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Unicef: Desemprego colocou maioria das famílias monoparentais portuguesas em grave risco de pobreza

A Unicef analisou o impacto da crise económica dos últimos quatro anos nas crianças portuguesas e concluiu que o efeito foi "dramático". O desemprego é apontado como uma das principais causas do empobrecimento mas os cortes nas prestações sociais também agravaram a situação de muitas famílias.

Bloomberg
Filipa Lino flino@negocios.pt 27 de Outubro de 2014 às 10:31
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A grande maioria das famílias monoparentais em que a mãe/pai está desempregado está em grave risco de pobreza (90%). Na mesma situação estão mais de metade das famílias em que ambos ou apenas um membro do casal estão sem emprego (53%).

 

O alerta é da Unicef que analisou o impacto da crise nas crianças portuguesas. No estudo intitulado "As crianças e a crise em Portugal – vozes de crianças, políticas públicas e indicadores sociais, 2013", pode ler-se que "desde 2008, as crianças são o grupo etário em maior risco de pobreza em Portugal".

 

De acordo com o documento desta organização não governanental, aumentou o fosso entre famílias com e sem crianças. E as famílias numerosas são as mais penalizadas, com um risco de pobreza na ordem dos 41%.

 

O documento, divulgado esta segunda-feira pela Unicef, resulta de um estudo elaborado por um grupo de investigadoras do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com base em investigações recentes e dados estatísticos disponíveis.

 

As investigadoras concluíram que as crianças são o grupo etário em maior risco de pobreza em Portugal. Uma situação que se agravou nos últimos quatro anos com a adopção de medidas de austeridade "que têm impacto directo no bem-estar das crianças ao nível da saúde e educação e dos apoios sociais às famílias, especialmente às mais carenciadas", diz o relatório.

 

A Unicef refere que em 2012 um quarto das crianças portuguesas (24%) vivia em agregados com privação material, ou seja, as famílias dessas crianças revelavam dificuldade em pelo menos três de nove indicadores utilizados a nível europeu para medir a privação. Entre eles pagar um empréstimo, renda e contas no prazo previsto, ter uma refeição de carne ou peixe a cada dois dias ou manter a casa quente.

 

No que diz respeito às políticas públicas o Comité português da Unicef alerta para o facto de entre 2009 e 2012 terem perdido o abono de família 546.354 crianças e jovens, o que representa cerca de 30% dos beneficiários.

 

No início da crise, em 2009, a despesa do Estado no apoio às famílias com crianças (que inclui prestações sociais, equipamentos, benefícios fiscais) representava 1,71% do Produto Interno Bruto (PIB). Um valor, sublinha o relatório da Unicef, "muito distante de alguns países como a Suécia (3,75%) ou a França (3,98%).

 

Também o Rendimento Social de Inserção (RSI) "é uma das prestações que mais cortes sofreu desde 2010", refere o documento, "apesar do seu impacto no combate à pobreza". Uma medida em que "as crianças e os adolescentes são particularmente afectados", sublinha.

 

Tudo isto acompanhado de "um aumento generalizado da carga fiscal através do acréscimo do imposto sobre o IRS e uma subida do IVA, designadamente nas tarifas do gás natural e da electricidade que passam da taxa reduzida de 6% para a taxa normal de 23% em 2011, e do IMI em 2012".

 

E afinal o que dizem as crianças sobre a crise?

 

De acordo com a Unicef, as crianças "têm consciência de que a crise está a comprometer o seu futuro enquanto geração, antevendo as consequências negativas que poderá ter para os seus projectos de vida em termos de formação, do emprego e da vida familiar".

 

O tema da emigração é referido nos inquéritos e as crianças demonstram ainda dúvidas quanto à possibilidade de acederem ao ensino superior.  

 

Quanto às suas famílias dizem que "os adultos estão a sofrer com o aumento do desemprego, a falta de rendimentos, a pressão para trabalhar longas horas". E referem um ambiente de "negatividade" em casa. No consumo também são referidas mudanças, em particular nos bens essenciais.

 

As crianças de famílias menos afectadas pela crise dizem que os pais adoptaram estratégias de racionalização de gastos como comprar as chamadas "marcas brancas", ir menos a restaurantes ou reduzir os presentes de Natal.  

 

Já as crianças de famílias em situação de vulnerabilidade económica sentiram as mudanças "na barriga". Falam em "cortes significativos no consumo de alguns alimentos essenciais como carne, peixe e iogurtes". Também houve menos gastos em roupa e sapatos e deixaram de ter actividades extracurriculares.

 

A Unicef propõe um conjunto de estratégias e faz recomendações ao governo. Entre elas que seja criada uma estratégia nacional para a erradicação da pobreza infantil e o desenvolvimento de um sistema global e integrado de recolha de dados que abranja todos os aspectos da vida das crianças. O Comité Nacional defende que é necessário assegurar que as crianças "são uma prioridade política, especialmente em tempo de crise".

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