Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

César das Neves: "É óbvio que os cortes têm de regressar"

Em certas dimensões, Portugal está pior do que em 2008 ou 2011, a probabilidade de segundo resgate para a banca está a ganhar força e, no Estado, é já óbvio que a austeridade terá de ser retomada, escreve o professor de Economia da Católica no DN.

Marisa Cardoso / Sábado
Negócios 05 de Maio de 2016 às 10:59
  • Assine já 1€/1 mês
  • 75
  • ...

João César das Neves considera que a probabilidade de segundo resgate para a banca está a ganhar força e que, no Estado e nas políticas públicas, é já óbvio que a austeridade terá de ser retomada, não obstante o discurso de "ficção" do governo e de analistas que parecem ignorar "o desastre em progresso". "Portugal estagnou. Investimento e poupança em mínimos históricos, banca em momentos aflitivos, crescimento anémico. Em certas dimensões estamos pior do que em 2008 ou 2011. O mais espantoso é como dirigentes e analistas parecem ignorar o desastre em progresso, mergulhados em temas laterais".


Em o "Império de ficção", artigo de opinião que publica nesta quinta-feira no Diário de Notícias, o professor de Economia da Universidade Católica lamenta que o debate político permaneça "no reino da ficção", a alimentar a ilusão de que se estão a partilhar "despojos de uma prosperidade que realmente não existe".


"O fim do programa de ajustamento, em Junho de 2014, exigiu nova adaptação ao mito básico. Terminada a vigilância externa, anunciou-se a reversão de todos os cortes. Qualquer observação séria mostraria como isso implicava um regresso impossível aos gastos ruinosos", escreve. Porquê? "Não só o mundo já não está disponível para nos emprestar como nos tempos áureos do endividamento, mas persistem fortes cancros financeiros, que a austeridade não conseguiu extirpar, e que se vão traduzindo em sucessivas crises bancárias. A urgência de um segundo resgate, pelo menos para as instituições de crédito, torna-se crescentemente provável", antecipa.

Contudo, diz, a narrativa dominante ainda persiste em negar a realidade. "Chega a ser patético ver a ânsia com que se prometem impossibilidades e atribuem magras benesses a certos privilegiados, tomando essas ninharias como fim da austeridade. Que, muito em breve, terá de ser retomada. Entretanto, empresas e crescimento são vistos apenas como caça para o fisco esquartejar no banquete dos grupos de pressão. É isso que mata o investimento e o futuro. Assim, não admira a estagnação".


Este caminho – acrescenta – "não conseguirá evitar novo colapso". "Que os cortes têm de regressar, é já óbvio. A única dúvida de momento é se Portugal estará completamente viciado na ficção, ou se estas propostas políticas representam os últimos estertores de um mito morto", escreve, referindo-se aos 15 anos em que Portugal está a viver de empréstimos – o que explica "a enorme dívida externa, pública e privada, uma das maiores do mundo, que nos assombrará durante décadas"  - e ao facto de, entretanto, o país ter-se acostumado a uma vida insustentável, com as novas gerações a "acharem normal ter aquilo que os estrangeiros pagavam".

Ver comentários
Saber mais João César das Neves cortes austeridade resgate banca Diário de Notícias Negócios opinião programa de estabilidade Orçamento do Estado Conselho Finanças Públicas Comissão Europeia
Outras Notícias