Eleições Empregos e família quebram "telhados de vidro" entre Costa e Rio

Empregos e família quebram "telhados de vidro" entre Costa e Rio

Em matérias económicas, os líderes do PS e do PSD só divergiram – e em tom leve e cordato – quanto ao modelo de crescimento a adotar. No debate das rádios, o favorito socialista deixou aviso à administração da TAP.
Empregos e família quebram "telhados de vidro" entre Costa e Rio
Lusa
António Larguesa 23 de setembro de 2019 às 11:39

Os contratos e as nomeações envolvendo os aparelhos partidários e as famílias dos políticos, incluindo os casos judiciais que arrastaram no PS e no PSD, foram os temas de maior tensão no debate desta manhã entre António Costa e Rui Rio, organizado e transmitido em simultâneo pela Antena 1, pela Renascença e pela TSF.

Confrontado com os vários episódios que envolveram a escolha de pessoas para o Executivo e os contratos públicos e ajustes diretos feitos com empresas de familiares, o secretário-geral do PS começou por lembrar que "a figura do arguido não é nem uma acusação, mas um estatuto que a pessoa goza para reforçar os seus direitos [de defesa]", concluindo que "não [demite] alguém por ser arguido".

 

No caso das golas inflamáveis, que levou nos últimos dias à demissão do secretário de Estado da Proteção Civil, Costa sustentou que "o Ministério Público está a investigar todos os procedimentos" e recusou "retirar conclusões antecipadas". "No Estado de Direito temos de respeitar a autonomia pela investigação, a independência dos tribunais e a presunção da inocência", acrescentou, fazendo questão de elogiar o trabalho de Artur Neves na reforma das florestas.

 

Sem comentar este caso em particular, Rui Rio aproveitou para desferir um longo e duro ataque ao PS que tem o "tique" de querer ser "dono do Estado" e "uma cultura dominante de ‘jobs for the boys’". Mesmo admitindo que "nenhum partido é virgem nisto", frisou que "a intensidade com que o PS se instala e considera o dono do Estado é diferente", redundando essas nomeações por lealdade política num défice de gestão e na degradação de vários serviços públicos.

Nenhum partido é virgem nisto, mas a intensidade com que o PS se instala e considera o dono do Estado é diferente. RUI RIO, PRESIDENTE DO PSD

Encostado às cordas, o candidato do PS alegou que também meteu militantes do PSD na administração da Caixa e da TAP e ripostou que "essa conversa do ‘family gate’ assenta numa enorme confusão", assegurando que houve apenas três casos detetados em mais de 500 pessoas nos 62 gabinetes ministeriais. E foi ao passado autárquico do adversário para afirmar que também ele nomeou o familiar de um vice-presidente para a administração do teatro portuense Rivoli.

 

António Costa continuou no contra-ataque, recorrendo depois aos candidatos a deputados social-democratas que estão neste momento envolvidos em casos judiciais, continuando, numa referência explícita à expressão usada pelo sucessor de Passos Coelho, que "não se fazem proclamações de banho de ética e depois é à vontade do freguês".

Rui Rio ainda alegou que, em dois anos, um líder não consegue "fazer uma revolução com todos os tiques que os partidos têm", mas já o rival expressava a satisfação com a sua própria réplica neste tema, concluindo que as pedras atiradas ao PS atingiram também o envidraçado telhado laranja.

Interferir nos "locais adequados" da TAP

 

O debate moderado por Natália Carvalho (Antena 1), Graça Franco (RR) e Anselmo Crespo (TSF) só voltou a animar – e aqui sem o dedo do líder do PSD –, quando o primeiro-ministro foi questionado sobre o agravamento dos prejuízos da TAP no primeiro semestre e se mantinha como boa a reversão parcial operada no início da legislatura. Afirmou que essa recompra de parte das ações "é fundamental para a subsistência" da campanha se um dos parceiros privados enfrentar dificuldades e, num momento em que se especula sobre a possível entrada da Lufthansa ou da United Airlines, Costa ainda começou a ensaiar um hipotético exemplo de falência por parte do acionista David Neelman, mas rapidamente travou esse raciocínio.

 

Desculpou antes os resultados semestrais negativos com o "investimento de longo alcance" feito pela transportadora para crescer no mercado americano, mas recusou por duas vezes responder diretamente sobre se mantém a confiança na atual administração da TAP. Costa apenas notou que no acordo firmado "ficou bem separado o eixo de intervenção" estatal, limitado à "parte estratégica" e não envolvendo a gestão corrente, para a seguir deixar o aviso de que o Estado "exerce nos locais adequados" essa capacidade de interferir nos destinos da companhia aérea.

"Partir um bocadinho" na dívida, antes do "trunfo" Centeno

 

Na política económica, Costa e Rio continuaram a evidenciar uma grande proximidade, quer ao nível dos programas e das medidas concretas, quer na trajetória dos resultados a alcançar. A divergência no caminho, apontada e pronunciada sem grande paixão, foi a que marcou a legislatura, com o atual líder da oposição a insistir que "um modelo assente no consumo a puxar pelo PIB não pode dar bom resultado a longo prazo". Ao alerta para o crescimento das importações, Costa ripostou que, além dos aviões da TAP, o principal causador deste desequilíbrio externo é compra de maquinaria e equipamentos para as empresas se modernizarem.

 

Tivemos uma diminuição continuada dos juros da dívida graças à nossa credibilidade internacional, ao cumprimento do défice e à estabilidade política. António Costa, secretário-geral do PS



O líder socialista, que garantiu "nunca ter sido defensor" da reestruturação da dívida, aproveitou ainda este debate nas rádios para reclamar os louros da "diminuição continuada dos juros da dívida nos últimos anos", sobretudo pelos efeitos da credibilidade internacional do país, do cumprimento das metas do défice e da estabilidade política. Contrapondo com o cenário em Espanha, que se prepara para ir novamente a eleições e tem sido penalizado neste indicador.

 

"A razão da descida dos juros da dívida chama-se Banco Central Europeu (BCE), cuja política tem reduzido as taxas transversalmente na Europa e não só em Portugal. O mérito do governo é não ter estragado tudo. Podiam ter feito como no passado e partido tudo e tinha sido uma desgraça; só partiram um bocadinho", ironizou Rio.

 

Quase no final do debate, o presidente social-democrata ainda jogou a cartada de Mário Centeno, em caso de vitória socialista, poder ficar a prazo no Ministério das Finanças, apenas enquanto durar o mandato à frente do Eurogrupo. Ora, Costa viu aqui a oportunidade para jogar aquele que tem sido um dos maiores trunfos da campanha eleitoral. "Mesmo que assim fosse, seria melhor [termos] seis meses do meu Centeno do que quatro anos do seu", rematou.

 

Rio e Costa reclamam vitória na Madeira

O PSD ganhou as eleições regionais na Madeira, mas o resultado não permite repetir a maioria absoluta que o partido alcançou sempre nas últimas quatro décadas. Rui Rio anuiu que esta "é uma vitória mais pequena do que todas as outras", mas falou num "resultado notável" de Miguel Albuquerque por ser "dificílimo suceder a um líder forte, como Alberto João Jardim". Por outro lado, Costa notou que esta derrota "é frustrante", ainda que tenha sido "um resultado histórico" para o partido, pois mais do que triplicou a votação e passa de cinco para 19 deputados no hemiciclo regional.


(Notícia atualizada pela última vez às 13:02)




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