medo".

 

Maria trouxe-o para Portugal e deixou-o com os avós paternos, regressando a Angola, porque não podia "deixar tudo" o que tinha "num abrir e fechar de olhos". Mas foi exactamente o que acabou por acontecer, pouco depois. "Deixei tudo o que tinha. Mas é tudo de tudo, não é casitas como isto, nem nada, boas casas... (...) Deixei lá quatro carros à porta, máquinas de costura, máquinas de lavar, fogões, dinheiro no banco. Vim-me embora com duas maletas na mão e duas filhas menores", relata.

 

Antes, agira como "uma heroína", conta. "Encontrava mortos na rua e, se fossem conhecidos, tinha um compadre que era cangalheiro, 'ó compadre, dê lá um caixão ou dois'. Enterrei muita gente", assegura.

 

À chegada a Portugal, teve de "trabalhar como criada". Nunca recebeu qualquer apoio do Estado. Uma máquina de costura foi a única coisa que recebeu. "O que me custou mais foi não ter casa. E pensar que tive um grande palacete e a viver quase na rua...", diz.

 

Maria olha em volta. Por ali, no Vale da Amoreira, "há já poucas casas" onde não tenha trabalhado, "sempre a passar a ferro e a limpar". Depois ocupou uma casa e exigiu ao Estado que lhe fixasse um pagamento. "Em 32 anos, nunca fiquei a dever uma renda", garante.

 

Cansou-se das lides domésticas nas casas dos outros e coletou-se para passar a vender fruta. Quando foi tratar do bilhete de identidade, descobriu um avô português na Torre do Tombo. Hoje, é portuguesa, tal como as filhas. Só os seus ossos sentem a falta de Angola. "Nunca me interessei mais em voltar para lá, tenho pena em ter deixado lá a minha mãe, o meu pai e tudo... mas o que mais me custou foi a minha filha e o meu genro, ela com 26 e ele com 30. (...) Nem tenho vontade de lá ir", diz.

 

Maria Arruda: "Trazia duas filhas e era isso que me trazia de lá

para cá"

 

Maria Guilhermina Arruda partiu para Angola muito antes da guerra, em 1955, em plenas campanhas de colonização, que povoavam as colónias com autóctones da metrópole, replicando as aldeias portuguesas.

 

Em 1955, Maria Guilhermina parte com o marido, os pais e outros familiares "para uma fazenda com uns campos para cultivar", onde o Estado lhes garantia casa e trabalho.

 

As muitas regras dificultavam a gestão no colonato e a agricultura também "não dava por aí além", de modo que, mal terminou o tempo do contrato firmado com o Estado, ela e o marido resolveram tentar a sorte noutras paragens, onde pudessem trabalhar um terreno que fosse seu.

 

Começaram do zero, sem água, nem luz, nem estradas, numa "casota" de madeira e tapada a capim. Mas a agricultura teimava em não querer nada com eles e, portanto, mudaram de rumo, para a criação de animais. Foi "uma vida muito dura", mas chegaram a ter 140 hectares, até que "um incêndio destruiu tudo" e ficaram na rua, sem nada, dependendo da "ajuda dos vizinhos nativos".

 

Mesmo assim, Maria Guilhermina ficou 20 anos em Angola, "a ver se tinha forças de ir para a frente". Foi tendo, até ao dia em que teve de fugir e deixar "tudo" o que tinha. "Não havia hipótese de continuar a viver lá, porque a luta estava a ficar forte", recorda. Passou a esperar lugar na ponte aérea, com as duas filhas, de 18 e 11 anos.

 

"A minha vinda para cá teve que ser, sem alguma coisa, sem nada, vim. Trazia duas filhas e era isso que me trazia de lá para cá, porque se eu fosse só com o marido até ficava com ele, assim tinha era que proteger as minhas filhas", justifica.

 

O marido ficou em Angola "o tempo todo à espera que as coisas melhorassem, mas nunca melhoraram". Morreu em 1993, com tudo perdido "na mesma".

 

Apesar de tudo, Maria Guilhermina acha que valeu a pena. "Angola foi uma terra que me ensinou muito. (...) Gostei de viver lá e se não fosse a guerra não me tinha vindo embora", garante. "Quando se tem filhos, temos que lutar por eles", diz.

 

Quando Maria Guilhermina chegou do aeroporto de Lisboa teve "a sorte" de ser transferida para o Hotel Eduardo VII, na Avenida Fontes Pereira de Melo, onde, durante três meses, pôde "comer e dormir", mas "era só".

 

"Cheguei contente por ter fugido de uma guerra, mas muito triste por regressar na forma em que regressei", explica. Maria Guilhermina encontrou um país "em desarranjo" e "a cair aos bocados", ao qual os "retornados" deram "uma ajuda", porque vinham "com vontade de trabalhar" e agarraram "o que pudessem".

 

Cristina Abreu: "Era completamente moçambicana"

 

Um mês antes da independência, o cenário em Lourenço Marques (actual Maputo) era de "horror", com as pessoas "completamente apavoradas" e, por isso, Cristina Abreu decidiu deixar Moçambique.

 

À medida que os movimentos independentistas entravam "pela cidade adentro, a queimarem os carros e as pessoas", Cristina apercebeu-se de que o país onde nascera e sempre vivera "já não" era o seu.

 

À porta da agência de viagens, propriedade da família, formavam-se "bichas constantes" de habitantes que queriam comprar bilhetes só de ida.

 

Cristina Abreu partiu com o marido para as ilhas Seychelles, porque queria continuar em África. A irmã e os pais, todos nascidos em Moçambique, ficaram em Lourenço Marques, no meio de "muitos problemas".

