Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Notícia

Embaixador defende que EDP nos EUA não será vendida à China Three Gorges

O embaixador dos EUA em Portugal defende que o negócio das renováveis da EDP nos EUA não vai estar no negócio entre a portuguesa e a China Three Gorges. George E. Glass alerta para a entrega de "infra-estruturas críticas" de um país a outras economias.

George E. Glass, natural de Oregon, é embaixador dos EUA em Portugal desde Agosto de 2017. Lusa
Diogo Cavaleiro diogocavaleiro@negocios.pt 04 de Setembro de 2018 às 09:45
  • Assine já 1€/1 mês
  • 8
  • ...

É uma palavra norte-americana a opor-se à proposta de aquisição da EDP pela sua maior accionista, a China Three Gorges. O embaixador dos Estados Unidos em Portugal, George E. Glass, deu uma entrevista ao Observador e defendeu que o negócio da portuguesa nos EUA não vai constar da venda ao grupo estatal chinês. 

 

A EDP "tem activos muito importantes nos Estados Unidos, no sector das renováveis, é o terceiro maior fornecedor de energia renovável nos Estados Unidos. Esse pedaço não vai estar incluído neste negócio", afirmou Glass ao Observador.

 

Esta é a confirmação de reticências americanas à operação lançada pela empresa estatal chinesa. As ofertas públicas de aquisição da CTG sobre a EDP e a Renováveis obrigam a duas autorizações nos EUA: da comissão reguladora de energia dos EUA (FERC) e do comité de avaliação de investimentos estrangeiros (CFIUS), presidido pelo secretário do Tesouro, cargo ocupado por Steven Mnuchin. 


A própria gestão da EDP Renováveis, liderada por António Mexia e por João Manso Neto, já assumia, em Junho, que os EUA poderiam chumbar a entrada da China Three Gorges naquela economia, ou impor fortes obstáculos, caso houvesse uma avaliação à luz da defesa da segurança nacional. Aliás, a possibilidade de este negócio falhar na economia americana tem levado a China Three Gorges à procura de compradores para os activos americanos da Renováveis, como já noticiou a Reuters.


A actividade americana representa praticamente metade de toda a operação da EDP Renováveis (ainda esta terça-feira foi anunciado mais um negócio nos EUA), pelo que qualquer alienação desta operação poderá alterar o perfil do próprio grupo eléctrico, uma perspectiva que se agrava com a possibilidade de a portuguesa adquirir activos da China Three Gorges no Brasil. A OPA pode, assim, mudar a EDP, como assume a sua administração liderada por Mexia.

 

Contra controlo externo de infra-estrutura crítica

"Ter outro país a controlar parte da infraestrutura crítica é um aspeto perigoso, é um caminho perigoso que se está a trilhar". George E. Glass, ao Observador

A ideia de que um outro país, seja a China ou os Estados Unidos da América, pode controlar a rede eléctrica de Portugal, ou de qualquer outro país, é um caminho perigoso, defende o embaixador norte-americano em Portugal, George Glass, na referida entrevista concedida ao Observador. "Ter outro país a controlar parte da infra-estrutura crítica é um aspecto perigoso, é um caminho perigoso que se está a trilhar", concretiza.

 

"Neste caso [da OPA sobre a EDP] são empresas estatais do governo da China a investir na infra-estrutura de Portugal", continua Glass, dizendo que a transacção "causou um efeito dominó no reconhecimento sobre o que está a acontecer com as empresas detidas pelos Estados, sejam chinesas sejam de outro lado qualquer".

 

Neste momento, a China Three Gorges detém 23% do capital da EDP, querendo ficar com a totalidade do seu capital. A participação actual não é vista com preocupação: "Deter 25% da Galp, deter 25% da EDP, seja quem for, não há problema. Isso são investimentos. Podem criar influência e as várias entidades podem ter influência", diz o embaixador norte-americano, acrescentando que é muito diferente quando se fala em 100% do capital.

Em Julho, e em declarações à Lusa, Glass já tinha colocado o tema no panorama político e não tanto comercial. "Uma entidade estatal comprar uma parte de uma empresa é uma coisa, é um investimento". "A compra de uma empresa toda e com importância crítica nas infraestruturas é diferente: é política", diz o embaixador dos EUA, país que tem vindo a dinamizar uma política comercial agressiva em relação a economias que considera actuarem de forma desleal, onde inclui a China. 

A Comissão Europeia, por sua vez, já se posicionou em relação à operação: "a Comissão dispõe de poucos instrumentos para intervir em tais casos e não pode analisar casos individuais de investimento directo estrangeiro e os seus potenciais riscos relativamente à segurança e ordem pública ao nível europeu", respondeu o presidente, Jean-Claude Juncker, numa carta aos deputados ao Parlamento Europeu Ana Gomes e Elmar Brok. Bruxelas colocou o negócio nas mãos dos reguladores. 

 

Conversas com um Governo confortável


O investimento chinês na EDP, e daí nos EUA, já foi tema de reuniões entre o embaixador e vários membros do Executivo: "Mantivemos discussões a todos os níveis do governo". "Claro que já manifestei essas preocupações. E fizemo-lo em privado e publicamente".

 

"Tal como todas as coisas no Governo, ‘isso depende’", foi a resposta recebida por George E. Glass nessas diligências, segundo confidencia ao Observador. De qualquer forma, o embaixador ressalva que o Executivo está confortável. "O Governo considera que tem uma longa história de transacções, especificamente com a China, e têm sido parceiros há séculos, há 400 ou 500 anos, e talvez estejam um pouco mais confortáveis com esta situação do que nós. Daí o nosso tom de advertência", conta.

 

Foi a 11 de Maio que a China Three Gorges assumiu que queria ficar com a totalidade da EDP e com toda a EDP Renováveis. As operações têm um grande leque de autorizações regulatórias para que se venham a concretizar.

Para já, as administrações das cotadas nacionais já se pronunciaram negativamente em relação ao preço oferecido. No caso da EDP, os chineses querem pagar 3,26 euros por acção, o que é visto como uma contrapartida baixa pelo conselho de administração. Na Renováveis, a recomendação é de rejeição do preço, de 7,33 euros, o mínimo que a empresa poderia ter de despender.

Ver comentários
Saber mais EUA EDP Renováveis embaixador dos Estados Unidos China Three Gorges Brasil George E. Glass EDP António Mexia João Manso Neto
Outras Notícias