Empresas Elisa Ferreira: de Estrasburgo para Lisboa com mala sempre feita para Frankfurt

Elisa Ferreira: de Estrasburgo para Lisboa com mala sempre feita para Frankfurt

Primeira doutorada em Economia da Universidade do Porto, professora universitária, ministra por duas vezes e eurodeputada há mais de uma década, Elisa Ferreira prepara-se agora para, aos 60 anos, liderar no Banco de Portugal a Supervisão Prudencial no sector financeiro.
Elisa Ferreira: de Estrasburgo para Lisboa com mala sempre feita para Frankfurt
Paulo Duarte/Negócios

Elisa Maria da Costa Guimarães Ferreira nasceu em 17 de Outubro de 1955 no Porto, a cidade e a região onde concentrou boa parte da sua carreira académica e profissional. "Uma cidade com uma vida, ambição e orgulho muito próprios, que se revelaram fundamentais para encontrar o rumo certo para a minha vida profissional", lê-se no seu perfil no Facebook. Em 1977 licenciou-se na Faculdade de Economia do Porto, onde passaria a dar aulas e de que viria a ser a primeira aluna doutorada.


A vida familiar – a profissão dos pais e a ligação do avô materno à indústria têxtil – cedo a empurrou para o mundo dos números, como revelou numa entrevista ao Jornal de Negócios em 2009. Em Redding, no Reino Unido, prosseguiu a sua formação académica, mas já com os olhos postos na Europa. Em 1981, na pós-graduação, estudou o impacto na economia portuguesa da integração do país na então CEE, tema que aprofundou três anos mais tarde no doutoramento em torno do que se poderia esperar da estrutura e evolução futura do investimento directo estrangeiro em Portugal.


É nesse novo contexto europeu do país que Elisa Ferreira se envolve em projectos regionais de gestão de recursos hídricos e de desenvolvimento integrado, nomeadamente no Vale do Ave. Entre 1989 e 1992, entre os segundo e terceiro governos de Cavaco Silva, assume a vice-presidência da Comissão de Coordenação da Região Norte (entidades por onde passavam, à época, boa parte da gestão dos fundos comunitários) e chega a vogal do Instituto Nacional de Estatística.


Em meados da década de 90, quando o cavaquismo governativo estava no seu estertor, assume-se como "extraordinariamente crítica" do então primeiro-ministro. Começava aí a caminhada político-governativa. Posicionada à esquerda no espectro partidário - "Considero-me de esquerda, mas nunca me filiei, nunca fui presa, não tenho esse tipo de militância"-, é desafiada em 1995 por António Guterres para integrar o Governo. Quando pensou que chegava o "momento da mudança", participou nos Estados Gerais onde se conformaram as linhas do Executivo socialista.

É nesse primeiro Governo da "Nova Maioria" que ocupa a pasta do Ambiente, assumindo um dos dois únicos ministérios com mulheres titulares – o outro era a Saúde, com Maria de Belém Roseira (Maria João Rodrigues juntar-se-lhes-ia mais à frente nesse mandato).

Em 1997, a questão da co-incineração nas cimenteiras de Maceira e Souselas trá-la para o palco mediático, tal como aconteceria com o seu secretário de Estado e mais tarde seu sucessor no Ministério, o futuro primeiro-ministro José Sócrates.

"Aprecio que façam contributos, críticas, que dêem sugestões. Mas tenho dificuldade em não seguir aquilo que intimamente acho que devo fazer. Portanto, não faço muitas cedências", confessava nessa entrevista ao Jornal de Negócios.

De 1999 a 2002, quando o país entrava a passos largos no "pântano político" que levaria ao fim do segundo Governo Guterres, Elisa Ferreira muda de pasta, para o Planeamento, onde coloca em andamento o terceiro Quadro Comunitário de Apoio. Em 2002, nas eleições legislativas antecipadas que dariam a vitória a Durão Barroso, bate-se pelo círculo eleitoral de Braga, onde tinha como adversário um antigo governador do Banco de Portugal, Tavares Moreira.