 

Quando os empresários moçambicanos passaram a estar "em risco de serem presos", o pai juntou-se-lhes nas Seychelles, onde chegou "com a cabeça completamente coberta de cabelos brancos", lembra Cristina. A mãe foi a última a sair de Moçambique, "porque queria juntar alguns tarecos".

 

Os negócios nas Seychelles "não correram muito bem" e acabaram por vir para Portugal. Aos 22 anos, Cristina viu-se na dependência dos sogros, "conservadores", um "grande choque" para quem já era, na altura, "super independente".

 

Não se sentia portuguesa e o rótulo de "retornada" não se ajustava. Ela não estava a voltar, porque nunca fora dali.

 

"Era completamente moçambicana", distingue. Quando chegou a Portugal, pensou que "tinha passado (...) para um sítio" com anos de atraso. "Achava isto uma parvónia", reconhece.

 

A adaptação foi "um bocado difícil", porque a "mentalidade africana é muito diferente" da que encontrou em Portugal.

 

Para os pais, "foi uma coisa horrível". O pai tinha começado do nada e, quando teve de sair de Moçambique, tinha dois hotéis, duas agências de viagem e um safari "para gente rica". Ficou lá tudo.

 

"Todo o trabalho do meu pai, durante anos e anos e anos, ficou lá, sem indemnizações, sem absolutamente nada, sem um tostão, foi muito complicado", recordou Cristina.

 

Além do "trauma", os pais chegaram a Portugal "de mãos a abanar" e "sem dinheiro nenhum".

 

O pai vê-se forçado a ir procurar trabalho no Brasil e só quase aos 60 anos arranjará "um bom emprego" na hotelaria portuguesa.

 

"Portugal entregou de mão beijada as colónias" e fez "uma maldade inacreditável" aos portugueses que lá viviam, concluiu.

 

Parcídio Costa: "Eu, de facto, não sou bem é de lado nenhum"

 

Parcídio Costa tinha quatro anos quando, em 1960, saiu de Lisboa em direcção a Tete, acompanhando o pai, engenheiro contratado para o Gabinete de Planeamento do Zambeze, responsável pelo estudo da construção da Hidroeléctrica de Cahora Bassa.

 

"Objectivamente", não conhecia Portugal e, por isso, foi com curiosidade que visitou o país onde nascera, logo em junho de 1974. Aproveitando as férias, veio ver ao vivo o que significara a revolução.

 

"Adorei ter vindo aqui a Portugal. Lisboa fervia, na altura, de vida, de alegria. Andar na rua em Lisboa era ótimo, viam-se as pessoas felizes, soltas, libertas, aquela efervescência do pós-25 de Abril", relatou à agência Lusa.

 

As férias acabaram e Parcídio Costa regressou a Moçambique, acreditando que lá poderia continuar a "vida muito fácil" e o "quotidiano sem problemas", ainda que consciente de ter estado do lado dos "mais privilegiados".

 

Parcídio Costa "não tinha amigos pretos", nem se cruzava com eles no seu dia a dia. Mesmo entre brancos, a sociedade colonial de Lourenço Marques (hoje Maputo) era "classista" e "estratificada", havia liceus para uns e para outros.

 

"Aquele regime colonial onde eu, apesar de tudo, vivia feliz e contente e muito bem, para mim sempre foi claro que era uma enorme indignidade", reconheceu.

 

Não porque a independência de Moçambique não lhe fosse "uma ideia simpática e justa", mas porque o seu "pequenino mundo em Lourenço Marques colonial" estava a desaparecer, Parcídio Costa decide, a reboque dos amigos que deixavam o país, regressar a Portugal em fins de 1975, para continuar os estudos.

 

Mas depressa percebe que tinha vindo "atrás de uma impossibilidade, que era continuar a vida de Moçambique em Portugal".

 

O que encontrou não era o seu mundo. "Não gostei nada de estar aqui", confessou, recordando aquele ano em que foi ficando "cada vez mais desencantado".

 

Em Janeiro de 1977, decidiu voltar a Moçambique, onde o pai tinha ficado.

 

"Com as certezas que temos nessas alturas, regressei e o mundo acabava ali e era ali que eu ia ficar o resto da minha vida. Adquiri até a nacionalidade moçambicana", contou.

 

Embora sem militância política activa, Parcídio Costa não tinha "nenhum 'parti pris'" em relação à independência da antiga colónia, que acolheu "com alegria", desenvolvendo até um "enorme fascínio" pelo "discurso antirracista da nova realidade moçambicana", dominada pela Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, hoje no governo).

 

À medida que o tempo foi passando, as "ingenuidades foram morrendo" e "tudo mudou" entre 1977 e 1985.

 

"Todo um conjunto de utopias que me fizeram voltar a Moçambique e que me faziam sentir bem em Moçambique... começou a haver um desencanto, tudo isso também foi ruindo... e depois aquela guerra civil (...) foi uma coisa dramática, tornou-nos a vida cada vez mais difícil", justificou.

 

O pai regressara a Portugal em 1981, mas Parcídio Costa ainda ficaria mais quatro anos. "Cansadíssimo" de Moçambique, resigna-se a voltar também para Lisboa, onde estavam família e amigos.

 

"Se tenho recordações e memórias de tempos muito bons de vida? Tenho, tanto lá como cá. Essa nostalgia do Moçambique antes da independência, enquanto valor (...), não tenho", descreve, sem grandes apelos de nacionalidade. "Eu, de facto, não sou bem é de lado nenhum", resume, garantindo que vive bem com isso.




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