Finanças Públicas “Estamos todos a evitar anunciar a bancarrota”, diz Daniel Bessa

“Estamos todos a evitar anunciar a bancarrota”, diz Daniel Bessa

Em conversa com a Rádio Renascença, o antigo ministro da Economia defende uma solução governativa que envolva o PS como forma de evitar o incumprimento. Mas Miguel Cadilhe, ex-ministro das Finanças, discorda.
“Estamos todos a evitar anunciar a bancarrota”, diz Daniel Bessa
Negócios 17 de março de 2013 às 20:02

Daniel Bessa, ex-ministro da Economia do Governo socialista de António Guterres, afirmou hoje, no Conversas Cruzadas da Rádio Renascença, que “estamos todos no país a tentar evitar o momento final do anúncio ao mundo da bancarrota e do incumprimento”.

 

“Não estou a dizer que estamos em cima desse momento, mas, infelizmente, estamos hoje mais perto do que estávamos há dois meses, estamos mais perto do que estávamos há dois anos. E, portanto, é isso que estamos a tentar evitar”, declarou Daniel Bessa no programa, onde desenhou um cenário governativo envolvendo o PSD, CDS e PS.

“O que estou a propor - envolvimento do PS no Governo- parece-me ser um contributo para evitar esse momento de anúncio de bancarrota. Porque há uma coisa que os portugueses têm de saber. É que se esse momento chegar será muito pior do que aquilo que vivemos hoje. Quem vende o incumprimento da dívida como uma salvação está também a vender uma ilusão. Ninguém julgue que Portugal sai incólume e sem uma penalização muito maior do que temos hoje se tiver de chegar ao incumprimento assumido”, acrescentou.

 

Já Miguel Cadilhe, ex-ministro das Finanças de Cavaco Silva, discorda da avaliação e do cenário proposto por Daniel Bessa, actualmente presidente da Cotec Portugal. “Não sei se estamos mais perto ou mais longe desse anúncio de bancarrota. É difícil afirmá-lo, estamos ainda naquela corda-bamba”, disse Miguel Cadilhe. Que não prevê, a curto prazo, o envolvimento socialista na governação.

Segundo Cadilhe, “o Partido Socialista fez muito por esquecer, por Portugal esquecer, a sua responsabilidade na crise, a sua assinatura no memorando. Espero que Portugal não esqueça. Qualquer que fosse o partido que tivesse responsabilidade na situação a que chegamos eu diria o mesmo. Foi o PS, pois bem, o PS não pode deixar de assumir as suas responsabilidades até ao fim. Um Governo de coligação poderia ter sido tentado antes, agora não me parece viável”.

Relativamente a esta questão, Daniel Bessa crê que o PS só poderá ter condições para integrar uma solução do tipo bloco central depois de eleições. Mas Cadilhe alerta para os riscos: “Não acho que eleições antecipadas seja um bom caminho, atendendo à situação em que nos encontramos. Situação de finanças públicas e de vigilância externa em que estamos. Seria talvez um acto de pouca responsabilidade que isso acontecesse e seria, talvez, um mau sinal”.

 

Na opinião do ex-ministro das Finanças, “nós precisaríamos de ter – olhando para a primeira metade dos anos 80 – líderes partidários como o PS e o PSD tinham quando se fez o bloco central para Portugal receber o Fundo Monetário Internacional e aplicar o programa. Precisávamos de líderes com essa estatura, mas não é fácil”.

“As circunstâncias históricas também ajudavam muito na altura e tínhamos moeda própria, política cambial. Compreendo a ideia do Daniel Bessa, mas não estou a ver que o Partido Socialista queira, tenha vontade e, do ponto de vista estritamente partidário, tenha vantagem em entrar num governo de coligação. Numa perspectiva partidária. A perspectiva nacional é outra. É aquela que move o Daniel Bessa e o Carlos Moreno”, acrescentou Miguel Cadilhe.

 

Prazo de validade do Executivo acaba no Verão

 

Nesta conversa, Daniel Bessa identifica ainda o próximo Verão como o prazo de validade do Executivo: “a meio do ano já será muito difícil lidar com uma execução orçamental muito negativa. O que assistimos é que, mais cedo do que eu próprio admitia, há aqui a confissão de uma dificuldade. Portanto, não acho que este Governo vá cair na rua. Vai cair pelo reconhecimento interno, a que não poderá deixar de chegar, da necessidade de ajuda e de que essa ajuda exige outra solução governativa”.

 

“A ajuda não é nenhum passe de mágica, não vai resolver nenhum problema só por si, mas acho que melhora um pouco as condições do exercício da actividade governativa”, destacou.

Miguel Cadilhe: “Temos as coisas muito esticadas do ponto de vista social”

 

“Tudo isto nos faz pensar que temos as coisas muito esticadas do ponto de vista social, do ponto de vista do equilíbrio, da paz social. A troika, o Governo português, têm de pensar que se perdem o controlo da economia a consequência é uma. Se perdem o controlo social, a consequência pode ser outra, bastante mais difícil de segurar” alertou Miguel Cadilhe. “O argumento sucessivamente passado para a opinião pública de que os nossos credores nos impõem e nada podemos fazer é um argumento que tem pouca força de convicção”, referiu.

“O pior lado é a desilusão e a frustração que isto vai provocando nas pessoas. As pessoas, concordando mais ou menos, aceitaram e acreditaram no caminho proposto. Uns mais, outros menos, mas há uma aceitação quase colectiva, porventura triste, como agora se diz a propósito das manifestações, mas as pessoas aceitaram o caminho. O que não conseguem aceitar e com o que não conseguem conviver é com a frustração de verem que o caminho parece não ter fim. E isso eu acho terrível”, sustentou, por seu turno, Daniel Bessa.

 

Já Carlos Moreno, antigo professor de Finanças Públicas e juiz jubilado do Tribunal de Contas, realçou o facto de que “vemos os técnicos em Lisboa a impor uma coisa e os líderes das instituições como Durão Barroso e Christine Lagarde a dizerem outra”. “Portanto, não podemos passar a vida nesta panaceia de que os credores que vêm a Lisboa nos estão a impor e que não temos outro remédio, porque se os que estão aqui nos impõem, então vamos nós lá aos outros obrigá-los a dizer que também nos impõem, porque a Europa tem aqui alguma responsabilidade”, disse.

 

Carlos Moreno salientou ainda - na sua análise às novas previsões oficiais para a economia portuguesa, divulgadas na passada sexta-feira pelo ministro Vítor Gaspar – que, na sua opinião, “os dois motores do crescimento económico são as exportações e o consumo interno”.

 

“É evidente que há um valor estrutural a preservar, o do saldo positivo nas contas com o exterior, mas quando se abandonou, se estiolou completamente o consumo interno, até assustando as pessoas, fazendo uma má gestão das expectativas, juntaram-se os factores para um resultado ainda pior”, acrescentou.




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