Nos dois anos que se seguem será deputada no parlamento português, sendo vice-presidente da bancada socialista. Em 2004, com Ferro Rodrigues como líder socialista, integra pela primeira vez a lista ao Parlamento Europeu ao lado de António Costa - o actual primeiro-ministro e que na altura era número dois na lista liderada por António Sousa Franco, ex-ministro das Finanças, que morreu em plena campanha.

Pelo meio, trava uma campanha para a liderança da Câmara do Porto, nas autárquicas de Outubro de 2009. Apesar do apoio de peso de Pinto da Costa – possivelmente até mais firme do que o de Sócrates, então líder do PS –  não conseguiu evitar o terceiro mandato de Rui Rio e recusou ficar como vereadora na Câmara.


Regressa então ao palco europeu, onde passa a liderar o grupo socialista europeu na poderosa Comissão dos Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu, onde tem sido uma das vozes mais impacientes com a persistência de paraísos fiscais e de práticas fiscais agressivas no seio da própria União Europeia que, defende, configuram a uma deslealdade inaceitável entre países aliados. A reboque dos "Panama Papers", a sua mais recente intervenção pública é precisamente um artigo de opinião no Público com um título que diz quase tudo: "É preciso acabar com os paraísos fiscais, começando pelos da UE"



É europeísta, sim, mas não gosta do que vê à volta. Falando sobre o euro, concluiu recentemente que a moeda única criou "um pequeno grupo de ganhadores, a Alemanha e poucos mais, e um grande grupo de perdedores, em especial toda a Europa do sul". Foi ainda uma crítica feroz dos métodos de trabalho da troika que, em seu entender, deveria ter sido forçada a prestar contas pelas suas opções aos parlamentos dos países assistidos e ao Parlamento Europeu.


A rampa de lançamento que levou longe o seu nome na Europa e que agora lhe terá aberto as portas no Banco de Portugal chamar-se-á, porém, União Bancária.  A até agora eurodeputada do PS liderou a equipa do Parlamento Europeu que chegou a entendimento com os Governo da União Europeia sobre as regras de "bail-in" e o mecanismo único de resolução dos bancos. A união de garantia comum de depósitos ficou adiada, mas Elisa Ferreira foi osso duro de roer. Que o diga o ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble. Nessa tarde de 21 de Março de 2014, em que foi selado um acordo ao mais alto nível, Pedro Passos Coelho – que nestas negociações esteve na barricada oposta à de Berlim – fez questão de lhe prestar homenagem. "Quero salientar o papel muito relevante que, do lado do Parlamento Europeu, foi conduzido por uma deputada portuguesa, Elisa Ferreira - relatora da assembleia -, com a qual o Governo português colaborou de uma forma muito próxima e com bons resultados", disse o então primeiro-ministro.



Há escassos meses, terá sido convidada por António Costa a integrar o actual governo. Confrontada com esse rumor, nunca o negou. "Não falo de convites em geral", mas "desguarnecer a agenda europeia para concentrar todos os meios em Portugal é errado", respondeu ao Negócios.



Regressando a 1999, à entrevista ao Negócios, Elisa Ferreira apontava duas características suas: a resistência e a conciliação. "Sempre tive a noção de que tinha de ser resistente. Resistente à vida. Que podia ficar sozinha. Fui treinada para isso", afirmou então, revelando também a forma como tenta resolver os conflitos: "Acho que sou bastante conciliadora até um determinado momento. E sou capaz de grandes rupturas. Não quero uma conciliação a todo o custo".



Características que provavelmente terá de pôr a uso nas suas próximas funções, como vice-governadora do Banco de Portugal, numa altura em que continua na ordem do dia o debate sobre o papel e a eficácia dos reguladores no sector financeiro. Nessa qualidade, passará a ser visita frequente ao quartel-general do Banco Central Europeu (BCE) onde a sua interlocutora será também uma mulher, a francesa Danièle Nouy, que preside ao comité de supervisão único para os maiores bancos que apresentam risco sistémico. Nascida no Porto, Elisa Ferreira vem de Estrasburgo para Lisboa, mas terá de ter sempre uma mala pronta para a pegar a ponte-área – também para Frankfurt.




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