Agricultura e Pescas Afinal, há mais ou menos sardinha no mar?

Afinal, há mais ou menos sardinha no mar?

O stock de sardinha aumentou de forma muito significativa, mas o número de juvenis caiu a pique. O próximo cruzeiro científico do IPMA será fundamental para se perceber o que está a passar-se com a sardinha e o que vai acontecer à pescaria.
Afinal, há mais ou menos sardinha no mar?
Pedro Noel da Luz/Correio da Manhã
Manuel Esteves 05 de março de 2018 às 22:00
Numa altura em que Portugal e Espanha ainda não conseguiram o acordo de Bruxelas para o plano de gestão da sardinha, surgem dados contraditórios sobre a situação do peixe nas águas portuguesas. Citando dados do último cruzeiro científico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), os pescadores chamaram a atenção para o aumento da biomassa da sardinha nos mares nacionais, apresentando – o como um resultado da redução da pesca e como um sinal de que não se justificam mais restrições.

Com efeito, a biomassa (o peso da sardinha no mar) passou de 57 mil para 120 mil tonelada entre Dezembro de 2016 e Dezembro de 2017, o que corresponde a uma duplicação do stock. Porém, esta é só uma parte da história. O mesmo cruzeiro científico concluiu que os níveis de recrutamento (peixes com idade inferior a um ano) caíram de forma abrupta. O número de espécimes juvenis (com menos de um ano) passou de 21 mil toneladas para 8,4 toneladas, ou seja caiu para menos de metade. E este indicador é considerado central na avaliação da sustentabilidade da espécie e na definição dos planos de pesca. 

Estes dados contraditórios deixam duas hipóteses no ar: no cenário bom, houve um atraso no recrutamento, com a reprodução da espécie a acontecer mais tarde do que o habitual; ou então, no cenário mau, verificou-se mesmo uma enorme quebra no número de juvenis o que, a confirmar-se, deverá agravar ainda mais as restrições aos barcos de pesca.

Quanto ao aumento do stock de peixe "adulto", é possível que este esteja relacionado com migrações de peixe, oriundo das águas de Marrocos, possivelmente motivadas pelas alterações climatéricas.

Todas estas dúvidas deverão ficar dissipadas até Junho. No início de Abril sairá para o mar um novo cruzeiro que deverá apresentar os primeiros resultados ao fim de três meses, devendo estar disponíveis os resultados finais no início de Julho. Serão estes dados que servirão de barómetro para a recomendação do ICES (o organismo científico que aconselha a Comissão Europeia sobre esta matéria) que deverá ser conhecida no próximo Outono.

Recorde-se que, tal como noticiou o Negócios, este organismo afirmou em Julho que, à luz dos novos valores de referência, o plano de gestão da sardinha de Portugal e Espanha "não é precaucionário, nem no curto nem no longo prazo". E foi nessa altura que avançou com a necessidade de se suspender a pesca durante 15 anos de modo a colocar o stock de sardinha acima do limite de biomassa desovante adequado.

Mais tarde, no parecer divulgado em Outubro do ano passado, o ICES reiterou o diagnóstico de enorme escassez de sardinha nos mares ibéricos, recomendando a suspensão total da pesca em 2018.

O cenário de suspensão total da pesca foi, desde sempre, afastado liminarmente pelo Governo que, em conjunto com o executivo espanhol, apresentou um plano de gestão da sardinha à Comissão Europeia, que está em avaliação. As negociações ainda decorrem estando Portugal e Espanha autorizados a pescar 7,3 mil toneladas até final de Julho.



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