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Divididos entre Irmandade e exército, egípcios receiam guerra civil

O Negócios falou com quatro cidadãos egípcios. Denominadores comuns: são qualificados, detestam a Irmandade Muçulmana e receiam uma guerra civil.

Reuters
Carla Pedro cpedro@negocios.pt 21 de Agosto de 2013 às 22:00
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O Egipto pode estar à beira da guerra civil. Esta é a convicção de cidadãos anónimos ouvidos pelo Negócios, através da rede social Facebook. Oriundos da classe média, com boas qualificações, mostram-se abertamente hostis à Irmandade Muçulmana e compreendem a reacção do exército.

"Estamos prontos a morrer pelo país, a Irmandade Muçulmana presenteou-nos com a unidade contra eles", esclarece Lamia Loutfi, que vive no Cairo. Em 2008, na sua tese de graduação, previu as revoluções árabes que ocorreram sobretudo em 2011. E considera que o povo subestimou a Irmandade Muçulmana. "Não tardou a que começassem a manipular os votos da maioria ignorante", disse esta mulher que trabalha há 15 anos na área da gestão de comunicação.

A solução para esta crise poderá passar pelo regresso a um tipo de regime como o da era Hosni Mubarak, diz Shannon A., cujo perfil no Facebook mostra uma mulher envergando o típico hijab.

"Não vejo grandes possibilidades de paz… só um ditador pode governar este país, numa altura em que há tanta gente com sede de ir ao pote do poder. E assim que as pessoas vejam que não temos possibilidade de paz, aprenderão a aceitar isso, tal como fizeram no tempo de Mubarak". Mas será esse o defecho? Não sabe… "Com esta última revolução e com o golpe militar, penso que acabaremos por mergulhar numa guerra civil e ficar numa situação muito semelhante à do Iraque".

O médico Kareem (nome fictício por questões de segurança), está também bastante preocupado com uma possível guerra civil no país. "As coisas estão verdadeiramente más e a deteriorar-se. No meu ponto de vista, como médico, quando a coisa que menos valor tem na vida é a nossa vida como ser humano, nada está seguro."

"A Irmandade Muçulmana não pode ser chamada de terrorista, mas sim ‘radical’. Como todas as religiões no mundo, eles querem provar que existem e querem proteger a sua existência. E obviamente que quando são ameaçados de morte, combatem também até à morte", sublinha. Por outro lado, acrescenta Kareem, "os militares, que estiveram no poder durante mais de 60 anos, querem provar o seu valor para se manterem no poder, recorrendo a uma forte propaganda e aos media para mostrarem apenas um lado da história (neste caso, os soldados assassinados), independentemente do facto de os usarem como peões.

Para este médico de Alexandria, o cenário mais provável é o de guerra civil, com os militares no poder e a Irmandade em luta na clandestinidade. Altamente improvável para este médico é um acordo entre as duas partes ou um eventual regresso da Irmandade ao poder.

"Pessoalmente, acredito mais no segundo cenário, se bem que seja o pior, porque acho que é um cenário que está a ser fortalecido por dinheiro de fora (países em redor), especialmente por parte de quem não quer ver qualquer desenvolvimento no Egipto, de modo a que as suas próprias economias fiquem protegidas".

Ahmed Yousif, jornalista que trabalha para o canal televisivo de cultura do Nilo, diz que a maioria do povo está "zangada" com a posição formal da Europa contra o Egipto, porque os Islamistas e a Irmandade Muçulmana exercem práticas terroristas no país. Por isso, precisamos de falar com a Europa. Amamos a paz. Ajudem-nos a ganhar a guerra contra o terrorismo". E deixa uma advertência: "Se a Europa ajudar a Irmandade Muçulmana, isso significa que o terrorismo acabará por chegar à Europa".

Por agora, o mundo continua de olhos postos no Egipto. E por lá, a esperança de muitos opositores da Irmandade Muçulmana recai no general Sisi., comandante do exército egípcio. "Gostamos do nosso exército e do general Sisi porque ele só quer combater o terrorismo da Irmandade Muçulmana", diz Ahmed. Lamia concorda, já Kareem tem as suas dúvidas...

 

Os acontecimentos-chave da crise política no Egipto

11 de Fevereiro de 2011

Após 18 dias de manifestações, Mubarak renuncia à presidência.

 

24 de Junho de 2012

Mohamed Morsi, da Irmandade  Muçulmana, vence as presidenciais.

 

22 de Novembro de 2012

Crise política desencadeada por decreto em que Morsi coloca os seus poderes acima do controlo judicial.

 

8 de Dezembro de 2012

Morsi desiste de alargar poderes, mas mantém projecto de nova Constituição, vista como uma traição aos ideais que derrubaram Mubarak.

 

30 de Junho de 2013

Grandes manifestações contra Morsi.

 

3 de Julho de 2013

Exército, liderado pelo general Fatah Al-Sisi, anuncia deposição de Morsi.

 

Agosto de 2013

Confrontos entre apoiantes e opositores de Morsi agudizam-se e número de vítimas mortais cresce diariamente.

 

18 de Agosto de 2013

General Sisi diz que o país não cederá à violência dos islamistas.

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