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Europa enfrenta o Dragão

Moeda artificialmente fraca, "dumping", pirataria, desrespeito pelos direitos humanos e pelo ambiente. A lista de queixas da Europa, que José Sócrates e Durão Barroso levam hoje a Pequim, é longa e ilustra a relação cada vez mais complexa entre o Velho C

Negócios 28 de Novembro de 2007 às 08:55
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De país de oportunidades a país oportunista. A simplificação é necessariamente grosseira, mas traduz a mudança profunda que estará a operar-se no relacionamento político entre a União Europeia e a China, progressivamente encarada como um parceiro tão incontornável quanto suspeito.

Às estafadas críticas de atropelos aos direitos humanos, de "dumping", de pirataria e de discriminação dos investidores estrangeiros, veio juntar-se nas últimas semanas um rol de denúncias de exportações de brinquedos e medicamentos perigosos, de espionagem política e industrial, e de uma política voluntarista para manter o yuan fraco, inflacionando, deste modo, a competitividade das exportações chinesas nos mercados globais, numa altura em que o gigante chinês continua a exibir taxas de crescimento de dois dígitos, ao passo que a Europa enfrenta, de novo, um cenário de desaceleração. É neste quadro de tensão e de desconfiança acrescidas que José Sócrates e Durão Barroso se reunirão hoje em Pequim com o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, no âmbito da 10º cimeira União Europeia-China.

A agenda "oficial" do encontro é vasta e abrange os grandes temas em que a Europa aspira ter uma liderança mundial, caso das alterações climáticas, da segurança energética, da não-proliferação de armas e do desenvolvimento de África.

Mas os conflitos comerciais prometem abafar o encontro. Em pano de fundo, o imparável défice comercial europeu com a China - que, segundo estimativas de Bruxelas, se agrava a um ritmo de 15 milhões de euros por hora, e que deverá passar dos 128 mil milhões de euros contabilizados em 2006 para 170 mil milhões neste ano. E a desvalorização do yuan, que em 2007 perdeu quase 7% em relação ao euro e, que continua, portanto, a deitar "lenha à fogueira" dos desequilíbrios comerciais. "O défice comercial considerável e crescente está a agravar a ansiedade dos cidadãos europeus em relação à globalização, e está a tornar-se num assunto politicamente importante", avisou Durão Barroso. "Na verdade" - acrescentou num discurso proferido ontem, já em Pequim - "existe o risco de a emergência económica da China ser encarada pelos europeus como uma ameaça".

No espaço de pouco mais de uma década, o gigante asiático converteu-se no segundo maior parceiro comercial da Europa, só (ainda) superado pelos Estados Unidos, e na principal fonte de importações. Mas a intensificação das trocas comerciais tem sido proporcional ao número de litígios, com a UE a ameaçar agora passar das palavras aos actos e acompanhar os Estados Unidos com processos na OMC contra a China e eventuais medidas de retaliação.

Missão gorada

As autoridades chinesas permanecem, porém, pouco permeáveis às pressões europeias. No que respeita à política cambial, Wen Jinbao terá feito questão de esclarecer que está fora de questão uma valorização assinalável do yuan, como é reclamado pelos europeus, que alegam que a moeda chinesa estará a ser cotada mais de 20% abaixo do valor que teria em condições normais de mercado. Segundo a edição de ontem do Financial Times, o primeiro-ministro chinês aproveitou a visita oficial desta semana do Presidente francês, Nicolas Sarkozy, para moderar as expectativas da delegação europeia de alto nível liderada por Jean-Claude Trichet, presidente do BCE, que chegou ontem mesmo a Pequim para apresentar o seu capital de queixa em matéria cambial. Pequim estará disposta a combater o agravamento do défice comercial, mas insiste que a reforma do sistema cambial prosseguirá gradualmente, como previsto.

Porventura como sinal de boa vontade, a moeda chinesa atingiu ontem a cotação mais alta dos últimos dois anos, na sequência das instruções do Banco central que fixou a taxa de câmbio de referência em 7,3872 dólares, o nível mais elevado desde que em Julho de 2005 foi quebrada a paridade fixa com a divisa norte-americana, e estabelecida uma amplitude máxima de flutuação de 0,5%.

Pouco, muito pouco, dirão os exportadores europeus.

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