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“Centrar a estratégia face à Europa na restruturação da dívida é erro grave”

Vítor Bento diz que a redução da dívida pública não é o problema central. Se é preciso convencer a Europa e a Alemanha a fazer alguma coisa, não é a perdoar dívidas; é a mudar de políticas para reduzir os excedentes externos nos países do "centro". Com isso, haverá condições para mais investimento e um euro menos forte, mais favorável às exportações.

Negócios 16 de Abril de 2014 às 18:52
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“Querer centrar a estratégia nacional face à ‘Europa’ na restruturação da dívida parece-me um erro grave, quer de análise da realidade, quer de percepção sobre o essencial e o subsidiário. É, portanto, um grave erro de prioridades”, escreve Vítor Bento no “Diário Económico”.

 

Para o economista e conselheiro de Estado, que participou no grupo de trabalho europeu que avaliou a possibilidade de mutualizar dívida e lançar eurobonds, a dívida pública portuguesa é um “problema grave e difícil de resolver”, mas “não é o principal problema do país, nem é de impossível ou insuportável resolução”. E “nem deverá ser a primeira prioridade para pressionar mudanças na política europeia”, escreve, em contramão com os signatários do Manifesto pela reestruturação da dívida.

 

“O problema principal do país é conseguir taxas de crescimento que lhe assegurem a estabilidade financeira sem demasiados custos sociais e permitam satisfazer as expectativas de melhoria social da população”. E para isso, diz, Portugal devia bater-se por mudanças na política económica da Zona Euro que conduzam os países do centro a expandir a sua procura interna.

 

Escreve o economista que o facto de a correcção dos défices externos na periferia não ter sido acompanhada de uma redução dos excedentes – o que sucedeu designadamente na Alemanha – fez com que  balança da Zona Euro com o resto do mundo se tenha tornado excendentária, quando estava relativamente equilibrada até ao início da crise. Esta situação pressionou ainda mais em alta o valor do euro, com consequências adversas mais imediatas para as economias dos países periféricos excessivamente endividadas, que têm de crescer puxadas pelas exportações. Mas a prazo, avisa, toda a Zona Euro se ressentirá.

 

"O excedente global pressiona a apreciação do euro criando um ‘loop’ adverso sobre os países periféricos. Estes, para recuperarem a competitividade perdida na década anterior à crise, têm que baixar os custos internos. À medida que esse ajustamento se reflecte na melhoria da sua balança externa e porque os países excedentários não fazem o seu próprio ajustamento, tal melhoria fortalece o euro, acabando por lhes minar (cambialmente) a competitividade, forçando-os a ter que voltar a baixar os custos. Não é difícil perceber como este ‘loop' tem um efeito deflacionário e, portanto, contraccionista em toda a Zona Euro”.

 

É aqui, conclui o economista, que a discussão em Portugal se deveria centrar. “Tanto mais que, nesta discussão, temos a vantagem moral que nos falta na outra”, acrescenta, numa referência implícita aos pedidos de alívio da dívida.

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